Entrevista por Isabel Bahé.
————————————– Leia a entrevista na íntegra:

A sua música mais recente, “Botucatu”,inspirada na sua cidade natal, fala de temas de identidade e pertencimento. Como sua cidade inspirou a composição?
Tom Ribeira: A cidade de Botucatu, onde eu cresci, é uma cidade como muitas outras da nossa América do Sul, seja no estado de São Paulo ou em outros estados do Brasil e de outros países desse continente, que é tão rico em cultura, tão rico em coisas que me fizeram crescer e amar esse lugar.
E eu senti um dia que Botucatu era só uma parte de um todo, igual eu sou parte de um todo. Nós somos todos hermanos sul-americanos, de uma certa maneira, como a música fala. Então, Botucatu, pela sua natureza exuberante e linda, pela simplicidade e pelo calor das pessoas, me tocou e me inspirou muito para retratá-la. Mas não é porque falo dela que estou dizendo só de uma cidade; é uma maneira de falar de todas as cidades, da cidade particular de cada um.
Recebi uma mensagem muito fofa esses dias de uma querida do Maranhão: “Tom, estava ouvindo ‘Botucatu’ e queria dizer que me identifico muito com muitas coisas que você diz, mesmo sendo de outra cidade”. Eu adorei saber que essa ideia que eu tive, uma sensação quase que global de ter nascido aqui nessa terra, vivido nessa cultura e ter as experiências que os sul-americanos têm, que toda classe trabalhadora do nosso continente tem, é uma coisa que todo mundo identifica.
Como foi o processo de composição da letra de “Botucatu”?
Tom Ribeira: Essa música faz parte de um grupinho de canções que eu escrevi de uma maneira muito natural. A letra veio junto com a melodia e a harmonia. Passei minha infância inteira vendo o Rio Lavapés todos os dias, porque eu nasci e cresci numa casa do lado do rio, literalmente a 40 metros. Eu o via todo dia, atravessava ele para ir e voltar da escola, para as coisas que ia fazer. Então, retratá-lo na música veio naturalmente: “o Lavapés que lavou os meus pés”. E, tenho que confessar, lavei uma ou duas vezes o pé nele, porque depois ele começou a ficar um pouco poluído, sabe? Como alguns rios da nossa América do Sul, infelizmente, ficam.
Mas as outras imagens que aparecem, como o “pé do gigante”, se trata de uma formação geológica rochosa que acontece ali em Botucatu, e tem um mito que vem desde a época dos nativos brasileiros, sobre um gigante que estava deitado ali e cujos pés são as três pedras. Esse lugar é muito importante até para os caminhos do Peabiru, que é uma mitologia também sul-americana.
Muitas das coisas que aparecem na música vieram de maneira natural, mas eu já tinha pensado muito sobre a simbologia disso tudo: um rio que lava o pé, as ladeiras da cidade… Coisas que eu sempre vivi e que saíram nessa música naturalmente, como uma maneira de homenagear a cidade, trazer personalidade para a música e homenagear também a cultura sul-americana, bem latina.
E seu outro trabalho, “Vênus ou Urano”, traz a tentativa de alcançar algo que está muito longe. Como surgiu esse conceito para a música?
Tom Ribeira: “Vênus ou Urano” faz parte de outras músicas que são mais românticas. A maior parte das músicas que escrevo vai nesse tema de inspiração, de algum tipo de romantismo. Muitas vezes surgem de experiências que vivi, que vi, ou que nunca vivi, mas imaginei.
Eu gosto dessa música porque é meio espacial; ao mesmo tempo que é misteriosa, conta algumas coisas sobre “esse ser que carrega em si a mais delicada forma de você”. Tive a inspiração vendo um desenho uma vez de um personagem chamado Urânia, de uma artista de São Paulo, a Pamela Munhos, uma amiga minha. Essa música já existia antes, e depois aprimorei essa ideia do Vênus ou de Urano, incrementando-a. Não foi uma música que escrevi de uma vez; foi ao longo de muito tempo, e finalizei pouco antes de lançar, uns dois meses antes, juntando muitas vivências e sensações.
E você disse que compõe a partir de cenários e sentimentos. Além de “Vênus ou Urano”, você poderia dar outro exemplo de como uma vivência sua se transformou em música?
Tom Ribeira: “Pedaço”, a faixa título do meu novo EP, é uma música que nasceu de algumas sensações que tive durante a adolescência, de não conseguir me aprofundar em relações. Coisas que podem machucar alguém, pensar: “Pô, eu posso machucar alguém, posso me machucar também, e não consegui ir mais fundo onde quero nessa conexão”.
Outro exemplo é “Baião de Dois”, uma música que compus e ainda não saiu, mas está gravada e pronta para sair nesse EP. Foi composta para minha companheira, Agnes Nunes. Quando a conheci, foi uma inspiração tão grande, do dia que passamos juntos. A música nasceu igual “Botucatu”, de uma vez só. É uma das minhas preferidas, e se chama assim justamente por Agnes ser da Paraíba.
E você é um artista de MPB, equilibrando influências de diversos outros gêneros, como pop e samba. Como você equilibra essas diversas influências de gêneros brasileiros?
Tom Ribeira: A música, para mim, é algo que exprime sentimentos de dentro para fora. E eu senti tantas coisas lindas ouvindo tantos boleros no radinho do meu avô, tantos raps no MP3 do meu irmão, tanta música antiga com minha mãe e meu pai.
A riqueza musical do Brasil é uma coisa única, nunca vi isso em nenhum outro país, em nenhuma outra cultura, salvo por alguns países do Sul Global, que também têm uma riqueza cultural muito grande. Mas o Brasil é impressionante. Todos esses ritmos me mexem muito, me tocam aqui.
Então, quando começo a escrever, muitas vezes escrevo em ritmo de samba, de coco ou de forró, por ser um ritmo que aprendi a tocar primeiro no violão. Então, o ritmo sempre nasce de uma coisa bem tradicional brasileira. E, junto com meu produtor outros parceiros, tento quebrar e sair desse ritmo mais tradicional, misturando com ideias mais pop.
“Pedaço” é uma música que compus em ritmo de forró. Quando mostrei pro meu produtor, ele deu a ideia de dar um toque diferente na bateria, com um chocalho diferente, para dar uma ideia de “misturando mundos”, trazendo mais complexidade, mas sem perder o simples, que também é bonito.
Sempre tento medir essa régua do tradicional brasileiro, entendendo meu lugar nessa cultura, o lugar dela no mundo, a importância de tudo isso, e dar um toque do que eu e as pessoas com quem trabalho achamos legal sonoramente.
Quais artistas você considera suas principais referências na música?
Tom Ribeira: Nossa, são muitos artistas que cresci ouvindo e que conheci hoje em dia. De letra, ritmo e irreverência, Bezerra da Silva, Elza Soares, Tom Zé. Eles inspiraram mais esse lado da ideia por trás da música. E daí tem referências da beleza, da perfeição, da virtuosidade: Gal Costa, Milton Nascimento, Djavan, que é abstrato mas tem um ritmo e melodia incríveis.
Então, você gosta muito de artistas que brincam tanto com a melodia e a estrutura musical quanto com a própria poética da composição?
Tom Ribeira: Eu gosto muito. A Tropicália foi minha maior inspiração na música. Cresci ouvindo muitos artistas dessa época, desse movimento. Essa mistura toda, desde Geraldo Vandré até Rita Lee, me influenciou muito. A Tropicália é uma coisa que não posso deixar de citar.

Por que você escolheu “Pedaço” para ser a faixa-título desse projeto?
Tom Ribeira: Escolher o nome de um EP é uma coisa que nunca tinha feito na vida. “Pedaço” traduz muito bem, para mim, esse primeiro “pedaço” meu que vai para o mundo. Seis músicas vão para o mundo, e o nome representa bem essa nuance de sentimentos, temáticas diferentes, em “pedaços” diferentes mesmo.
E o que o público pode esperar do seu primeiro EP?
Tom Ribeira: Muito sentimento sincero, que está naquelas letras e melodias. Podem esperar muito groove gostoso e bom. A minha banda destrói no groove. Tem músicas que parecem gravadas com beat, mas são ao vivo. A precisão deles, a energia, saber equilibrar a dinâmica me impressiona muito. Espero que impressione vocês também.
É um EP que não é só meu. Não esperem que seja um trabalho só de Tom Ribeira. Esperem um trabalho de muitos “pedacinhos” de pessoas diferentes que construíram isso. Sou muito grato a todas elas.
Você é apontado como uma revelação da MPB. Como você vê o movimento atual da música popular brasileira e como se enxerga dentro dele?
Tom Ribeira: Acho que a “nova MPB”, para mim pessoalmente, é um termo que tem que ser mais amplo do que é hoje. O funk e rap, por exemplo, também entram como nova MPB, e têm que ser reconhecidos como isso.
Até para não repetir erros do passado. Por exemplo, a música nordestina de Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Fagner e outros grandes artistas, sempre foi considerada “música nordestina” e nunca como “MPB”. Para não cair nesse erro com todas as culturas que temos, acho que o termo “MPB” tem que ser mais abrangente.
E me vejo nesse movimento como um contribuinte, alguém que escutou muitas coisas desse país, dessa América do Sul e do mundo, e que quer somar com ideias de balanço, de melodia. E que quer fazer a música brasileira ser conhecida no mundo.
Quais são os desafios que você vê dentro desse grande gênero, como um artista que já está na ativa há quase meia década?
Tom Ribeira: Os desafios para a nova MPB e para a música brasileira no geral são vários. Alguns são preconceitos, justamente nesse quesito das músicas urbanas. A MPB tem que ser presente no fone de ouvido dos trabalhadores, no ônibus, no metrô, na vida das pessoas. A riqueza musical é algo bonito.
Um desafio para isso talvez seja o monopólio cultural brasileiro, muito grande, de alguns estilos com muito orçamento, vindo de lugares que a gente nem sabe direito. A arte mais singela nasce da pureza e do inocente, não do dinheiro, mas, como tudo hoje é baseado no financeiro, é difícil que coisas naturais floresçam naturalmente. O desafio é fazer música na marra, e que ela consiga ser ouvida, tirando um monopólio cultural que existe no Brasil e no mundo.
Além de um monopólio cultural, também existe a questão dos streamings. Enquanto têm um grande papel na popularização e no acesso, também traz alguns desafios para artistas, principalmente independentes. Como você vê essa situação?
Tom Ribeira: O desafio do streaming é o mesmo da música popular brasileira: vencer essa barreira do monopólio. As plataformas de streaming não deveriam ficar com tanta porcentagem das reproduções. Elas não geram a riqueza da música, o valor que as pessoas estão escutando.
No final, as pessoas escutam o que os artistas, produtores e músicos criaram, as plataformas só disponibilizam. As grandes gravadoras também muitas vezes oprimem artistas que estão começando por não terem meios, por serem ludibriados com dinheiro.
Quem lança uma música tem uma expectativa, e daí você é taxado por números de plataformas, e mede sua arte por isso. É uma visão que não podemos ter e temos que lutar contra. A arte vai muito além dos números. Se minha música tocou uma pessoa, já é algo importante. É essa visão que quero deixar.
Onde você espera estar artisticamente quando lançar esse EP em 2026?
Tom Ribeira: Espero continuar a disseminar minha arte, minhas ideias, vivendo com muitos amigos ao redor. Espero estar artisticamente num lugar melhor do que hoje, porque cada dia a gente vai melhorando um pouquinho.
Espero estar com mais músicas feitas, continuando gravando. Estamos num processo intenso de gravação das próximas coisas, de produção, pensamento e escrita. Então, artisticamente, espero estar evoluindo, assim como pessoalmente espero estar melhor que hoje. Acho que é uma boa resposta.
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