
Em novembro, a cantora e compositora Bixarte divulgou o segundo álbum da carreira, “Feitiço”, nas plataformas digitais. O trabalho conta com temas como amor e ancestralidade e com participações de artistas como Emicida, Lucy Alves, Johnny Hooker, Monna Brutal, Vó Mera, A Fúria Negra e Ayô Tupinambá.
A Nação da Música teve a oportunidade de conversar com Bixarte sobre a produção e criação do novo álbum, as colaborações especiais e também sobre o futuro e novos projetos.
Entrevista por Marina Moia.
————————————— Leia a íntegra:
Obrigada por falar com a Nação da Música! Primeiro de tudo, parabéns pelo lançamento de “Feitiço”! Pode nos contar como foi o processo criativo deste álbum? Quão diferente foi a experiência comparando com o seu disco de estreia?
Bixarte: Acredito que a maior diferença pra mim do processo criativo de “Feitiço” pro processo de criação de “Traviarcado”, primeiro de tudo, é que eu fui estudar mais. Eu tive mais tempo. Lancei “Traviarcado” há dois anos e, desde de então, eu já vinha produzindo “Feitiço”, que também era um disco que estava pronto há um tempo. Então “Feitiço” veio com tempo de pesquisa, de estudo, de entender quais eram os ritmos que eu queria explorar. Porque apesar do rap ser a minha vertente principal, eu me entendo como uma multiartista, além de atriz, eu sou cantora e posso cantar vários ritmos. Eu queria mostrar para as pessoas que nós, pessoas trans e pessoas racializadas, podemos ocupar e cantar qualquer gênero.
Então “Feitiço” não é um disco experimental como no “Traviarcado”, que eu experimento o pop. É um disco maduro, assertivo, em que eu sei o que eu estou fazendo. Um disco onde eu escolhi as parcerias a dedo. Com Big Jesi como produtor musical e o Guirraiz como mixador e masterizador, a gente formou uma equipe, que apesar de já trabalhar há um tempo, nunca tínhamos feito um disco nós três. Para mim, foi um processo de amadurecimento e de trabalhar com pessoas que acreditam no meu corre como uma arma de transformação social.
Você diz que precisou “voltar pro rap” para reencontrar a sua essência. Como foi esse processo pessoal e artístico?
Bixarte: Porque quando eu lanço “Traviarcado”, eu lanço apostando no pop porque eu acredito que o pop paraibano é um gênero que as pessoas ainda não conhecem. Quando a gente fala de pop, as playlists são sempre formadas por pessoas do Sul e Sudeste. Eu queria apresentar o quão poderosa é uma sanfona e quão poderosos são os ritmos nordestinos, o ritmo que toca aqui em João Pessoa dentro do pop e projetar isso dentro do cenário nacional. Para isso, chamando Urias e Bia Ferreira, que são referências, para feats. Mas quando eu lanço “Feitiço”, eu entendo a necessidade para minha existência enquanto mulher, enquanto travesti, não somente como artista, que o rap é brasa e ele me mantém acesa. São 6 faixas de rap – a primeira parte inteira do disco é rap – e eu trago a Bixarte de 2019, que foi quando eu estreei com o primeiro EP, amador, estreando, e eu também trago a essência do que me fez, a essência da rua, do que se toca, do que se conversa, do que se fala nas periferias. Isso também é pop. Então eu preciso voltar para o rap para entender que eu já fazia pop. Pra entender que pop vem de “popular” e o rap, a letra que eu escrevo, ela é popular.
Depois do impacto do “Traviarcado”, você comentou que caiu numa comparação interna. Como transformou essa pressão em combustível para amadurecer artisticamente?
Bixarte: Eu acho que o fato de ser da Paraíba e morar em São Paulo e entender como São Paulo é uma máquina de fazer dinheiro e pessoas e músicas e ritmos, com muita competição, comparação, que é algo que vejo em todos os cenários, não só na música. Todas as pessoas que eu conheço que tem uma profissão distinta a minha, falam desse lugar ser uma eterna selva de leões. Eu precisei, de fato, voltar ao rap, escutar rap, ouvir e assistir batalhas, para poder entender que o meu som não é um som genérico, que eu não quero fazer um som genérico e que não preciso me comparar nem em números e nem em streamings porque eu conto uma história. E essa história é escutada por quem tem que ouvir mesmo, sabe? Eu sinto que eu transformo essa pressão num combustível para amadurecer artisticamente porque eu entendo que nós, pessoas pretas e trans, não temos o direito de ficar luxando com “será que tá bom?”. A gente tem que acertar para conseguir o mínimo de espaço. Eu saí desse lugar e voltei para mim mesma. Eu ouvi meu coração, ouvi os meus sentimentos, pude falar sobre os meus amores, contar a minha história do jeito que tem que ser contada, não do jeito que eles querem que eu conte.
“Feitiço” foi gravado e produzido por você ao lado do BBS_LAB. Qual é a importância de ter autonomia no próprio som?
Bixarte: A BBS_LAB é esse laboratório de artistas que produzem na Paraíba, em João Pessoa, e o Big Jesi é meu produtor musical, que é um dos diretores do BBS_LAB desde quando comecei. Hoje mais que isso, faz um empresário, faz uma produção executiva, faz um produtor de campo, enfim, é minha família. Eu sempre tive muita autonomia nos meus discos, sempre, por ser com o Big Jesi. Mas esse, para além da autonomia, eu tive o companheirismo de produzir junto mais do que nunca. Cada faixa dessa foi feita com muito cuidado. A gente tem o Mofo Recordes como beatmaker, que é um beatmaker paraibano que sou apaixonada pelo trabalho dele, então eu queria muito que ele trabalhasse com a gente na BBS e ele colou também.
O disco reúne nomes muito diferentes entre si, de Emicida a Johnny Hooker, de Lucy Alves a Monna Brutal. Como você escolheu cada parceria? Como foram os momentos de gravações?
Bixarte: É, o disco é um disco onde eu chamei muitas parcerias que conectam a Bixarte de 2019 – até de antes de eu ser a Bixarte. O Johnny Hooker, que é uma pessoa que eu escuto ali nos meus 17, 18 anos, que me mostrou que amar homem era possível, na época que eu nem mesmo entendia que era uma mulher. É uma referência muito grande. Mas começando do início, chamei Ayô Tupinambá, da música popular e do samba brasileiro, uma travesti maravilhosa por quem sou apaixonada. Acho que ela é macumbeira também, então falar que não foi sorte, foi orixá, é contar que a minha história e a de Ayô está sendo interrompida pelo sucesso, pelo estudo, pelo reconhecimento. Então isso não é sorte, é orixá. Depois de Ayô Tupinambá, eu venho com o Emicida, que é uma referência pra mim desde sempre, desde quando eu entendo o que é hip hop, desde quando eu assistia batalha no Youtube na Lan House. Chamar o Emicida pro disco é dizer que eu to aqui, eu sempre estive fazendo rap, porque a minha vida é o hip hop e ele é a maior referência viva pra mim. Então eu estou fazendo uma música com o meu professor, sabe?
Depois disso, chamei a Monna Brutal, que foi a primeira travesti que eu vi batalhando, de fora, fazendo coisas com homens e mulheres no rap, metendo a cara. Eu precisava da Monna nesse disco. Depois disso eu venho pra Lucy Alves, que é uma referência pra mim como mulher, como atriz, como cantora paraibana, mostrar que nossa “mulheridade” e nossa multiplicidade artística aqui na Paraíba é enorme. Ela toca sanfona e faz um pop, então, pra mim tinha que começar essa parte pop com a Lucy Alves. Depois eu ainda tenho A Fúria Negra e Mari Santana, tenho Vó Mera, Johnny Hooker, enfim, são todas pessoas que eu escolhi porque eu acredito que pra contar a história da minha vida, tinha que ser contada com essa trilha, a trilha sonora que eu sempre ouvi ou que sempre me atravessou.
Com esse novo momento artístico, que caminhos você visualiza para os próximos trabalhos?
Bixarte: Eu quero colher muitos frutos com “Feitiço” porque acho que é isso, um disco em que eu coloquei muita coisa de mim. Muita coisa que eu tinha a oferecer, tudo que eu tinha até aqui. Eu desejo que as pessoas sintam no coração a força das letras que eu escrevi de cada música, de cada batida, de cada virada, de cada edição e mixagem. Porque esse disco foi feito a muitas mãos e com muito amor também. Eu visualizo rodar o Brasil com “Feitiço”, lançar “Feitiço” nos quatro cantos desse país, feitiço de travesti viva!
Gostaria de deixar um recado aos leitores da Nação da Música?
Bixarte: Que vocês continuem lendo a Nação da Música e consumindo a música brasileira porque a gente tem uma imensidão de talentos, artistas, compositores e produtores musicais que são incríveis. Não se limitem também a apenas conhecer artistas com grandes números porque grandes números nem sempre são sinônimos de grandes composições. Procurem a música brasileira verdadeira, que toca nas periferias, que é feita por povos originários, que é feita com a música negra, por pessoas negras. Saiam da bolha e explorem quão rico é o nosso país.
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