Entrevistamos Setor Norte sobre álbum de estreia “Palavras Inteiras”

setor norte
Foto: Tchello Oruê

No final de novembro do ano passado, o duo Setor Norte divulgou o álbum de estreia “Palavras Inteiras”, pelo selo Alma Music, nas plataformas digitais. O projeto é formado pelos músicos Pedro Yuka e Rômulo Catharino

A Nação da Música teve a oportunidade de conversar com Pedro Yuka sobre a produção e os bastidores do trabalho, as colaborações e também sobre o que podemos esperar dos projetos futuros.

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Entrevista por Marina Moia.

————————————- Leia a íntegra:
O nome “Palavras Inteiras” faz um contraponto direto a “meias palavras”. O que vocês sentiram que precisavam finalmente dizer sem filtro?
Pedro Yuka: Na verdade, esse contraponto com “meias palavras” que a gente fala, não é necessariamente sobre falar algo sem filtro, mas é sobre a gente trazer essa coisa do manifesto para dentro da música. Um tempo atrás era mais comum a gente via mais isso na música, os artistas se posicionando e podendo se expressar, falando politicamente, economicamente, falando sobre a sociedade, cada um da sua forma. Mas eu, particularmente, percebi que nos últimos anos isso tem diminuído. As pessoas têm, cada vez mais, medo de se posicionar. Às vezes ficam com medo de perder os fãs, diminuir os números. E, na verdade, eu acredito que o nosso trabalho está justamente aí: na música como ferramenta, na música enquanto forma de comunicar, na música enquanto poder trazer para as pessoas coisas que talvez elas não tenham parado para refletir ainda ou então até refletem, mas na correria do dia a dia, aquilo acaba passando batido. Então a gente traz a música como forma de ferramenta social mesmo. Esse álbum é um manifesto. Então não é muito sobre o que a gente precisa dizer sem filtro, mas é sobre resgatar esse sentimento de posicionamento e de trazer o nosso posicionamento.

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O disco mistura denúncia e intimidade de um jeito muito particular. Como foi o processo de assumir uma identidade artística “sem concessões”, como vocês descrevem?
Pedro Yuka: Na verdade, foi um processo natural. Com esse álbum a gente teve bastante liberdade, foi bem orgânico, ele marca um processo. Ele é basicamente um registro. Antigamente, tinha a coisa do vinil, que captava às vezes uma gravação, um momento específico… E acho que esse trabalho é um pouco disso, esse álbum é um pouco disso. A gente captou em um momento. Esse álbum representa um momento. Um momento particularmente da minha vida, que está muito envolvido com o luto, então na maioria das vezes eu parti de um posicionamento individual, de uma busca individual, de um olhar interior, das minhas próprias fragilidades, e aquilo sempre me levava para um olhar exterior, para um olhar social. Eu sempre partia do micro pro macro e isso de forma orgânica. Então essa identidade surge a partir daí e de uma forma completamente orgânica de como compor, de como observar o mundo.

“Feat com quem eu amo” nasce da perda do irmão mais velho do Pedro, Marcelo Yuka. Como transformar uma dor tão profunda em criação e ainda conectá-la a uma crítica social?
Pedro Yuka: Acho que a questão dessa faixa está justamente dentro desse campo do que eu acabei de falar, da minha forma de compor, da minha forma de enxergar as coisas ao meu redor. Muitas vezes eu parto de um olhar interno e isso acaba se conectando com o mundo externo. Eu acredito muito que as coisas são conectadas no sentido de que o coletivo sempre vai esbarrar no nosso individual. A sociedade sempre vai esbarrar no indivíduo. Isso rapidamente leva a gente a pensamentos críticos em relação à sociedade. Se tudo que eu faço reflete no outro e o que o outro faz reflete em mim, então nenhum pensamento ou atitude é completamente isolado. Isso passa também por processos de segurança pública, de economia, de desenvolvimento, de tudo. Toda ação na sociedade tem uma reação. Se eu não dou educação, não dou oportunidade, eu gero desigualdade, eu gero violência, então o individual vai fazendo o coletivo nesse sentido. E nesse caso foi a forma como eu encarei o luto, como eu percebi também o meu irmão enquanto artista. Porque até então meu irmão era meu irmão. Em casa ele era Marcelo, ele não era Yuka. Tem muito desse encontro de entender quem foi meu irmão artisticamente e de eu observar isso pra dentro de mim e falar “caralh#, realmente, tudo está conectado”. O indivíduo não sobressai. Parte um pouco desse princípio, da coisa do luto individual, mas que vai se conectar com o mundo de alguma forma.

Como funciona a dinâmica criativa entre vocês dois?
Pedro Yuka: A dinâmica criativa é muito fluida. Ela simplesmente acontece. Às vezes eu tô na rua, percebo alguma coisa, e começa escrever uma letra, uma melodia de voz, eu gravo uma guia, e mando pro Rômulo. Às vezes eu faço uma base aqui em casa e mando pro Rômulo completar lá e depois ele me devolve e eu gravo a guia em cima. Às vezes ele faz um beat, me manda, e eu adiciono coisas. Não tem uma fórmula. Eu acho que a única fórmula que tem nesse processo todo, em mim como compositor, é a observação do mundo. Eu tenho um caderninho, um bloco de notas no celular também, que eu vou anotando coisas diariamente. Às vezes eu estou andando na rua, observo uma cena, paro e aquilo me gera uma estrofe. Enfim, é muito da observação. Eu vou anotando e depois a parte de musicar tudo isso é bem fluida, ela não tem uma fórmula.

O álbum conta com algumas colaborações especiais. De que forma elas contribuíram para revelar novas camadas da identidade do Setor Norte?
Pedro Yuka: Essas colaborações vêm na esteira da observação do outro. Tudo que a gente começa a colaborar e traz outras camadas artísticas, outros pontos de vista, crescem o nosso trabalho. Ter essas participações foi bonito no sentido também da gente se desafiar, sair do nosso mundo e trazer outras pessoas para trabalhar com a gente. E também para trazer um novo olhar sobre a nossa obra. Às vezes a gente fica muito imerso dentro do nosso trabalho e vem uma pessoa de fora e fala “pê, você já viu desse ponto de vista aqui?”. E você vê que realmente faz todo sentido. As colaborações são muito importantes nesse sentido e a nossa identidade é muito forte, então as colaborações vêm para somar.

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Depois de um álbum tão completo e tão honesto, quais caminhos vocês querem explorar daqui pra frente?
Pedro Yuka: Agora o nosso foco é o show. Poder entregar um bom show, um show com bastante impacto, um show forte, um show que tenha diversos momentos de energia maior, contemplativos, momentos onde todo mundo vai fazer uma sessão em cima do palco e tocar. Então o nosso foco principal agora é entregar um bom show pra gente conseguir ir adiante com a nossa carreira e poder vivenciar novas experiências e poder fazer novos trabalhos com novas perspectivas, uma nova cabeça.

Gostariam de deixar um recado aos leitores da Nação da Música?
Pedro Yuka: Eu acho que o recado que a gente tem pra deixar pros leitores da Nação da Música é, claro, observem nosso trabalho, deem oportunidade pra gente, pro nosso som, pro nosso álbum que foi tão difícil de fazer, com um processo longo. Mas também dê oportunidade a outros artistas porque a gente precisa de outros artistas se posicionando, a gente precisa de artistas que tenham essa consciência social, de classe. Artistas que conseguem devolver um pouco da sociedade para dentro da arte. Porque eu acho que no final das contas é isso: o artista só devolve, ele não cria nada. Ele só devolve aquilo que absorve da sociedade diariamente. Que todos nós tenhamos oportunidades de poder demonstrar o nosso trabalho, que é algo tão difícil hoje. Forte abraço aos leitores da Nação da Música, muito obrigado pela oportunidade que vocês estão dando pra gente de mostrar nosso trabalho e de falar sobre ele. É muito importante pra gente.

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Marina Moia
Marina Moia
Jornalista e apaixonada por música desde que se conhece por gente.