Resenha: “Solar Power” – Lorde (2021)

LORDE
Foto: Reprodução / Facebook

Quatro anos depois do lançamento de “Melodrama” (2017), uma narrativa completa sobre noites de festa e sentimentos intensos, a cantora neozelandesa Lorde retorna com um novo álbum e uma nova jornada para seus fãs com “Solar Power”, lançado na última sexta (20). Com uma estética dourada, como a própria artista contou em um vídeo à revista Vogue, o disco traz mensagens de evolução, crescimento pessoal, batalhas internas – mas também tratando de alguns temas bastante pesados, como expectativas de outras pessoas em cima dela, finais de relacionamentos e até uso de drogas.

Ao soltar “Solar Power”, o single, em 10 de junho, como você pôde acompanhar aqui na Nação da Música, muitas pessoas apostaram que o álbum que viria nos traria uma Lorde em paz e apenas expressando a felicidade. No entanto, o que foi lançado foi uma junção de busca pelo bem-estar, reflexões sobre tristeza, análises do caminho à frente dela e uma meditação sobre sua fuga da atmosfera de Hollywood – unido tudo em uma odisséia sobre o verão, seus sentimentos negativos e a procura constante por se sentir em paz.

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O álbum abre com “The Path” e realmente segura a mão do ouvinte, guiando-nos pelo caminho que levou Lorde a desenvolver um álbum como esse, sobre esses temas. A faixa traz a artista olhando para trás e percebendo que acontecimentos luxuosos dos quais ela fez parte, também traumatizaram ela – por exemplo em frases como “Milionária adolescente tendo pesadelos vindos dos flashes das câmeras”. Por cima de um instrumental focado em um violão e uma guitarra elétrica crescente – além da presença de pandeiros e percussão – a faixa se enraíza como uma introdução perfeita ao disco quando a cantora assume que está fazendo essa jornada em direção a superar nossas tristezas e reencontrar nossos sonhos junto conosco, tirando-se do papel de guia.

Em seguida, temos a faixa-título “Solar Power”, o primeiro single e a primeira coisa que ouvimos dessa Lorde conectada com a natureza, com as metáforas simbolizadas pelo sol, e que deixou muitos de seus fãs confusos. Com uma atmosfera mais feliz, celebrando o calor, o verão e o sentimento de liberdade e preenchimento que estar ao lado de pessoas amadas, a canção é um novo lado da cantora, deixando para trás os sintetizadores pesados de melodrama e abraçando harmonias vocais e instrumentais psicodélicos – firmemente baseados no movimento musical hippie e folk das décadas de 60 e 70. Mesmo indo contra as expectativas, “Solar Power” já consegue provocar o ouvinte, mostrando que na verdade há muito mais escondido nessa aura dourada.

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Parecendo vir diretamente da tracklist de Norman Fucking Rockwell, álbum de 2019 da artista Lana Del Rey – e também produzido por Jack Antonoff, “California” é uma faixa enigmática. Enquanto a produção está repleta de sons positivos, como pequenos toques de sinos, e as letras continuam a narrativa de fuga, Lorde traz uma faceta única de sua composição – conseguindo abrir um leque infinito de interpretações. Ao cantar sobre um relacionamento que não deu certo, a cantora também consegue ser extremamente descritiva e sentimental, com versos como “Mas ficou difícil crescer com sua mão gelada em volta do meu pescoço”.

O folk se solidifica como o gênero musical de maior inspiração para “Solar Power” em “Stoned At The Nail Salon”, o segundo single do disco, e uma das faixas mais tristes do álbum – mas também uma das mais reflexivas. Começando com uma metáfora supersticiosa para apontar o sentimento que Lorde às vezes tem de ter escolhido um caminho errado em sua vida, a canção traz uma abertura da artista em completamente alterar seus caminhos, de maneira a encontrar o que a faz bem. Mesmo contando com seções nostálgicas, ela também vai contra a ideia de que nos encontraremos no passado, ao cantar: “Porque todas as músicas que você amava aos dezesseis, você vai superar”.

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Fallen Fruit” segue e traz uma atmosfera de manifesto – com a cantora não tocando em nenhuma narrativa única ou pessoal, mas incluindo uma visão sobre suas amizades, relacionamentos, e realmente se apoiando no aspecto psicodélico da temática de “Solar Power”. Trazendo mudanças de ritmos e descrição de cenas, Lorde nos puxa de novo para a jornada que engloba o disco por completo. A faixa mais pessoal do álbum é a próxima e é extremamente descritiva e sentimental, “Secrets From a Girl (Who’s Seen It All)” é uma carta aberta da artista ao seu eu mais jovem e serve como encorajamento para qualquer um que escutá-la. A canção não traz clichês ou mensagens amplas, ela somente narra as mudanças que acontecem durante nossa vida – fazendo o ouvinte perceber que tudo muda e novos eus nascem, e isso não é algo ruim. Além disso, a outro da faixa, que é por sua vez falada, entrega certezas de que nenhuma jornada de melhora é feita sozinha.

The Man With The Axe” segue e também se afunda na atmosfera enigmática de faixas como “California”. Repleta de metáforas, Lorde descreve o amor que sente por alguém ao longo da composição – afirmando sobre como essa pessoa enraiza ela na realidade, traz ela ao solo quando ela começa a se desconectar da verdade. Além disso, a cantora também comenta sobre como ainda se sente nervosa antes de entrar no palco, sofre com memórias ao cantar certas de suas músicas e sobre como está sempre envolvida por suas palavras, sentimentos negativos que em sua visão são atenuados pela pessoa para quem ela escreve essa ‘love song’.

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Começando com sons de sirenes e uma melodia de guitarra em repetição, “Dominoes” é a narrativa de uma pessoa que está em constante mudança – mas não em busca de melhora e evolução, mas sim com base em instabilidade e em não se conhecer realmente. Com frases como “Deve ser bom ser o Sr. Começar de Novo” e “Só mais uma fase pela qual você está correndo”, Lorde descreve o alvo de suas letras como alguém que adota fachadas para esconder o fato de que não sabe aceitar as chances que lhe são dadas.

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A seguir voltamos do som inspirado pelo reggae de “Dominoes” para o folk mais tradicional do restante do álbum com “Big Star”, na qual a artista canta sobre essa pessoa com a qual ela está encantada – com a qual quer passar todo o tempo do mundo, mas que ela precisa deixar ir. No verso “Mas todo verão perfeito tem que voar para longe”, Lorde referencia o fim desse momento perfeito e também conecta o mundo de “Solar Power” à sua obra passada, “Melodrama” – mais especialmente com “Liability” e sua seção “Mas todo verão perfeito está me desgastando, até que você vá embora”.

Leader of a New Regime” também é outra faixa que se sente como se fosse um manifesto para esse universo ensolarado que Lorde está construindo nesse disco. Por cima de uma guitarra elétrica, mas utilizada como criação de uma melodia calma e praiana, a cantora cita problemas atuais como a canseira constante, o aquecimento global e a paranoia mundial – enquanto convida alguém a tomar as rédeas e liderar esse novo mundo. “Mood Ring” foi o último single de “Solar Power”, como você pôde ler aqui na NM, e é um momento no qual a artista mergulha a fundo na cultura de “bem-estar”, comentando sobre o uso de cristais, signos, sálvia e outros costumes para dar significado a nossa vida – especialmente quando nos sentimos perdidos dentro de nós mesmos. Com o verso no refrão “Eu não consigo sentir nada / Eu continuo olhando para meu anel do humor”, Lorde confirma que ela também é impactada por essa constante auto dúvida.

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A última faixa do álbum é também a mais a longa e uma das mais pessoais, em “Oceanic Feeling”, a cantora fala sobre sua família, sobre crescer na Nova Zelândia e agradece à natureza pelo significado que ela agora encontrou nesses poderes – sendo o caminho que Lorde encontrou para sua evolução, reflexão e felicidade. Em uma das últimas frases do disco inteiro, a artista resume bastante do impacto e intenção por trás: “Oh encontramos esclarecimento? Não, mas estou tentando / Levando um ano por vez” – além de fazer referências a “Pure Heroine” e sua primeira estética sombria – apontando a seu crescimento pessoal simbolizado por esse projeto.

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Em “Solar Power”, Lorde é uma completa nova versão de si mesma, ainda trazendo seu imenso poder para descrever emoções, criar metáforas e nos colocar na sua própria pele – explorando tópicos diferentes dos de seus álbuns de 2013 e 2017, que já eram muito diferentes entre si, por sua vez. Ainda que a produção inspirada no folk dos anos 60 e 70 e a utilização de principalmente instrumentos orgânicos, com poucos sintetizadores, possa parecer repetitiva para fãs de suas outras eras, a alma da artista ainda está inteiramente presente nesse projeto, reforçando seu poder como uma popstar extremamente mutável. Enquanto “Melodrama” é uma narrativa sobre o êxtase de festas, as emoções ampliadas sob as luzes piscantes e a dependência de outras pessoas, “Solar Power” é o momento logo depois de uma noite de festa, quando o sol está nascendo e, assim que somos separados do resto de nosso grupo, somos levados a refletir e iniciar um processo de autoconhecimento iluminado pela dourada luz solar.

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Pedro Paulo Furlan
Pedro Paulo Furlan
Estudante de jornalismo, não-binárie e apaixonade por música. Sempre aberte para ouvir qualquer gênero, artista ou década. O universo do pop, principalmente hyperpop, k-pop e synthpop, é onde eu vivo e sobrevivo.
Uma odisseia sobre autodescobrimento, reflexão, busca pelo bem-estar e perseverança na procura por seu caminho - “Solar Power” nos oferece um disco que irradia a luz do sol e pinga com influências do folk dos anos 60 e 70.Resenha: "Solar Power" - Lorde (2021)