Entrevista: Marcelo Yuka fala sobre seu primeiro álbum solo

No começo do ano Marcelo Yuka lançou o primeiro álbum solo de sua carreira. Intitulado “Canções Para Depois do Ódio”, o disco apresenta 16 canções inéditas com participações especiais de grandes artistas como Seu Jorge e Céu.

O fundador e ex-baterista do grupo O Rappa ainda pretende fazer um show de lançamento do CD no Rio de Janeiro.

A Nação da Música conversou com Marcelo Yuka para saber um pouco sobre a produção do disco, suas parcerias e expectativas para o ano de 2017.

A entrevista foi feita por Andressa Oliveira.

————————————————————————————————————— Leia a íntegra

– Passaram 11 anos desde que você lançou o seu último trabalho musical, o “Sangueaudiência” do projeto F.UR.T.O. Como é poder divulgar suas músicas novamente depois de tanto tempo?

Não sei. Eu faço discos, na realidade, faço canções. Depois que eu faço essas canções, eu não tenho muito domínio do rumo que isso vai ter. Tem outras pessoas que vão se inteirar por isso ou não. Eu não tenho uma relação muito amorosa com meus discos. Quando eu acabo, eu entrego, e logo já pensando no meu próximo projeto, que pode ser música ou não. Eu sinto que fiz o que tinha que fazer, agora é com os outros. Eu não entendo muito, mas admiro o Leoni, por exemplo, que tem o domínio de toda a sua carreira, distribuição, contato com o público, eu acho que essa independência mexe com meu lado punk. Meu lado punk fica feliz quando vejo isso, mas não sou organizado pra isso. Então eu faço canções, não sei o que virá depois.

– Você comentou que o disco “Canções para Depois do Ódio” foi feito nos últimos dois anos. Como foi o processo de composição e produção desse álbum?

Foi o mais intenso, porque foi quando produzi mais músicas. Eu e Apolo vínhamos trabalhando há alguns anos, mas te confesso que vinha procurando um conceito. Ele me passou muita coisa que eu agreguei ao conceito, mas não era suficiente. Essa coisa afro me surgiu mais evidentemente nos últimos dois anos, quando eu parei pra pensar que eu tinha que colocar algumas coisa do meu essencial, do que era essencial pra mim. E aí me lembrei de quando era pequeno, igual aqui no Rio às vezes, porque teve a proibição do funk que matou muito os espaços de funk, mas você ouvia um funk tocando a distância, nem que fosse de um carro. Quando eu era pequeno, eram os terreiros, que eram mais próximos, porque não havia tanto conflito com os evangélicos. Eles estão colocando, de alguma maneira, os terreiros mais distantes. Pelo ponto de vista do evangélico, as matrizes africanas beiram o pecado. Então tinha um terreiro tocando, um som, e isso me educou. O meu avô também era praticante, isso me educou. Então eu tinha isso em mim, talvez tenha me tornado músico por causa disso. Tenho imagens perto do tambor e isso me batia muito forte, eu muito criança, então eu coloquei isso nesses últimos dois anos mais forte no disco e que bom que as pessoas tão notando que isso é uma característica do disco, pra mim é importante que as pessoas percebam.

– O Brasil, assim como o mundo, tem vivido um momento conturbado em sua história. Como isso foi refletido nas letras do seu novo disco?

Eu acho até que isso foi incorporado de maneira consciente e inconsciente. As minhas agonias e dúvidas compartilhavam com o momento do país mesmo sem eu saber. Sou um cara que gosta de escrever deixando um espaço pra quem está do outro lado fazer sua própria interpretação. Cada vez mais vim me encontrando na ideia que não quero ver a razão das coisas “Isso é..”, não, eu deixo uma lacuna para quem estar ouvindo interpretar. Mas mesmo assim, é lógico, muitas vezes eu sou mais ácido com a postura política, social e tal. Eu adicionei esse momento do Brasil tão forte no disco que o título não seria esse. Eu tinha tirado o “ódio” do título, pois os caras já veem como se eu fosse um black block, e eu respeito a tática, mas eu não tenho coragem de quebrar um vidro, mesmo de uma instituição bancária (risos), eu sou budista, sou um pacifista. Esse momento entrou no disco pela janela, estou muito impressionado. Pra mim é o pior momento político da história do Brasil. É a era do nada. O prefeito é nada, os ministros são nada. Todo dia cai um ministro e ainda vai cair mais. Então ninguém é estadista, todo mundo está a fim de se dar bem. O presidente é um merda, é um nada. As maiores empresas desse país também se colocam mais como uma empresa a procura de divisa a qualquer preço do que prestadora de serviço, então a sua essência é nada. Por mais que a Odebrecht possa fazer obra, ela faz outra coisa pro Brasil. A gente está coberto de um nada. Ninguém quer assumir a que veio, todo mundo tem um desvio de comportamento. Quer dizer, estou falando das instituições nesse momento. Eu tive nas ocupações de escolas no final do ano passado e gostei muito, tem uma molecada que está vindo aí, tem um professorado que é foda. Eu tenho esperança no povo, mas nas instituições esse é o pior momento pra mim.

– Você inclusive mostrou bastante que tem bastante fé no futuro, com as suas letras…

O depois é maior que o ódio. O depois é agora. Eu não quero dividir com o ódio, eu não quero conversar com uma pessoa que tem esse tipo de rancor. Há pouco tempo, numa matéria de jornal, um rapaz comentou que pelo meu ponto de vista eu teria que ficar cadeirante mesmo e que outras pessoas que pensassem como eu tinham mais que ser cadeirante, tinham mais que ser aleijadas. Amigos entraram num conflito direto, de palavras embaixo. Mas nesse primeiro instante eu tentei me negar. Porque eu não quero, nem achando que estou certo, ter diálogo com o ódio. Eu posso ter diálogo com tudo, com o que é diferente de mim, com o que acredita em outra coisa, mas não com o ódio. Como o Bolsonaro, por exemplo, que disse que se ele tivesse um filho homossexual ele batia até virar homem. Isso é um absurdo, isso é o ódio. Tá ganhando. Muitas vezes a gente vive num bolsão de amigos e pessoas que pensam como a gente e não vê como isso tá se alastrando, esse tipo de pensamento. Ou, muitas vezes, a gente se surpreende quando vê um amigo, uma pessoa de quem gostamos e é educada saindo do armário, usando a intolerância e dizendo que bandido bom é bandido morto, essas coisas que nunca resolveram nada pra ninguém. Desde que o mundo é mundo tem essa tentativa do ódio, do rancor se fazer valer como direção social e ela nunca deu melhoria pra gente, então não seria agora. Esse pensamento hoje, na crise econômica… A fome engrossa o ódio. A ignorância é alimentada por poucas chances econômicas. E estamos vivendo esse momento. Só que acho que é o momento de tomada de posição, eu estou fazendo isso. Na verdade, eu sempre fiz.

– “Canções para Depois do Ódio” tem a participação de alguns artistas. Como foi feita essa escolha?

Eu sou muito bobinho, gosto de trabalhar com gente de quem eu gosto. O Seu Jorge faz parte da minha história como músico. Com esse grupo de artistas que veio à tona aqui nos anos 90, o Planet e até mesmo a Nação e o Skank. Eu queria colocar alguma coisa da minha história e teve um momento que eu queria fazer um disco de samba, e essa música veio. Depois descobri que ela estava em alguns HDs e rearranjei ela pra caber nesse disco. Com a Céu eu tinha pouco contato. O Apollo 9 me apresentou e ela fez uma interpretação que me chamou muito a atenção, porque era o que eu queria, mas não tinha tido tempo de falar pra ela. Quase uma transmissão de pensamento. Quando ela mandou eu fiquei impressionado, ela canta como um sussurro, e era isso que eu queria pra canção. Mas eu mandei e ela mandou rápido de volta e eu estava viajando e não tive tempo de falar com ela “po, tava pensando nisso”. Esse é um tipo de afinidade que a arte pode dar. Como ela chegou nessa conclusão de que a interpretação podia ser sussurrada? Eu não sei se a canção sinalizou, talvez a empatia dela com o trabalho que eu tava fazendo levou a essa conclusão quase mágica dela mandar justamente, precisamente, radicalmente, a coisa que eu tava pensando sem eu falar. É uma interpretação bem diferente, isso pra mim é uma prova que temos uma proximidade. A Cibelle também conheci pelo Apollo e se tornou uma amiga, como o Bukassa. Então acho que tenho uma relação de afeto. A relação com os cantores veio do afeto, muito mais do que da técnica, da profissional.

– Você comentou que o ano de 2016 foi um pouco complicado para a sua saúde devido a todo o trabalho. O que você está esperando para 2017?

Como todo trabalhador que hoje está ameaçado, eu quero trabalho. Tive um ano muito difícil, em que justamente uma relação mal administrada com o trabalho me levou a pagar com o corpo, mas eu não consigo ver dignidade sem trabalho, então quero trabalhar, divulgar o álbum o máximo que puder. Quero ir de encontro com quem quer me encontrar, acho que essa música tem essa possibilidade e estou muito otimista. A primeira etapa agora que foi com imprensa foi muito bem cumprida, a aceitação do disco tem sido muito boa mesmo, então acho que a próxima etapa já é show, cuidar do audiovisual melhor. Acho que estou cumprindo e vai dar pra continuar trabalhando.

– Para você, o que vem depois do ódio?  

Antes da queda econômica que o Brasil viveu, antes do golpe, por mais que a gente tivesse um governo que se manteve politicamente, como a gente está vendo aí, preso à corrupção, ele teve mais um plano de poder do que um plano político, mesmo assim a gente teve estudante pobre fazendo faculdade pública, a gente teve muito mais gente indo e vindo num país continental, gente pobre andando de avião, a gente tinha uma esperança com a coisa do petróleo que pode não ter vindo a tona, aquilo era muito frágil pra se sustentar economicamente, os brics e tal, mas era uma sensação boa de que a gente estava indo, então a gente tem que voltar a ir de novo. Ir e ser mais justo. E ser mais justo nesse momento é reparar que tipo de justiça a gente quer, pois a meu ver não é justo prender um cara fumante de maconha, ou um cara com 50 gramas no bolso. Quantos tem um delito pequeno e são colocados no mesmo lugar que grandes psicopatas? Aí você vai nos lugares mais ricos, e esses delitos podem ser privatizados. O uso de droga pela parte mais rica da sociedade é privatizado. Se um garoto é pego pela polícia, é fácil, ele liga pro papai e fala que foi pego, pede desculpas, leva uma grana e fica assim, tudo se resolve, essa é a verdade. E assim com vários pequenos delitos, que não têm perdão nos lugares mais pobres, até porque eles não têm dinheiro pra negociar. Então a crise econômica arrisca as relações, tudo vai ficando mais a flor da pele com a depressão econômica, como a gente tá vivendo, ainda mais com eventos que temos das grandes corporações e instituições. É tanta armação que parece que ser honesto é ser otário. Não, são palavras ainda antagônicas e que devem ser mantidas como antagônicas. O país tá polarizado, mas o poder é sujo em todas as suas características, seja num homem religioso, num político, num homem rico ou num médico. Eu acho que a resistência não é moral, é cultural: nós somos melhores do que isso. Então, o lugar que vem depois do ódio é quando nossa melhor metade vai descansar, e não ficar gritando o tempo todo que existe. Ela vai ser vista com orgulho.

– Quer deixar um recado para os seus fãs, e também pra galera que acompanha a Nação da Música?

Sei que existe, mas não sei o perfil hoje de quem se identifica com meu trabalho. Agora que tô voltando a entender. Sabia que tinha em algum lugar, agora estou encontrando. Não sou uma pessoa famosa, sou conhecido. Acho que é tudo um recomeçar. Me deixa recomeçar, me deixa falar com você de novo, eu tenho história boas pra contar. Vamos juntos nessa.

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Andressa Oliveira
Andressa Oliveira: Metade campograndense, metade paulistana. Iniciou a sua faculdade de Jornalismo em 2012 e escreve para o Nação da Música desde então. Estuda música desde pequena, é obcecada por reality shows musicais e em descobrir artistas novos por meio dos seus covers. Odeia atender telefone, mas não vive sem seu celular. Apaixonada por seriados, livros e filmes da Disney.

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