Black Alien
Divulgação

No dia 12 de abril deste ano, após uma pausa na carreira para cuidar de questões de saúde, conforme conta em diversas entrevistas, Black Alien marcou seu reencontro musical com “Abaixo de Zero: Hello Hell”, quatro anos depois de “Babylon by Gus Vol II – No Princípio Era o Verbo”, seu último álbum solo. O disco veio acompanhado de muita espera e expectativa pelos fãs, sendo este um dos motivos que o Nação da Música traz um desmembramento completo do trabalho, com resenha feita faixa por faixa.

Neste lançamento, Gustavo (nome real do artista) trouxe consigo Papatinho, beatmaker famoso por ser um dos integrantes do grupo ConeCrewDiretoria, se destacando sempre nas complexidades de suas batidas, tornando-se um acompanhante de peso para incrementar a musicalidade.

Alternando entre lovesongs e outras abordando abertamente e diretamente os problemas vividos pelo cantor, a produção oscila entre momentos dançantes e outros reflexivos, fazendo com que seja maleável e encaixando-se em diversas ocasiões. A versatilidade é o carro chefe, misturando mais de um estilo e citando outros diversos em suas letras, mostrando que o mesmo é estudioso da música como conceito.

O álbum se inicia com “Área 51”, primeiro single divulgado do CD. Nesta, ele começa anunciando seu retorno, como o dono de clássicos e hits, porém, como mesmo diz, com o “bolso cheio de pinos“, mostrando desde já sua abordagem e reflexão sobre o vício em cocaína. Os sintetizadores que abrem a canção, junto da voz abafada de Gus, dão lugar ao clássico boom bap, com um grave estrondoso e seu vocal forte. A letra é composta de mensagens interpretativas que indicam o agravamento de sua situação com as drogas, como evidenciado no refrão “Plantas já me dão tédio plantas me dão o remédio“. Porém, também fica evidente a luta para sair desta situação. É, em suma, o tema recorrente presente no trabalho.

“Carta para Amy” se inicia com um sampler crescente, que, quando atinge seu ápice, coincide com a entrada do vocal e a batida em seu estilo clássico, com a presença de teclados de fundo. Na faixa, pode-se observar uma busca pelo autoconhecimento, uma descrição pessoal que aborda questões profissionais e pessoais e, principalmente, seu processo de reabilitação, de lutar contra o que vem de dentro, trazendo em seu título uma homenagem a Amy Winehouse, dizendo para ela que, finalmente, se livrou da vida de substâncias tóxicas. Na canção são presentes diversas figuras de linguagem, como analogia, metáfora, prosopopeia, aliteração, entre outras, que incrementam o sentido em seu conto. São encontradas, também, diversas duplicidades de línguas, iniciando uma rima no português e terminando no inglês, por exemplo, como visto na frase “Minha cabeça falante fala pra caralho e aí my talking head stop makin’ sense“, mostrando a versatilidade do rapper.

Em “Vai Baby”, Black Alien se solta na mistura de jazz com hip hop com um flow impecável, trazendo uma letra repleta de sensualidade em uma lovesong dançante, exaltando a produção de Papatinho, fazendo referência até a seu trabalho anterior (ConeCrewDiretoria). O saxofone é marcante e dá um toque singular no refrão e, também, no final, expressando as influências utilizadas para a criação da batida. Há a forte presença da aliteração, criando trava línguas com palavras de mesma sonoridade, como em “Que animal, só no mel, várias luas de… vários sóis no céu e nós a sós aqui, swell” e “Nove meia a gente diverte, inverte quando se move, se nove fosse meia, meia fosse nove“. Ganhou um clipe oficial com uma pegada estrangeira, muita dança de Mia Omori , skate e coreografias.

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A montanha russa de emoções aparece, após a dança da faixa anterior, com o clima pesado de “Que Nem o Meu Cachorro”. Com batidas simples, com toques sintetizados e teclado presente e marcante, o artista utiliza seu poderio criativo para contar um pouco de sua batalha pessoal e do enfrentamento de quem é contra você, fazendo um flashback de sua vida, com momentos de quando era apenas um garoto até o que é hoje, destacando tudo que passou com diversas referências a locais e pessoas. A letra se relaciona ao caso de Gustavo com as clínicas de reabilitação, tendo até o clipe oficial sido gravado em uma delas. Porém, diante de todas as dificuldades, ele alerta da importância do presente, terminando a música com a frase “Porque eu sou o agora, eu sou o agora“.

Em seguida, apresenta-se o que é, provavelmente, a canção com a batida de maior destaque do álbum. “Take Ten” se inicia com uma guitarra solo e, aos que não conhecem, podem até se confundir achando que estão ouvindo um álbum de rock. A voz do rapper, repentinamente, incendeia a faixa com um beat de grave bem forte, porém com a sonoridade de rock and roll permanecendo de fundo. A letra logo fornece outro desabafo do cantor sobre si mesmo, evidente em “Deus habita no silêncio, que as vozes na minha cabeça quebram sem o menor senso“, com o vício sendo abordado de maneira crua e explícita e o enfrentamento de pessoas que não agregam. Os versos que se seguem são ricos em homenagens, começando com uma citação a Jimi Hendrix e, posteriormente, a imitação vocal na frase “Can you feel me?” remetendo ao rei do rap Tupac. Novamente as figuras de linguagem se mostram presentes, principalmente aliteração que se segue no flow impecável do artista. A música tem grande homenagem a John Coltrane, famoso nome do jazz norte-americano, nas rimas e, também, a Dave Bruebeck no refrão, com um jogo de palavras fazendo alusão a seu trabalho intitulado “Take Five”, sendo “Mister Black Take Ten, don’t pass. Mister Brubeck Take Five Inna Di Jazz“.

O rapper volta amoroso em “Au Revoir”, com sonoridade calma e melódica, batidas serenas com a presença de samplers. Nela, o cantor coloca de volta a sensualidade em evidência, com jogos de palavras e muitas rimas em sequência, fazendo diversas comparações de amor e outras situações, enaltecendo o bem estar consigo mesmo. É um breque nos temas mais pesados para curtir e sentir o som, que passa calmaria aos ouvintes.

Como previamente mencionado, o álbum traz nuances de sentimentos. Logo após uma lovesong, retorna-se com “Aniversário de Sobriedade”, com título auto explicativo. Nela, o músico conversa com si mesmo, reconhecendo seu mergulho nas drogas e como isto o está prejudicando. Agregando a este desabafo está um beat mais sombrio, triste, fortificando a mensagem passada. Para mostrar a sua decadência, o compositor lembra de seu trabalho anterior (“Babylon By Gus vols 1 e 2”) para fazer um jogo de palavras que retrata o prejuízo causado em sua vida “Mete a venta, e não produz, bye bye Gus, Babylon by trevas, volume 0, sem luz“.  A faixa não tem refrão e possui pouco tempo de versos, o suficiente para Gustavo passar a mensagem que deseja, novamente agregada por citações, nesta a de Friedrich Nietzsche e sua obra “Assim Falou Zaratustra”, exemplificando as transições e necessidade de passar por cima de certos costumes e hábitos, como o vício em substâncias tóxicas. No final da canção existe uma conversa entre o Black Alien e Papatinho, inundado por um solo de saxofone marcante.

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O astral é elevado em “Jamais Serão”, uma mensagem sobre a grandiosidade de seu trabalho e crítica a outros que não se comparam a ele. Tomado pela batida influenciada pelo jazz, com presença de saxofones e pianos, o ex membro do Planet Hemp dança com seu vocal no melhor estilo bilíngue, misturando inglês e português, como de costume. Aos 46 anos, diz que está no ápice, falando que, apesar de tudo, seu maior e mais antigo vício é o rap, como em “Eles dizem que acabou, informo “não, é só o início” Beatmakers, velhos sócios no meu mais antigo vício“. O jogo de palavras, diversas rimas complexas e referências, incluindo à cultura pop, são presentes, evidenciando sua riqueza musical. Além disso, o cantor faz questão de mencionar que bebe de todas as fontes, se inspirando em outros gêneros, sendo um estudioso da música, como nos versos “Eu bebo jazz, blues, soul, reggae, funk, rocknroll. Respiro hardcore, punk, o flow do Speed, speed flows“. Neste, ele presta homenagem a Speed, falecido rapper que fez dupla com Black Alien no início de sua carreira.

O disco se encerra com “Capítulo Zero”, uma curta faixa relacionada a seu (re) nascimento. Com diversos sentidos figurados presentes, o cantor brinca com as palavras contando sobre seu nascimento, em 1972, fazendo menções a obras do entretenimento da época, como “E.T”, “Faça A Coisa Certa”, “Apocalipse Now”, entre outros. Mostra que está  mais vivo do que nunca, afastando-se das situações prejudiciais apontadas durante o álbum, indo embora e deixando para trás toda a negatividade. O instrumental é aproveitado da música anterior, sendo o mesmo, mas um pouco mais abafado, encerrando de maneira clara que ele está de volta, e bem.

Em “Abaixo de Zero: Hello Hell”, Black Alien retorna resgatando suas origens e, ao mesmo tempo, inovando, trazendo um rap clássico misturado ao jazz, muito em contrapartida do cenário do gênero atual. Remete muito a álbuns do Eminem por falar abertamente sobre seus vícios e os malefícios causados por ele. Cria, também, uma mistura de sentimentos, como angústia, amor, tristeza, alegria, em muitos momentos reflexivos, ampliando a complexidade de sua lírica. A colaboração com Papatinho foi um casamento dos melhores, agregando no trabalho musicalidade impecável entrelaçada com um flow marcante e refinado do cantor, mostrando-se que está melhor do que nunca. A capa do disco muito se relaciona com as letras, apresentando um cenário psicodélico misturado a diversas faces e fases do cantor, contando uma história em imagem de sua trajetória até o momento atual. Em suma, o álbum é um dos melhores lançamentos do rap nacional no ano e, possivelmente, da música brasileira como um todo.