
O cantor e compositor mineiro Matheus Torres, revelado no programa “Estrela da Casa” (TV Globo), lança nesta quinta-feira (11) o videoclipe do seu mais novo single, “Não é o Fim”, no YouTube. A música integra o álbum “Tanta Pressa”, divulgado pelo artista em março deste ano nas plataformas digitais de música.
A canção começa como uma balada acústica e progride para sonoridades que remetem ao indie e ao hard rock, sustentadas por uma tensão crescente. Já o clipe acompanha essa dinâmica ao combinar projeções de estradas e cidades com cenas intimistas do artista dentro de um carro e tocando violão.
De acordo com o cantor, a narrativa visual parte da sensação de um despertar. A partir desse momento, o cantor performa a música enquanto sua imaginação ainda ocupa a cena. Com o avanço da faixa, os efeitos visuais e o tom psicodélico se intensificam, sugerindo um retorno ao estado de sonho ou um mergulho entre realidade e memória.
Ao Nação da Música, Matheus Torres falou sobre as inspirações que levaram à “Não é o fim”, conflitos pessoais sobre ser artista e o que espera do futuro em sua carreira.
Entrevista por Isabel Bahé.
————————————– Leia a entrevista na íntegra:
“Não é o Fim” trata da ideia de que o fim não é uma conclusão definitiva, mas um estado em aberto. O que te inspirou a escrever sobre este assunto? Isso dialoga com algum momento específico da sua vida ou é uma reflexão mais filosófica sobre relações e pertencimento?
Matheus Torres: Acho que a música nasce do encontro entre experiência pessoal e reflexão. Ela vem de relações, despedidas e ciclos que pareciam encerrados, mas que continuavam reverberando de alguma forma. Às vezes uma história acaba, uma fase acaba, uma versão nossa acaba, mas aquilo não desaparece por completo. Fica um eco, uma presença difícil de nomear.
“Não é o Fim” fala desse lugar em que terminar não significa necessariamente concluir. Existe algo sobre pertencimento também: a tentativa de encontrar um lugar no mundo, nas pessoas, na memória, e perceber que talvez a gente esteja sempre recomeçando a partir do que ficou.
O clipe foi inspirado por “Inside” (2021), de Bo Burnham. De que maneira esse trabalho influenciou sua abordagem visual e narrativa, especialmente na construção desse “road-movie onírico”?
Matheus Torres: Inside me marcou pela forma como transforma um espaço limitado em um universo imenso. É um trabalho íntimo, quase claustrofóbico, mas cheio de possibilidades visuais. Essa ideia me interessou muito: não depender de uma grande estrutura para criar uma experiência forte, e sim partir de uma linguagem honesta, de luz, enquadramento, presença e imaginação.
No clipe de “Não é o Fim”, isso aparece na construção de uma viagem que não é exatamente geográfica, mas emocional. O “road-movie onírico” é uma travessia interna. O personagem não está apenas se deslocando por imagens; ele está atravessando lembranças, estados mentais, ruínas afetivas e pequenas alucinações da própria memória.
Você mencionou a vontade de filmar algo “íntimo e cru”, ao mesmo tempo que o clipe ganha camadas psicodélicas e explosivas. Como foi encontrar esse equilíbrio entre vulnerabilidade e diversidade visual?
Matheus Torres: O equilíbrio veio de tentar manter a emoção no centro. Quando um clipe ganha muitas camadas visuais, existe sempre o risco de tudo virar efeito. Então a pergunta era: isso aprofunda a música ou apenas enfeita? Eu queria que a estética nascesse da vulnerabilidade, não que escondesse a fragilidade da canção.
Acho que existe algo bonito nesse contraste entre um corpo quase parado e uma cabeça em incêndio. Por fora, às vezes, a gente está em silêncio; por dentro, está atravessando um temporal inteiro. O clipe tenta traduzir esse estado: íntimo, cru, mas também fragmentado, intenso e mentalmente expansivo.
Seu novo álbum se chama “Tanta Pressa”. Em que medida essa pressa, tantas vezes mencionada como algo que “nos engole”, foi uma força criativa ou um obstáculo durante a produção do disco?
Matheus Torres: A pressa foi as duas coisas. Como obstáculo, ela aparece nessa sensação de urgência constante, de precisar transformar tudo em entrega, conteúdo, número, resposta. E a música, para mim, precisa de outro tempo. Ela precisa de silêncio, maturação e espaço para que as coisas encontrem sua forma.
Mas essa mesma pressa também virou matéria-prima do álbum. Tanta Pressa nasce da tensão entre um mundo que corre demais e uma vontade de sentir as coisas com alguma profundidade. O disco é uma tentativa de fazer beleza no meio do atropelo, de parar por alguns minutos e perceber o que ainda pulsa.
Você também é escritor, com o livro de poemas “Nuvens Passam Rápido” (2025). Como a literatura alimenta sua música, e vice-versa? Existe uma ponte temática entre o livro e as canções de Tanta Pressa?
Matheus Torres: Existe uma ponte muito clara entre Nuvens Passam Rápido e Tanta Pressa. Os dois trabalhos olham para temas como tempo, memória, amor, perda, pertencimento e essa tentativa de guardar aquilo que escapa. São obras diferentes, mas partem de uma mesma inquietação: entender o que permanece depois que as coisas passam.
A literatura alimenta minha música porque me ajuda a pensar em imagens, cenas e atmosferas. Eu gosto quando uma canção cria um lugar na memória de quem ouve. E a música alimenta minha escrita pelo ritmo, pela cadência, pelo silêncio entre uma frase e outra. No fundo, as duas linguagens se encontram na tentativa de transformar experiência em presença.
Você tem uma carreira longeva, e participou de programas de grande exposição midiática. Como lida com a pressão de lançar um trabalho autoral tão denso e intimista nesse contexto de indústria e audiência imediata?
Matheus Torres: É um conflito constante. Existe uma pressão para comunicar rápido, prender atenção rápido, transformar tudo em narrativa consumível. Eu entendo esse jogo e também faço parte dele. Mas meu trabalho autoral vem de outro tempo interno. Ele precisa atravessar esse contexto sem se deformar completamente por ele.
Participar de programas de grande exposição me deu alcance, experiência e uma compreensão mais clara sobre como a atenção funciona. Mas também reforçou a importância de não confundir visibilidade com identidade. Para mim, lançar um trabalho denso e intimista hoje é uma escolha estética e emocional: continuar fazendo algo que tenha verdade, memória e contradição.
O que ainda te surpreende no processo criativo? E o que permanece como essência desde seus primeiros trabalhos autorais?
Matheus Torres: O que ainda me surpreende é que, mesmo depois de anos escrevendo, a criação continua tendo uma parte misteriosa. A gente aprende técnica, estrutura, repertório, mas a faísca ainda vem de um lugar difícil de controlar. Às vezes uma frase simples abre uma porta enorme. Às vezes a ideia que você procurou por semanas aparece no momento mais banal possível.
O que permanece desde o começo é a vontade de ser honesto com aquilo que estou sentindo. Eu mudei como artista, compositor e pessoa, mas continuo tentando transformar experiência em linguagem. No fundo, acho que sigo fazendo a mesma pergunta de formas diferentes: o que passa, o que fica, e o que a gente consegue cantar no meio disso.
Se “Não é o Fim” fosse o começo de algo, o que você gostaria que ele anunciasse sobre o Matheus Torres do futuro?
Matheus Torres: Gostaria que anunciasse um artista menos preocupado em caber e mais interessado em aprofundar. Um Matheus mais consciente das próprias ferramentas, fragilidades e contradições, sem tentar simplificar demais o que sente para ser mais facilmente aceito.
“Não é o Fim” talvez anuncie uma fase mais cinematográfica, mais literária e mais corajosa emocionalmente. Um caminho em que música, imagem e palavra caminham juntas com mais clareza. E talvez anuncie também uma relação mais madura com os fins: não como ausência, mas como transformação.
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