
A banda Da Cruz, da afro-brasileira Mariana Da Cruz, se prepara para lançar o novo álbum da carreira, “Som Sistema”, nas plataformas digitais, nesta sexta-feira (23). Com 11 faixas, ela explora suas raízes africanas e brasileiras de forma musical, indo do Amapiano sul-africano ao Baile Funk brasileiro, passando pelo Shatta caribenho e vários estilos de nova música africana de boate.
A Nação da Música conversou com Mariana Da Cruz sobre o conceito e a produção por trás de “Som Sistema”, a história da banda e o que teremos de novidades neste ano, além do álbum. O trabalho está disponível para pré-save aqui.
Entrevista por Marina Moia.
—————————————– Leia a íntegra:
“Som Sistema” parece um manifesto. Quando vocês perceberam que esse álbum tinha que ser assim como está agora?
Mariana Da Cruz: É um álbum que realmente surgiu do princípio do prazer. Nossos seis álbuns anteriores eram bem ecléticos, o que também reflete nossas preferências musicais. Colocamos baladas acústicas ao lado de músicas kuduro e músicas disco dos anos 70. Para este álbum, queríamos fazer algo diferente, mais sistemático, por assim dizer. O objetivo era explorar minhas raízes afro-brasileiras de uma forma musical. Eu não sei – como a maioria dos afro-brasileiros – de onde vieram meus ancestrais. Sei que eram escravos africanos, mas não há documentos que comprovem de que país eles vieram. Fizemos muita pesquisa para este álbum, viajamos por vários países africanos e tentei descobrir onde surgem as vibrações musicais mais intensas. No entanto, não fiz isso com base nas respectivas tradições musicais, mas sim com base nos desenvolvimentos musicais mais recentes. Na minha opinião, a música eletrônica mais empolgante já não vem das metrópoles conhecidas como Berlim, Detroit ou Londres. Ela vem de Luanda, Durban, Kampala ou da diáspora africana.
O álbum mistura amapiano, baile funk, shatta, kuduro e trap. Como foi transformar essa diversidade em uma identidade própria?
Mariana Da Cruz: Foi um processo natural. Eu não queria incorporar os diferentes estilos musicais, queria criar algo próprio, incorporar minha identidade e experiências musicais. Gosto mais de canções do que de faixas. Isso pode ser antiquado. Mas gosto de refrões, gosto também de melodias. Assim, logo ficou claro que iria surgir um álbum de Da Cruz. Mas um álbum em que os elementos eletrônicos estivessem em primeiro plano.
O álbum aborda o colonialismo, a apropriação de terras indígenas e as mudanças sociais. Como você consegue combinar temas tão pesados com um som dançante?
Mariana Da Cruz: Meu parceiro musical, Ane H., é jornalista musical. E ele fez essa mesma pergunta uma vez a Femi Kuti, o filho politicamente muito engajado do criador do afrobeat, Fela Kuti. Ele respondeu que não existe uma forma certa ou errada de transmitir uma mensagem. Na África, dançabilidade não é sinônimo de trivialidade. Eu o vejo da mesma forma. Acho muito triste que, justamente na música eletrônica moderna, as letras tenham se tornado mera decoração fonética. Ou que pareça haver um acordo secreto de que a música de boate só deve girar em torno de temas como sexo e corporalidade. São temas importantes e bonitos, claro. Mas eu tinha a pretensão de oferecer algo mais do que meros gemidos de prazer.
Que tipo de diálogo vocês querem estimular com “Som Sistema”?
Mariana Da Cruz: Tenho a impressão de que, há algum tempo, a música brasileira está muito apaixonada pela nostalgia. Com exceção do baile funk. Há muitas referências ao movimento tropicalista, ao samba rock dos anos 70 ou ao hip hop dos anos 90. Acho legal experimentar coisas novas, confrontar a música brasileira com novos estilos, ou usar novas experiências musicais.
Da Cruz existe há mais de 15 anos e já lançou seis álbuns. O que mudou na sua postura artística e política desde o início?
Mariana Da Cruz: Da Cruz é um choque cultural. Minhas raízes musicais estão na MPB, na bossa nova. Meu parceiro musical, Ane H., tinha suas raízes no underground musical europeu, tinha uma banda industrial e ouvia coisas como Einstürzende Neubauten, Electronic Body Music ou Free Jazz. O que temos em comum é que somos muito curiosos e abertos, gostamos de dar espaço um ao outro e queremos criar uma música em que as identidades culturais se fundam. No nível político, nossa perspectiva não mudou. Trata-se de ser crítico. Observar. Trata-se de que só uma sociedade educada e esclarecida pode fazer um país avançar.
A aparência visual e a estética do projeto estão em estreito diálogo com a música. Como a imagem e o som se influenciam mutuamente no Da Cruz?
Mariana Da Cruz: Escolhemos conscientemente um layout moderno para este álbum e – apenas no aspecto visual – experimentamos muito com a inteligência artificial. Criamos um avatar meu para as capas, que colocamos em vários espaços. Acho que essa tecnologia está em uma fase empolgante. Ela ainda comete erros, ainda não obedece como logo vai fazer.
E surge uma estética que, em sua imperfeição, provavelmente será única e dificilmente reproduzível. É, portanto, uma estética que é um reflexo deste tempo, com todas as suas incertezas e irritações. A ilusão ainda não é perfeita, mas as possibilidades ilimitadas estão se tornando inequivocamente evidentes.
Como este álbum prepara o caminho para os próximos passos do Da Cruz?
Mariana Da Cruz: Vamos continuar imprevisíveis. Gravamos recentemente um álbum de baladas, com flugelhorn, violão e contrabaixo. Uma mistura de dream pop, bossa e new wave. Mas ainda não sabemos ao certo se vamos lançar isso em seguida ou se vamos continuar pesquisando um som eletrônico independente. No momento, nosso lema é que queremos celebrar a vida. Nos últimos dois anos, tivemos muitas mortes no nosso círculo mais próximo. Provavelmente ainda não estamos prontos para sair em turnê com um álbum pesado e melancólico.
Vocês gostariam de enviar uma mensagem aos leitores da Nação da Música?
Mariana Da Cruz: Existe uma análise dos serviços de streaming que diz que as pessoas param de se interessar por novas músicas aos 30 anos. Para mim, isso é inimaginável. É como se eu desligasse minha curiosidade aos 30 anos. Revistas como a “Nação da Música” são tão importantes porque estimulam essa curiosidade e despertam o desejo de novas descobertas. Então, minha mensagem é: continuem curiosos!!!
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