Entrevistamos Detonautas sobre “Álbum Laranja” e próximos lançamentos

Detonautas
Foto: Bruno Kaiuca / Divulgação.
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MAR ABERTO

No final de julho, a banda Detonautas liberou nas plataformas digitais o “Álbum Laranja”, marcando o sétimo disco de estúdio da carreira deles. O trabalho conta com faixas como “Micheque”, “Carta ao Futuro”, “Kit Gay”, entre outras.

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MAR ABERTO

O novo álbum possui as participações especiais de Gigante No Mic em “Político de Estimação” e Gabriel o Pensador em “Racismo É Burrice”. A Nação da Música conversou com o vocalista Tico Santa Cruz sobre a produção e criação do “Álbum Laranja”, a produtividade na pandemia, a polêmica envolvendo a primeira dama e também sobre os próximos projetos.

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Entrevista por Marina Moia.

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—————————————– Leia a íntegra:
Obrigada por falar com a Nação da Música! O aguardado “Álbum Laranja” é um grande soco no estômago, sem papas na língua, do jeito que deve ser. Nos últimos anos, o Detonautas tem exercido cada vez mais o papel crítico como banda de rock e se posicionando nas canções e redes sociais. Como é o processo criativo na hora de colocar essas ideias e críticas em forma de música?
Tico Santa Cruz: Primeiro quero agradecer, em nome da banda, à Nação da Música que sempre dá espaço pro Detonautas divulgar o trabalho. Detonautas sempre foi uma banda que atuou criticamente no cenário musical desde 2002, no primeiro álbum. Todos os álbuns do Detonautas tem canções críticas ao governo, às questões políticas e sociais. Mas em função obviamente do que vem acontecendo nos últimos anos e explicitamente por conta das questões que aconteceram de 2020 para cá por causa da pandemia, acho que a gente conseguiu condensar neste disco crônicas que poderão ser usadas historicamente no futuro para que as pessoas saibam como a gente viveu esses dois anos, de 2020 e 2021.

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Acredito que a arte tem essa proposta também de ser uma maneira de expressar, condensar ou sintetizar a ira, a revolta, a indignação, e perplexidade, mas também obviamente o acolhimento, o afeto e o amor, todos os sentimentos que estão envoltos dentro de uma situação crítica como essa que estamos vivendo. E no “Álbum Laranja” a gente tem tudo isso. A gente conseguiu fazer um álbum onde o viajante, no caso do futuro, vai poder olhar pra onde a gente está agora e saber um pouco do que a gente viveu neste período.

A pandemia e o isolamento social foram influência, seja positiva ou negativa, na hora de compor músicas? A criatividade foi afetada?
Tico Santa Cruz: O meu processo criativo é muito intuitivo, então ele parte obviamente de alguma reflexão, de algum dispositivo, de algum gatilho, algum sentimento, alguma palavra, alguma música que eu escuto e aí dispara em mim uma necessidade de colocar no papel. Durante a pandemia, eu fiquei muito dentro da minha casa obviamente, porque eu cumpri com o isolamento durante todo esse período. Meu contato com o violão e com a música se estreitou bastante. A diferença de quando eu tô na estrada é que fica restrito só aos shows. Isso acabou me criando essa conexão que trouxe várias músicas e não só essas do “Álbum Laranja”, a gente tem um disco de músicas inéditas para ser lançado ainda neste ano.

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Eu posso dizer que consegui colocar no papel e em melodias todos ou quase todos os sentimentos que foram experimentados por mim e pelas pessoas próximas, pelo Detonautas, nesse período, que ainda continua. Porque temos uns cinco meses dentro deste ano ainda e sem perspectiva nenhuma de retorno dos shows e turnês como elas eram. Aguardando realmente uma segurança vacinal para que a gente possa voltar de maneira responsável. Porque o Brasil tem condições, afinal o SUS tem competência para fazer a vacinação, e torcendo para que os governos municipais e estaduais se organizem já que o governo federal decidiu realmente boicotar a pandemia e assumir o genocídio que a gente está presenciando, infelizmente.

Como foi colaborar com Gabriel, o Pensador e também com Gigante no Mic neste disco? Como surgiram as ideias destas colaborações?
Tico Santa Cruz: O Gigante no Mic eu conheci numa live que eu tava fazendo pra artistas variados, que não estão no mainstream, que estão batalhando há muito tempo. Algum fã do Gigante no Mic mandou o trabalho dele. Eu gostei muito e resolvi entrar em contato com ele via rede social. A gente fez essa música, ele fez um trecho da “Político de Estimação” que fala sobre Darcy Ribeiro, sobre o projeto de destruição da educação, então ele veio com essa letra crítica que é muito pertinente.

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O Gabriel a gente pegou a música de 93, que é “Lavagem Cerebral” originalmente, mas que ele regravou em 2010 chamando de “Racismo é Burrice” no Acústico do Gabriel o Pensador na MTV. E fizemos uma versão e quando fui mostrar pra ele pra ver se ele gostava, se ele aprovava, pra gente seguir em frente, ele gostou tanto que resolveu participar. Foi muito bom pra gente ter o Gabriel. A gente fez uma releitura da música com algumas adaptações porque ela é de 93 e a gente tem uma outra forma de debater a questão do racismo, principalmente incluindo a questão do racismo estrutural. Conversei com o Silvio Almeida, que é um intelectual muito importante, e também com o Preto Zezé, que é o Presidente da CUFA (Central Única das Favelas), que colaboraram com a revisão de algumas pontuações que eu coloquei entre uma estrofe e outra. Foi um trabalho bem bacana, colaborativo, que trouxe mais um holofote para essa discussão tão importante que é o racismo no Brasil.

Com quem mais vocês gostariam de fazer colaborações no futuro?
Tico Santa Cruz: Neste exato momento, com o Marquinhos Menna, que foi o vocalista do LS Jack. A música vai sair em agosto, é uma música dele, que o Detonautas gravou o instrumental e eu coloquei voz junto com ele. Ficou bem bonita, a gente tá bem feliz de estar ao lado do Marquinhos mais uma vez. Ele é uma pessoa que fez parte de todo o histórico do Detonautas desde o começo porque ele é do Rio de Janeiro, o LS Jack também. A gente acompanhou eles começando, estourando, e também todo o drama que o Marquinhos viveu e agora ele se reerguendo também. Ficamos felizes em tê-lo do nosso lado e é isso.

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A gente tem pensado em novas parcerias, a gente tem estudado novas parcerias. A gente vai fazer parceria com a Unabomber, que é uma outra banda muito legal e que vai ser lançada em setembro. Eu to sempre cavucando aqui pra ver se eu encontro algum artista, alguém que se identifique com o nosso discurso, com a forma como a gente se posiciona e também com a nossa atitude. Andei conversando com o pessoal do Black Pantera, que é uma banda que eu gosto muito, e os caras estão agora para lançar o terceiro disco então a gente adiou um pouco essa parceria, mas ela vai acontecer no futuro porque a gente faz questão de criar pontes com artistas que a gente admira. Para a próxima etapa, a gente tem o Marcus Menna e a Unabomber que são artistas com os quais vamos lançar material até setembro.

A música “Micheque” chegou na própria inspiração da faixa, a primeira dama Michelle Bolsonaro, numa tentativa de censura, o que praticamente é uma assinatura embaixo do que vocês dizem no disco todo. Como foi ter essa resposta? Tiveram outras repercussões do tipo?
Tico Santa Cruz: “Micheque” tem muitas variáveis interessantes. Primeiro, que é uma música de fácil acesso. Ela foi feita de uma forma irônica, de uma forma sarcástica, com uma situação triste que foi a agressão do Bolsonaro a um jornalista, que acabou gerando uma reação nas redes sociais por causa dos 89 mil reais e do próprio apelido que a rede social colocou na primeira dama. Eu escrevi essa letra quase como se fosse uma marchinha de carnaval. A gente já tinha uma base de hardcore pronta, encaixei a letra nela, e lançamos. Mais para pontuar mesmo o que estava acontecendo e acabou viralizando porque já tinha meio que um conteúdo engraçado, divertido, rodando a internet em torno da questão, da não resposta dos R$89 mil e que não foi respondida até hoje. Depois, por consequência, quando ela tentou intimidar não só o Detonautas, mas alguns outros artistas também, mas com a consequência dela ter dado visibilidade ainda maior à música e a tudo que aconteceu após essa atitude, acredito que ela tenha voltado atrás e percebido que foi um equívoco tentar censurar. Aliás, qualquer tipo de censura no sentido de algo que é uma liberdade de um país, de uma democracia, a gente não está injuriando, caluniando, difamando ninguém. É uma pergunta. Eu também, por saber a situação toda, tenho cuidado de não me colocar na posição de poder tomar um processo ou qualquer retaliação.

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Acho que o que a primeira dama fez é o que, na Comunicação, chamamos de Efeito Barbra Streisand, que eu vou deixar pra galera procurar no Google sobre o que se trata, mas basicamente é quando a gente quer esconder algo e acaba jogando mais luz nessa coisa que estamos tentando esconder. Foi o que aconteceu. Detonautas parou no quarto lugar nos virais do Spotify, explodiu a bomba do vídeo no Youtube com mais de três milhões de visualizações em semanas, então foi uma música que tem essa representatividade de colocar a pergunta que não foi respondida até hoje. Bastava responder a pergunta que não teria viralizado.

O “Álbum Laranja” tem espaço para otimismo também, com “Clareiras” e “Fica Bem”. Qual foi a importância para vocês de colocar estas duas faixas no álbum?
Tico Santa Cruz: “Fica Bem” foi a primeira música composta dentro da pandemia. Eu fiz pra me acalmar e tentar acalmar as pessoas que estavam em volta. Ela ficou muito bonita, mas a gente não tinha a menor ideia que a pandemia ia passar de um ano, que ia transcender e agravar durante o ano todo de 2021. “Fica Bem” tem essa representatividade e foi a primeira música que eu escrevi na pandemia e que a gente gravou.

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“Clareiras” eu escrevi no final do ano passado, quando eu também pensei que a gente estava caminhando para o final. Mas na verdade a gente não tem como controlar as coisas né, o futuro, o tempo, essas questões que são da natureza. Mas elas são músicas repletas de otimismo e de inspiração para que as pessoas sigam acreditando que isso é transitório. Claro que a gente não sabe quanto tempo isso vai durar, mas tudo é transitório na nossa vida. E a gente precisa ter resiliência e otimismo pra poder olhar pra frente e enxergar no futuro uma possibilidade de se libertar do vírus e do fascismo, dessa situação toda que estamos vivendo de ódio, de ignorância, de mentira, de negacionismo, de autoritarismo, de fundamentalismo.

Agora que o disco foi lançado, quais são os próximos planos do Detonautas para o segundo semestre de 2021?
Tico Santa Cruz: Fico muito feliz com o resultado. Logo no lançamento a gente pegou o número de streamings do disco com mais de 3,5 milhões de streamings só no Spotify. Esse é um número bastante representativo para uma banda de rock no Brasil neste momento em que o rock não é um protagonista. A gente sabe que Detonautas é uma banda que causa muita desconfiança nos críticos e que muita gente gosta de apontar o dedo pros Detonautas por diversos motivos. Mas à medida que a gente vai amadurecendo e aprendendo a lidar com essas questões, a gente vai conseguindo fazer com que as pessoas entendam qual o nosso propósito. Acho que o Detonautas sai da pandemia maior do que entrou, não só como marca, mas como banda, como presença nas redes sociais, como artista, como conteúdo.

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Ainda para 2021, a gente tem um disco de inéditas que foi feito no primeiro semestre da pandemia, mas que a gente só vai lançar agora no segundo semestre de 2021. E a gente tem um grande projeto que é segredo, que está guardado para 2022. Conteúdo e material para lançar pros nossos fãs, pra galera que acompanha o Detonautas, não vai faltar.

Gostaria de mandar um recado aos fãs e leitores da Nação da Música?
Tico Santa Cruz: A mensagem que eu quero deixar é para valorizar os artistas, valorizar a cultura, valorizar a pesquisa, valorizar a ciência, valorizar a liberdade, valorizar a democracia. Acima de tudo, respeitar que podemos pensar diferente, que podemos ter posições diferentes, mas que acima de tudo é com diálogo que a gente consegue construir um país mais justo. Embora nesses 521 anos que a gente vê de História do Brasil, praticamente se evoluiu muito pouco no quesito de respeito e na desigualdade principalmente. A gente precisa diminuir e acabar, se possível, essa desigualdade para que todo mundo possa ter a oportunidade de ouvir música, de fazer música, de usufruir da cultura, mas usufruir também de tudo que é digno numa vida de alguém que nasce num país em que precisa melhorar muito, como é o caso do país. Força na luta e seguimos juntos. Obrigado a todo mundo!

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Jornalista e apaixonada por música desde que se conhece por gente.