Foto: Divulgação.
Foto: Divulgação.

No final de setembro, a banda sergipana The Baggios divulgou o terceiro álbum da carreira, intitulado “Brutown”. Com uma sonoridade única e diversas participações especiais, como Jorge Du Peixe da Nação Zumbi, o trabalho já se destaca entre os melhores do gênero e do ano.

Nação da Música conversou com Julio Andrade sobre o novo disco, o processo de criação e também sobre as influências do músico. Confira a entrevista na íntegra abaixo:

A entrevista foi feita por Marina Moia

————————————————————————————————————— Ouça a íntegra

————————————————————————————————————— Leia a íntegra

“Brutown” está reunindo muitas críticas positivas desde o lançamento. Como está sendo essa recepção do álbum pra vocês?
Julio: 
É massa isso, assim, porque quando a gente lança um álbum, a gente não sabe exatamente como ele vai ser recebido. A gente nunca montou um álbum pensando em agradar críticos e público. A gente vai fazendo dentro do nosso gosto musical, vai se agradando ao ouvir em estúdio e quando a gente fica naquela empolgação e rola essa sintonia tanto com o público quanto com a crítica, é uma parada muito boa. Dá, não sei se é alívio, mas dá uma instiga maior também, sabe, de você continuar produzindo algo, de você continuar buscando se reinventar.

- PUBLICIDADE -

O álbum teve uma direção diferente do “Sina”, tem uns elementos novos ali, na letra, no conceito. Então isso é novo. A gente nunca sabe como o pessoal vai receber a novidade. E eu tenho lido realmente coisas muito lindas da parte dos nossos fãs, da crítica, sabe, tratando o álbum como um passo a frente, um pulo master pra banda. Alguns estão falando que é o melhor álbum da banda, outros já estão falando que é o melhor álbum do Brasil. Tudo isso é interessante. Não que a gente viva numa competição, entendeu? Mas ler isso… eles estão demonstrando a empolgação de estar ouvindo o álbum, então minha visualização desses comentários é muito por esse lado. Pô, os caras curtiram tanto que já estão tratando o álbum como álbum do ano ou melhor álbum da banda, ou a melhor música, sei lá. A gente pode dizer que é importante ler por isso, de se sentir instigado de produzir mais. Acho que esses comentários alimentam um pouco a banda.

The Baggios já passou dos 10 anos de carreira. O que mais evoluiu entre um álbum e outro na sua opinião?
Julio: 
Interessante… nunca parei pra pensar exatamente em quais elementos vieram a somar. Eu lembro que o primeiro álbum [“The Baggios”] foi uma coleção de músicas antigas. A gente lançou ele em 2011, mas ele foi produzido em 2010, então digamos que nos últimos quatro anos antes de lançar o álbum a gente tinha acumulado várias músicas ali e lançamos esse apanhado de músicas naquele álbum. Eu não pensava no álbum como um contexto, com um conceito. Esse foi o primeiro álbum, assim, cheio.

No “Sina” rolou uma conexão um pouco maior entre os personagens que tão ali naquele disco e a linguagem que foi abordada no álbum levou as pessoas pra um universo interior, sabe, da cidade do interior. Acho que é uma coisa mais nostálgica. E sonoridade também, tem uma sonoridade um pouco diferente, mas não é aquela diferença de uma banda que tava tocando só ”rockão” ai mudou pro jazz. Nossa soma musical vem de uma forma sutil porque ali no “Sina” já tem uma música que mistura baião com rock, já tem um lance meio latina, sabe, coisas diferentes que não foram exploradas no outro álbum.

A gente não tem medo de experimentar, como eu falei, primeiramente a gente tenta se agradar. A gente fica preocupado no que vai fazer a gente feliz porque a música primeiramente está entre nós, ali no estúdio ensaiando, então depois ela passa a ser do mundo. Nesse momento que a gente está ali criando é o momento mais importante mesmo. O lance é que o tempo também traz novas influências. A gente vai conhecendo várias coisas. Eu nunca parei de pesquisar músicas, nunca parei de buscar coisas antigas, coisas novas, e tudo que eu ouço eu trato como uma influência, por mais que não esteja tão clara ali na nossa música, mas vai vindo novas ideias.

- PUBLICIDADE -

O “Brutown” veio ai com uma nova pegada no conceito do álbum, já teve um direção diferente, uma coisa mais politizada. E teve um lance da gente mudar, depois de 12 anos, a forma de gravar o disco porque a gente nunca tinha gravado com baixo, por exemplo. Nunca tinha colocado o teclado em todas as músicas, sempre tinha uma música ou outra ali. Então isso nos fez mais livres na hora de pensar em possibilidades de arranjos, na hora de criar riffs. Eu já criei coisas pensando em solo, já criei música com estrutura pensando em refrão, solo e coisas mais “tronchas”, coisas mais da pegada que a gente tinha nos outros álbuns. Eu acho que há uma linha evolutiva, de amadurecimento na real, que a gente vai criando as coisas muito no momento que você está vivendo, então eu creio que o tempo está sendo muito positivo pra gente, principalmente pra gente que está ali ouvindo música diariamente, praticando música, a gente nunca aprendeu a tocar, entendeu? A gente sempre está aprendendo a tocar e sempre está evoluindo, pensando em se superar, se surpreender na real. Acho que todos os sons tiveram essa evolução em termo de amadurecimento mesmo.

No “Brutown” foram usados novos instrumentos e vocês saíram da zona de conforto, digamos assim. Também chamaram Rafael Ramos pra fazer parte da produção. Como foi trabalhar com ele no disco e o que ele trouxe de novo pro The Baggios?
Julio: 
Quando eu comecei a compor essas músicas pro “Brutown”, eu fui mostrando pro Gabriel [Carvalho], a gente fez nosso processo de pré-produção quase como o “Sina”; ia gravando os ensaios, gravando as ideias, depois ia desenvolvendo aos poucos. Só que eu já estava compondo música desapegado do formado duo e ai eu já tinha montado uma lista de 30 músicas e eu falei “vamos chamar Rafael”. Eu já tava pensando “eu estou mostrando essa música pra você, mas pensei ela com um baixo, já pensei nela com teclado”. Então a gente estava ensaiando cru ali, mas já pensando nos elementos.

Aí a gente chamou Rafael pra executar essas ideias que a gente estava gerando com essa pré-produção e ele, como um baita músico que é, fez muito bem essa parte de fazer a música soar redonda já nos ensaios e fez com que a gente já chegasse no estúdio sabendo o que queria, sabe? A gente só usou timbre diferente, por exemplo, a gente ensaia e toca ao vivo com sintetizador fazendo os baixos e ele faz com a outra mão, tem essa independência muito grande, é um grande músico. Então a gente se sentiu seguro em ter esse terceiro elemento na banda, sendo um cara que a gente já conhece há muitos anos, já participou do outro álbum, na faixa “Tardes Amenas”, como tecladista e como arranjador nessa música.

O papel dele foi esse, assim, de reforçar nossas ideias e de executar bem também as paradas que ele foi criando; as linhas de baixo foi uma coisa que ele criou quase todas. Havia o direcionamento que eu fui dando pra ele, mas há também o lance da pegada, do suingue que ele tem, aí já é um mérito total do que ele faz. E isso a gente está levando ao vivo também, nos shows, e é uma coisa nova que a gente também ficava naquele medo. Antes havia uma certa tensão tipo “pô, será que a galera vai deixar de gostar da banda por a gente deixar de ser um duo?”. Porque uma das coisas mais legais que rolavam nas turnês era a galera surpreendida, todo mundo ficava de cara com os dois tocando, preenchendo o espaço de não ter um baixo.

Mas eu pensei “meu irmão, a gente está há 12 anos nessa onda”. Chegou uma hora que eu queria me explorar mais como guitarrista, queria me cobrar mais, queria me ver mais explorado. Porque eu fazendo música como duo, é fácil compor com duas pessoas porque “é ou não é” ali, só tem duas opiniões, mas era difícil também criar música pra preencher aquele vazio do baixo, o peso que o baixo dá na música, o que os outros elementos que tem numa banda maior. Eu tinha esse desafio, mas esse desafio aconteceu há tanto tempo que eu me vi me repetindo. Eu preciso me desapegar dessa fórmula, até porque a banda precisa mostrar algo novo. Eu não quero cair na armadilha de ficar naquela zona de conforto de “todo mundo curtiu o ‘Sina’ então toma”, sabe?

- PUBLICIDADE -

E ai que na verdade foi isso. A gente sentiu que estava precisando incluir outra pessoa, então vamos nessa. Não tem essa de “o pessoal vai pensar isso, vai pensar aquilo”. Eu acho que veio no momento certo, veio no momento que a gente estava precisando mostrar algo novo pro público e provar pra gente mesmo também que a gente não era só aquilo. Eu vejo também o Gabriel muito mais solto como baterista, com mais grooves, é outra coisa. A gente está meio que se realizando como músico mesmo, desbravando um novo universo musical com essa formação.

O disco está cheio de participações especiais, como Jorge Du Peixe (Nação Zumbi) e Emmily Barreto (Far From Alaska). Como aconteceram esses convites e como foi trabalhar com tanta gente legal?
Julio: 
O processo de gravação eu trato como se fosse um laboratório de experiências mesmo. Você chega com as paradas meio prontas e ali você vai ver o som maior, e então vem aquelas possibilidades, aqueles pensamentos que vem e acabam ficando às vezes. E foram surgindo ideias. A música do Jorge Du Peixe (“Saruê”), eu vinha conversando com um brother meu, DJ Dolores, o Helder Aragão, que mora em Recife, e ele é amigo do Jorge Du Peixe e ele tinha comentado sobre a banda tipo “pô, gosto muito do ‘Sina’, tenho o vinil, comprei e pá”. E ele perguntou sobre o processo do novo disco e eu falei “cara, a gente está numa pré-produção muito massa, está curtindo as músicas, inclusive tem uma música que eu acho que é a cara do Jorge Du Peixe” ai ele mesmo fez essa ponte comigo, mandou um e-mail pro Jorge e me incluiu, o Jorge super simpático topou na hora. Falou “muito boa a ideia, vamos nessa!”. Eu achei muito massa isso e a mesma coisa aconteceu com as outras pessoas.

A gente estava em processo de mixagem, já tinha passado a pré-produção, ia gravar no Rio de Janeiro na Toca do Bandido, e quando a gente estava gravando vieram algumas sugestões, algumas ideias e quando a gente já estava mixando o disco, nós entramos em contato com a galera. O [Fernando] Catatau também surgiu assim. Queria muito o Catatau no disco da Baggios, até porque admiro muito ele como guitarrista, gosto muito de “Cidadão Instigado”. É uma honra, penso muito por esse lado, de ter um registro que vai ficar eternizado, que é da banda, tendo pessoas que a gente admira muito.

A Emmily também é uma grande amiga, a gente já se bateu várias vezes em estrada, já foi pra Natal, ela já participou do show da Baggios. E tem essa música “Estigma” que é um lance mais pesado e ela tem uma banda muito pesada, a Far From Alaska, e ela canta muito bem, eu curto muito também. Foram coisas que foram surgindo. A gente foi arriscando, a verdade é essa. Mas acabou que todo mundo topou e resultou nesse álbum recheado.

O Gabriel Thomaz e a Erika Martins [Autoramas] tem um papel fundamental nesse álbum. A gravação na Toca do Bandido aconteceu depois de uma conversa. Eu fui tocar no Rio e o Gabriel participou do nosso show lá, dai a gente saiu para tomar uma cerveja, no Glória, no bairro que eles moravam e onde a gente tava hospedado. Ai a Erika Martins falou “vocês vão gravar o disco onde?” e eu falei “pô, a gente tá sem lugar ainda, a gente tá pensando em gravar até em Aracaju mesmo, porque a gente tava limitado de grana. Talvez em Recife…”. Foram surgindo as ideias e ela falou “por que não a Toca do Bandido?” e eu falei que era porque foge muito dessa nossa realidade financeira, mas ela explicou que eles tinham o selo “Toca Discos”, que é dentro da Toca do Bandido, e que eles tem interesse de lançar bandas independentes, que eles facilitam um pouco mais nessa parte de produção. Ela me apresentou ao Felipe Rodarte, que ajudou a gente a produzir o álbum também e dai surgiu um contato massa, ele veio para Sergipe, acompanhou a gente em alguns ensaios, e a gente marcou a gravação. Fizemos campanha no crowdfunding porque dai ficou tudo mais caro devido à viagem ao Rio, os 10 dias de estadia lá.

Cada participação tem um papel muito fundamental pra cada música. Pra gente é uma honra ter todo mundo ali nesse disco e é um disco que é muito especial pra gente porque é um novo ciclo. Quando a gente gravou o DVD de 10 anos e lançou no ano passado, a gente sabia que ali era o encerramento de um ciclo. Dez anos é um período massa pra se fechar um ciclo. E ai a gente começou a desapegar exatamente a partir dali, que a gente queria fazer uma outra onda e viajar mais nas possibilidades do som da banda. A gente escuta muita coisa diferente, tipo gosto muito da música brasileira, eu gosto muito de blues, eu estou ouvindo muito música oriental. Eu estou ouvindo muitas músicas diferentes, que eu não ia conseguir explorar musicalmente como duo. E ai veio na hora certa.

Com qual artista, nacional ou internacional, você gostaria de fazer uma parceria no futuro?
Julio: 
Internacional acho que o Jack White. Ele é um baita produtor e é uma das grandes referências pra mim da atualidade, ele é um dos caras mais “fodões” em termo de produção, de compositor mesmo, ele é um cara muito foda.

O que você está ouvindo mais ultimamente?
Julio: 
Deixa eu olhar aqui meu Spotify e vou te falar [risos]. Mas recentemente, eu estou ouvindo umas paradas nada a ver, que não tem a ver com a The Baggios, por exemplo. Estou ouvindo Bombino, que é um guitarrista que vem da região do deserto do Saara e eles tratam o estilo dele como desert blues, que é um blues do deserto. Eu conheci ele há uns três anos e ele me apresentou ao estilo. E o estilo dele me lembra muito um pouco do blues sulista, do Mississipi, um pouco mais diferente. Porque tem o blues tradicional de Chicago, blues elétrico, que foi popularizado por Johnny Waters, Howlin’ Wolf, mas ai tem um outro lado dele, um outro blues, que é mais roots, e mesmo com banda já tinha uma outra pegada, outra construção na melodia. É um cara que eu curto muito ouvir que é o Junior Kimbrough. Os caras do Black Keys que me apresentaram esse cara também através de um disco que ele fez. Tem uma banda que eu to ouvindo bastante, desse desert blues, que é o Tamikrest. É um grupo dessa mesma onda.

Eu descobri também umas coletâneas de rock da Turquia, umas coisas meio doidas, que é massa porque você vê que existe uma identidade deles lá. Sabe, pega o rock psicodélico dos anos 60 e ai botou toda a parte deles. A língua já é uma coisa muito exótica, ai vem melodia diferente… Olha, tem uma parada no “Sina” que se deve a isso que estou te falando porque se você ouvir algumas músicas tem umas escalas um pouco do que se chama escala mixolidia, que é a escala das Arábias. A música “Alex San Drino” mesmo, o riff principal, ela é total em cima dessa escala e tal. De certa forma isso foi me influenciando, só que de uma forma mais sutil, se você for pegar o som deles é uma coisa totalmente viajada, outra onda. O sangue do rock 70 está muito presente ainda, então eu acabo mesclando tudo isso, principalmente a música brasileira.

Eu passei a escutar mais a obra do Alceu Valença, do Zé Ramalho, do Sá, Rodrix e Guarabyra, esses pra mim são as três grandes sacadas dos últimos anos. E o Raul [Seixas] que é um cara que eu sempre recorro porque ele é o cara do rock brasileiro. Acho que ele revolucionou, ele abriu vários espaços pra outros grandes artistas. É uma coisa muito que me acompanha desde a infância e é nostálgico ouvir Raul sempre.

Comecei a escutar também o rock latino. Luis Spinetta, da Argentina, é um cara que eu ouvi o ano passado inteiro, quase todos os dias e nesse ano eu diminui mais porque vieram outras descobertas. Enfim, o universo da música é imenso. A pergunta que eu acho mais difícil nas entrevistas é justamente essa “o que você tá ouvindo?”. Porque eu to ouvindo tanta coisa sempre, sabe, que foge na hora os nomes, eu vou sempre falando as coisas que vão aparecendo na cabeça.

Quais são os planos pra agora? Vai ter videoclipe em breve?
Julio: 
Tem um videoclipe pronto. A gente rodou esse videoclipe no final dos festejos juninos. É da música “Como Um Tiro de Bacamarte”, que é uma música que fala basicamente do romance de um casal se apaixonando em meio ao festejo junino, em meio a várias manifestações culturais que acontecem em Sergipe, então fala de alguns mestres folclóricos, fala de algumas manifestações, então a gente tentou seguir um pouco ao pé da letra o roteiro do clipe. É um clipe massa e é nosso primeiro com roteiro, com produção um pouco maior, que vai trazer o que é um pouco do nosso Sergipe pro Brasil mesmo. Por mais que a galera saiba que a gente é de Sergipe, não sabem o que acontece em Sergipe, e a gente tem valorizado muito isso. Nossas músicas tem muito a ver com o que acontece aqui.

Quer deixar um recado pros fãs da The Baggios e pros leitores da Nação da Música?
Julio: 
Eu queria agradecer primeiramente o carinho de todo mundo, de coração mesmo. Todo esse feedback que a gente tem recebido com esse álbum tem sido realmente maravilhoso pra gente pra se manter buscando algo novo, planejando turnês. A gente está planejando a turnê, já tem seis datas até novembro e tem surgido mais algumas outras. Até o final do ano a gente deve fechar uma turnêzinha com mais ou menos 15 shows pelo Brasil. Ela está se formando aos poucos, lentamente.

Não deixe curtir nossa página no Facebook para acompanhar todas as novidades do The Baggios e da Nação da Música. Ouça o álbum “Brutown” abaixo: