Resenha: “Trava Línguas” – Linn da Quebrada (2021)

Linn da Quebrada
Capa de “Trava Línguas”
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MAR ABERTO

“Que a contradição nos banhe com sua feitiçaria” é o pedido que Linn da Quebrada faz em “amor amor”, a primeira faixa de seu segundo álbum de estúdio, “Trava Línguas”, lançado na última sexta (16), como você pôde acompanhar aqui na NM. Seguindo isso, a cantora se coloca a cumprir essa solicitação com maestria, brincando com sonoridades, trocadilhos, semântica e dualidades/contradições da vida como se a mesma fosse uma feiticeira.

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MAR ABERTO

O disco de onze faixas e quase quarenta minutos é por completo uma ode às nuances que governam a exploração de gênero e as experiências de uma mulher trans ou travesti – além de contar com Linn honrando sua cultura como pessoa negra e brasileira. A artista explora muitos ritmos e assuntos, sempre encontrando o fio que une todos estes temas.

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“Trava Línguas” é diferente de “Pajubá” (2017), seu disco de estreia, mas é claro que a artista por trás dos álbuns é a mesma. Enquanto Linn da Quebrada era dominante, sexual e apertava o pé na garganta da sociedade transfóbica a cada linha em “Pajubá”, a protagonista de “Trava Línguas” não perdeu sua dominância, mas conseguiu se abrir ainda mais – explorando todos os cantos da língua portuguesa e a moldando em seu favor para criar um disco que acima de tudo força o ouvinte a refletir, além de aproveitar.

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A abertura do álbum fica nas mãos de “amor amor” que já traz um gostinho do que está por vir. Com versos como “Xica Manicongo que destrave a sua língua”, a faixa faz homenagem a Xica como primeira travesti do Brasil e abre as portas da cultura afrobrasileiras e suas religiões e divindades para o ouvinte, que ao som reminiscente do samba, aprende sobre o que Linn considera como amor. “Sacrifico o meu sangue / Transiciono no negrume” trazem a identidade da artista para o primeiro plano junto com o conceito universal de amor – sendo finalizada com Linn declarando: “Eu amei, não fui amada / Hoje sei o meu valor”.

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cobra rasteira” é a segunda faixa e já temos Linn explorando outros ritmos, com sintetizadores e sons eletrônicos. O ponto alto é a letra, iniciando assim: “Toda nua cheia / Feito cobra rasteira / Ela vem / Me visitar” – trazendo essa figura ao ouvinte, que explora a importância da lua e segue para ser comparada com a mulher da personagem bíblica Ló, possivelmente puxando uma sensação de anseio ou conexão com outro lugar, presente em outras faixas. Fechando os enigmas de “cobra rasteira”, Linn afirma convencer quem ouve ao que não o convém: “Vem ser / Vencer / Você também”, aproveitando-se da sonoridade para grifar o conceito da identidade pessoal e de viver dentro dela.

O último single de “Trava Línguas” antes do lançamento do álbum foi “I míssil”, que é a terceira canção – já intitulada com uma brincadeira entre míssil e miss you, sinto saudade de você em inglês. Mostrando uma face destrutiva, Linn abre-se sobre correr atrás de algo que não tem rumo e você sabe que machuca – rimando por cima de uma batida da DJ paulistana BADSISTA, que pode esconder a melancolia da faixa. “dispara” traz participação de Luísa Nascim, vocalista do grupo Luísa e os Alquimistas, e mistura português com espanhol. Como outras faixas, essa trata de muitos assuntos – começando com um relato sobre o coração disparar ao ver a pessoa amada, transforma-se numa comemoração à ancestralidade. Com versos como “Nem tudo que vende / vem de mim ou vende nós / É ancestral” Linn da Quebrada fala sobre suas raízes e as celebra sobre uma batida latina, não esquecendo o amor, especialmente no verso de Luísa.

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medrosa – ode a Stella do Patrocínio” é um dos grandes destaques de “Trava Línguas”. Ao chegar na faixa, você já é surpreendido pela tranquilidade do ritmo, que força o ouvinte a prestar completa atenção às letras. Stella do Patrocínio, poeta brasileira e potência, foi nomeada poetisa após seu falecimento, com suas gravações se tornando uma ferramenta de batalha e resistência. Linn da Quebrada discorre sobre a artista de forma tão sentimental e tocante, usando “Tenho que enfrentar a violência, a grosseria / E ir à luta pelo pão de cada dia” enquanto conta sobre a inexperiência da poetisa que foi obrigada a lutar por si mesma, de maneira a destacar sua força e emoções.

O meio do álbum é a faixa “onde”, na qual Linn retorna a batidas pesadas e instrumentos eletrônicos – alterando entre cantar mais lentamente e versar rapidamente suas letras poéticas. Se aproveitando de brincadeiras verbais e sonoridades parecidas para entregar uma mensagem pesada por cima do ritmo techno, a artista entrega uma canção que é um convite a se afundar ainda mais no universo de “Trava Línguas”. Em seguida, “pense & dance”, essa é uma canção em que a artista se lança na brincadeira e no aproveitamento das ferramentas da língua portuguesa. Linn fala sobre o mistério de encontrar sua própria identidade: “Eu não sei mais se eu corto / Mas também não sei se eu pinto / Eu corto ou pinto?”, e comemora sua identidade como travesti. No fim da faixa, Linn dialoga descontraidamente e completa a animação da faixa com suas risadas.

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mate & morra” consegue misturar perfeitamente a Linn da Quebrada de “Trava Línguas” e a de “Pajubá”. Ao som de uma batida de balada e mostrando o completo controle que a artista tem de sua voz, a faixa traz a sexualidade para o primeiro plano. Usando trocadilhos e depois trazendo versos de sexo explícito, Linn consegue celebrar e divertir-se – inclusive entregando uma masterização diferente do single lançado no ano passado, sobre o qual você pode ler aqui na Nação da Música.

O maior destaque de “Trava Línguas” é a faixa completamente revolucionária “eu matei o júnior” junto com a poetisa, artista e cantora Ventura Profana. Ao som de um ritmo de rock bem mais pesado que outro momentos do disco, com guitarras ao fundo e percussão constante, as duas mulheres, ambas trans, cantam sobre o ato de matar seu antigo eu e criar sua nova pessoa, vivendo em sua real identidade – processo pelo qual pessoas trans, travestis e não-binárias passam. Assumindo personas inabaláveis, Linn e Ventura expõem a luta pela qual tiveram que passar , como as mesmas dizem: “Para renascer das cinzas / Antes teve que queimar”. O final da faixa tem as duas gritando “Eu matei o júnior”, seção que se prova tão significativa a pessoas trans que passaram ou estão passando por essa transmutação.

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Linn da Quebrada consegue encontrar a música perfeita para seguir a intensidade de “eu matei o júnior”, a faixa “tudo” é bem mais suave, com o instrumento principal dela sendo um saxofone reminiscente ao jazz tradicional. Nessa, a artista usa de novo seu extenso conhecimento da sonoridade brasileira para criar um momento de descanso no meio do mar de “Trava Línguas”. Para fechar o álbum, Linn traz o single “quem soul eu”, que é um completo manifesto de resistência. Com versos como “Eu canto / Eu penso / Eu danço / Eu sento / Eu sinto”, a artista domina seus pensamentos, talentos e sexualidade. Além disso, a faixa consegue entregar uma das mais memoráveis frases do álbum: “Muito prazer, eu sou a nova Eva / Filha das travas, obra das trevas”, assumindo o papel de demonização colocado em pessoas LGBTQI+, afirmando “Eu quebrei a costela de Adão” – pontuando sua independência no seu processo de renascimento.

“Trava Línguas” é um disco que marca qualquer ouvinte – presenciando a revolução de uma pessoa marginalizada roubando o microfone e contando sua história como a protagonista, na forma preferida de Linn – utilizando trocadilhos, brincadeiras de sonoridade e explorando todos os braços da língua portuguesa. Linn da Quebrada traz um álbum completo, com inúmeros sons, momentos e emoções incluídas em suas onze faixas, tratando de uma travesti, negra e brasileira, dominando suas transformações, nuances e contradições. “Trava Línguas” é uma revolução para qualquer um que ouvir – mostrando a contribuição da “nova Eva” à cultura, após ter criado esse espaço para si mesma.

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RESUMO DA RESENHA
Linn da Quebrada - "Trava Línguas"
Estudante de jornalismo, não-binárie e apaixonade por música. Sempre aberte para ouvir qualquer gênero, artista ou década. O universo do pop, principalmente hyperpop, k-pop e synthpop, é onde eu vivo e sobrevivo.