
Nesta quinta-feira (02), a multiartista paraibana Luana Flores apresenta “Cria do Sol Quente”, seu primeiro disco da carreira, nas plataformas digitais. O trabalho conta com nove faixas e teve a produção assinada pela própria cantora com Ramiro Galas e Chico Correa, misturando beats eletrônicos, rabecas, pífanos, percussões, samples e texturas orgânicas.
A Nação da Música conversou com Luana Flores sobre o processo criativo do álbum, a produção do trabalho e também sobre as parcerias musicais.
Entrevista por Marina Moia.
——————————————- Leia a íntegra:
Você define o disco como um trabalho sobre pertencimento, origem e presença. Em que momento sentiu que esse conceito estava pronto para virar álbum?
Luana Flores: Na verdade, sinto que esse conceito foi se revelando à medida que as canções foram surgindo no meu caminho. Escrevo muito a partir do que vivo, mas também sinto que recebo canções com narrativas que precisam ser ouvidas no tempo em que chegam.
Temas como pertencimento, território e origem sempre atravessaram meu trabalho, mas neste álbum eles ganharam ainda mais profundidade. Hoje, me interessa provocar narrativas que nos convidem a pensar, sentir e habitar o tempo presente — entendendo que tudo o que realmente temos é o agora.
Este é um álbum costurado por brincadeiras populares, por sonoridades nordestinas e globais, e por canções que carregam memórias, afetos e a história de um povo. Sinto também que este disco é uma espécie de portal, uma abertura para um mundo mágico — um espaço onde realidade e encantamento se encontram, onde a criança interior pode voltar a brincar, imaginar e acessar outras formas de sentir e perceber a vida.
Como foi transformar lembranças tão pessoais em algo universal para o público?
Luana Flores: Eu sinto que, embora parta de experiências muito pessoais, esse trabalho toca dimensões que são coletivas. Tenho percebido um movimento no inconsciente coletivo de busca por retorno — um retorno às nossas origens, à nossa criança interior, a memórias e saberes que muitas vezes foram silenciados.
Vejo esse retorno também como um caminho de cura e transmutação. Sinto que o mundo está precisando cada vez mais de espaços de leveza, de riso, de brincadeira e de alegria.
Talvez seja justamente aí que o pessoal se torna universal: quando uma memória íntima encontra sentimentos e necessidades que atravessam muitas pessoas.
O álbum mistura rabecas, pífanos, percussões tradicionais e beats eletrônicos. Como você busca equilibrar tradição e inovação?
Luana Flores: Essa é uma característica forte do meu trabalho desde o início. Gosto de trabalhar com colagens sonoras, e brincar com samples de áudios de whatsapp, ou áudios antigos, instrumentos analógicos, máquinas mais modernas. É transportar o passado pro agora, acender e provocar novas ideias para a sonoridade do meu território.
Como foi o processo de produção ao lado de Ramiro Galas e Chico Correa?
Luana Flores: Foi um processo muito inspirador. Com Ramiro Galas, grande parte da produção aconteceu à distância, mas nas poucas vezes em que estive em Brasília a trabalho conseguimos nos encontrar presencialmente, e esses encontros deram um gás muito especial ao processo. Ramiro é uma pessoa muito generosa, tanto artisticamente quanto nas trocas humanas, sempre muito aberto a experimentar, escutar e somar com sensibilidade.
Já com Chico Correa, a experiência foi mais imersiva, dentro do estúdio, brincando e experimentando com diferentes máquinas, timbres e possibilidades sonoras. O fato de morarmos na mesma cidade facilitou bastante essa troca.
Chico foi meu professor de produção musical há quase 10 anos, então trabalhar com ele hoje também carrega uma dimensão muito afetiva. É sempre inspirador criar ao lado de pessoas que admiro e com quem sigo aprendendo.
O disco reúne artistas de diferentes gerações e territórios. Como você escolheu essas parcerias?
Luana Flores: Uma característica forte do meu trabalho é colaborar com artistas nordestinas lgbts, e também transitar por diferentes gerações – é muito engrandecedor criar com as mais velhas, e muito gratificante me juntar com as mais novas para juntas abrirmos os caminhos.
Cátia de França sempre fui fã, grande referência da música paraibana brasileira e gravar com ela foi a realização de um sonho. Juliana Linhares é uma artista que super admiro, em 2021 ela lançou o Nordeste Ficção e eu o Nordeste Futurista, desde então senti que tínhamos que fazer algo juntas. Jéssica Caitano é uma parceira de longa data, já temos uma colaboração e estar com ela novamente é rememorar uma caminha linda e de pertencimento. Chocolate Remix conheci em um festival em Barcelona, me encantei com a sua dinâmica, energia e autonomia no palco, desde esse momento senti que seria massa estarmos juntas – e foi através de um projeto chamado “Latinese” que reune artistas latinos para fazer colaborações, a nossa conexão fluiu e assim trago uma faixa internacional para o disco. Tiquinha Rodrigues que está na mesma faixa de Jéssica é uma mestrona das rabecas, maior honra estamos juntas nessa. No disco trago também mais participações especiais que perpassam e dialogam com todo esse universo.
O Nordeste aparece no disco como um lugar vivo, contemporâneo e em movimento. Quais referências da Paraíba estão mais presentes em “Cria do Sol Quente”?
Luana Flores: Artistas que transgrediram, romperam com o padrão, provocaram e provocam diferentes sonoridades, performance e criatividade, tais como: Cátia de França, Chico César, Chico Correa, Totonho e as mestras de cultura popular como Vó Mera, Mestra Ana do Coco.
O que você espera que as pessoas sintam ao ouvir o álbum do começo ao fim?
Luana Flores: Espero que as pessoas sintam alegria, leveza e vontade de dançar, de se expressar e de se permitir sentir.
Desejo que o álbum as convide a se abrir para a encantarya, para o riso e para experiências que também provoquem reflexão. Que, ao ouvi-lo, possam sentir orgulho e honrar o lugar de onde vieram, reconhecendo suas raízes e memórias.
Também espero que seja um trabalho que aqueça o coração e ativem a criança interior, permitindo que ela volte a brincar, imaginar e existir com liberdade.
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