“É um recado coletivo”, diz Kell Smith sobre denúncia contra feminicídio em música

Kell Smith
Foto: Pablo Grotto/ Divulgação

No mês em que se celebrou o Dia Internacional da Mulher, a cantora Kell Smith coloca a arte a serviço de uma causa urgente. Com a faixa “Samba da Zenaide”, do álbum Latino-Americana (2024), a artista aborda de frente a violência doméstica e o feminicídio, crime que matou 1.568 mulheres no Brasil em 2025, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. A música, um hino de empoderamento e denúncia, ganhou novo fôlego nas redes sociais e nos palcos da turnê nacional.

A artista também transformou o mês de março em um palco ampliado para a valorização da mulher brasileira. Por meio de suas redes sociais, Kell tem indicado diariamente uma voz feminina da música nacional, num movimento que conecta passado e presente da MPB. Elis Regina foi a primeira homenageada, e a série segue com diferentes artistas ao longo do mês. A ação acompanha o momento de destaque de “Samba da Zenaide”, presente no álbum “Latino-Americana”, lançado em 2024.

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A cantora também se prepara para apresentar o show “Latino-Americana a Turnê” em São Paulo no dia 7 de abril, data do seu aniversário. Em um formato que mistura grandes sucessos autorais e releituras de clássicos da música brasileira, Kell promove uma experiência de pertencimento, resgatando a potência da MPB em um tempo de canções descartáveis. O show é descrito pela artista como um “manifesto íntimo” sobre o orgulho de ser brasileira.

Em entrevista ao Nação da Música, Kell Smith dá mais detalhes sobre a turnê e comenta sobre o momento atual de sua carreira.

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Entrevista por Isabel Bahé.
————————————– Leia a entrevista na íntegra:

“Samba da Zenaide” nasce de uma realidade dura: a violência doméstica. Como foi o processo de criação e o que te motivou a transformar esse tema em música?
Kell Smith: “Samba da Zenaide” foi destinada a esse momento. Ela foi escrita pelo Joey Mattos, um artista periférico que foi o primeiro a me estender a mão e me convidar para um palco, lá em Presidente Prudente SP. Anos depois, ao ouvi-la na minha sala, eu soube que era essa a mensagem que eu precisava dividir.

Eu já canto a nossa causa em voz alta desde “Respeita as Mina” e tive a honra de ecoar “Maria da Vila Matilde” ao lado da mulher do fim do mundo Elza Soares no Rock in Rio. A música tem o poder sagrado de tirar o que dói do escuro e colocar no centro do debate. Escolher o samba é reverenciar a nossa história; o samba é, por definição, denúncia e resistência.

Você menciona querer transformar a música em um movimento. Como imagina essa rede de apoio na prática?
Kell Smith: Na prática, eu imagino o fim do silêncio e da omissão. A letra é um recado coletivo. Precisamos, sim, “meter a colher” quando a segurança de uma mulher está em jogo. “Samba da Zenaide” vem pra naturalizar a conversa sobre o que tentam tratar como tabu e resolver com omissão. É sobre empoderar a mulher “prendada e trabalhadeira que acorda cedo e vai à luta pra vencer o mal“ para que ela saiba que não está sozinha. O movimento acontece quando a gente deixa de ser espectador da violência e passa a ser rede de proteção, cobrando justiça e garantindo que nossas meninas e mulheres possam apenas existir, sem medo.

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No clipe, há uma preocupação com acessibilidade, como a presença de Libras. Como você enxerga o papel da arte na inclusão?
Kell Smith: Eu sou uma mulher autista. Sou uma pessoa com deficiência e entendo, na pele, o que é a exclusão. A acessibilidade na minha carreira não é um detalhe, é uma missão de vida. Se a música é para todos, na prática precisa ser para todos. A arte só cumpre seu papel social quando ela derruba muros e constrói pontes. Precisamos assumir a responsabilidade de sermos acessíveis por amor, não apenas por lei. Inclusão é chance de pertencimento.

Março é o mês das mulheres. Você está fazendo uma série nas redes indicando uma artista por dia. Como foi escolher essas vozes?
Kell Smith: Minhas redes viraram palco, e escolher esses nomes é um exercício de gratidão e amor. Meu compromisso com a Música Brasileira e com o protagonismo feminino vai muito além desse mês tão importante. É uma luta para não permitir que o algoritmo silencie vozes brilhantes que formaram nossa música. Escolho vozes que preservam nossa memória e vozes que estão construindo o agora. A responsabilidade de manter viva a chama de quem veio antes de nós, e de quem está ao nosso lado, é o que me move todos os dias.

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Elis Regina foi a primeira indicada. O que ela representa na sua formação musical e como mulher?
Kell Smith: Elis é meu primeiro amor, meu norte e minha maior devoção musical. Ela não é apenas uma referência; ela é parte do meu DNA artístico. Me ensinou que a voz é uma ferramenta de coragem e que a interpretação exige entrega absoluta. Ela sempre estará comigo, em cada nota e em cada escolha, porque sua obra é o chão onde eu piso para cantar.

Como é ser mulher, autista e artista em um país ainda tão desigual? E como você enxerga o papel da música como instrumento de mudança?
Kell Smith: É um ato de resistência diária. Eu decidi viver e lutar em voz alta. Em um mundo saturado de informações e inteligências artificiais, ser real é o que nos resta de mais valioso. Minha existência e minha música estão entrelaçadas: eu canto para tirar a gente do piloto automático. A música é a saída de emergência para a alma; ela humaniza o que o sistema tenta automatizar. Eu sou por mim e pelos meus, transformando a vulnerabilidade em força.

No show “Latino-Americana a Turnê”, você divide o palco com artistas locais. Como escolhe essas parcerias?
Kell Smith: Essa escolha é um abraço coletivo. O meu público é quem me aponta os caminhos através das redes sociais e e indica o artista local pra dividir esse momento comigo. Eu não quero estar no palco sozinha; quero que a Música Brasileira, em toda a sua diversidade regional, ocupe o lugar de protagonismo que merece. Juntos, fazemos um movimento de valorização da arte que resiste em cada canto desse país. É sobre dar voz à nossa identidade real.

O que você ainda gostaria de conquistar como mulher e como artista nos próximos anos?
Kell Smith: Minhas conquistas são diárias, assim como minhas batalhas. Como artista e mulher, luto pelo direito de ser real e quero que minha filha herde essa mesma liberdade. Quero ser farol para que outras pessoas não apenas existam, mas vivam com coragem. Mas, hoje, o meu maior sonho e a minha maior oração é pela cura do câncer da minha mãe. Um passo de cada vez, com a certeza de que o movimento da vida é inevitável e o amor é a única direção.

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Isabel Bahé
Isabel Bahéhttps://linktr.ee/isabelfbahe
Jornalista bibliófila que respira músicas.