Entrevista: BRAZA fala sobre segundo álbum da carreira “Tijolo por Tijolo”

Foto: Ronaldo Land

Depois de um ano e três meses de seu álbum de estreia, a banda BRAZA acaba de lançar o sucessor “Tijolo por Tijolo”, na última sexta-feira (02). Com 10 faixas, o disco começou a ser moldado logo nos primeiros meses deste ano.

Nação da Música conversou com Vitor Isensee (teclado e voz) sobre o lançamento de “Tijolo por Tijolo”, as influências do trabalho e também sobre os videoclipes da banda.

Entrevista por Marina Moia

————————————————————————————————————— Leia a íntegra

O novo disco, “Tijolo por Tijolo”, acabou de sair, está fresquinho! Pelo que eu já li e já ouvi, a recepção agora tem sido muito boa. Como tem sido pra vocês essa semana pós-lançamento?
Vitor: 
Assim que o disco saiu, na sexta-feira passada, a gente teve o final de semana pra dar um respiro, até porque os últimos três meses foram uma correria grande de gravação, mixagem, preparação de tudo, parte gráfica… Então, nesse final de semana a gente deu um “relax” e agora nesta semana a gente já começou a ensaiar porque daqui duas semanas a gente faz os primeiros shows da turnê desse disco, do “Tijolo por Tijolo”. Vai começar lá no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, no Opinião.

É aquela coisa… claro que hoje em dia é muito rápido, com internet, blogs e canais do YouTube, a galera tem a pira de fazer reação e análise sobre os discos, então a gente explora, dá uma olhada, mas acho que ainda é um pouco cedo pra conseguir fazer um balanço do que a galera tá achando do disco. A nossa opinião pessoal é que a gente tá bem contente. É uma evolução do primeiro e até com uma coesão maior entre as músicas, com um pouco de identidade mais forte que o primeiro. É bem por ai que a gente tá sentindo por enquanto…

Foi um período relativamente curto entre um disco e outro, pouco mais de um ano. Como é o processo de criação da banda? Afinal, você mesmo disse que foi correria nos últimos meses. Vocês criam na estrada, voltam pra casa, como funciona?
Vitor: 
A gente costuma dizer que o processo criativo é bem contínuo. Claro que tem momentos que você foca mais, na hora que você fala “ok, vamos gravar o disco”. Ali você começa a lapidar, a definir mais as coisas. Mas na real, o processo criativo está sempre acontecendo, a gente tá sempre tendo ideias, gravando partes instrumentais, anotando versos de letras que surgem… Enfim, na hora de sentar e falar “vamos gravar um disco”, é a hora de organizar isso tudo e fazer uma obra.

Na real, o processo nunca para. A gente está sempre produzindo. Mas em algum momento a gente tem que sentar e falar “beleza, vamos transformar essas ideias aqui”. Seja num álbum, num EP ou num single. Foi, mais uma vez, um processo que não parou, mas em janeiro e fevereiro deste ano a gente começou a se encontrar e dizer “vamos, a partir dessas ideias que a gente tem, fechar um repertório de 10 músicas. Vamos pensar num conceito, onde a gente quer chegar…”.

É um trabalho cansativo, como você falou, não tem muito tempo. Faz 1 ano e 3 meses que a gente lançou o outro disco e agora já lançamos o segundo. É um intervalo relativamente curto. Muito trabalho, mas também muita satisfação porque em pouco tempo a gente está conseguindo colocar muitas ideias pro mundo.

Como você disse, esse disco traz mais identidade da BRAZA. O que foi diferente entre a produção de um trabalho pra outro?
Vitor: 
No BRAZA, a gente tem pensado muito em criar a partir do conceito, ao invés de fazer o caminho inverso de criar e depois tentar ver qual o conceito que aquela criação tem. No “Tijolo por Tijolo”, acho que a gente levou isso um pouco mais adiante em relação ao primeiro. A gente tentou, antes de criar as músicas, pensamos “ok, onde é o nosso norte? Onde a gente quer chegar? O que o BRAZA tem a dizer? Pra quem a gente quer dizer isso?”. Ou seja, pensar conceitualmente a questão toda daquilo que a gente está fazendo antes de botar a mão na massa.

Eu acho que esse disco traz isso. Por isso que eu falei que ele talvez tenha a identidade um pouco melhor definida em relação ao primeiro. Talvez a gente tenha chegado um pouco mais próximo de uma personalidade pro BRAZA. O disco é menos eclético, ele é um pouco mais coeso entre as músicas. Elas dialogam melhor umas com as outras.

Nas letras das músicas do BRAZA, consigo muitas vezes ver influências de fé e religiões, como em “Oxalá” e agora também em “Ande”, por exemplo. O que esse assunto significa pra vocês, principalmente na hora de criar?
Vitor: 
A fé e a religião elas entram na obra do BRAZA, e até além do BRAZA, nas coisas que a gente cria, que a gente escreve. Elas entram muito mais na questão existencial e filosófica da vida do que numa questão estritamente de religião. A gente fala de fé, a gente fala de religião. Vale sempre lembrar que fé não está necessariamente ligada à religião. Inclusive na letra de “Oxalá”, a gente fala isso. O ateu tem fé de que nada existe, além da natureza, isso não deixa de ser fé. Fé é uma coisa que você deposita sua confiança pra além da razão.

A gente acaba caindo nesses assuntos, que beiram a religiosidade, que beiram a fé, muito mais por uma questão filosófica, por aquilo que a gente acaba refletindo. A gente tem essa veia, principalmente em mim e no Nicolas, de refletir sobre as questões existenciais, de perguntar “o que a gente veio fazer aqui?” [risos]. Então, como a arte e a música se enquadram ai também, é uma forma de você refletir sobre você mesmo. Eu costumo dizer que é um processo de auto cura. Não dava pra esses assuntos ficarem de fora. Por isso que, de vez em quando, vem à tona algumas questões de religiosidade e de fé.

A banda se aventura por vários estilos e tem um som influenciado por muitos tipos de música. Tem algum estilo musical que vocês ainda não tentaram e gostariam de testar um dia?
Vitor: 
No momento, como eu disse, a gente está tentando realmente buscar uma identidade mais forte pro BRAZA. Em alguns momentos, a gente tem até segurado a onda, pra não querer sair fazendo tudo. Vontade de fazer música, poxa, é uma delícia. Pra quem é músico, às vezes você está ali, fazendo uma “jam” e de repente a galera começa a levar uma coisa que puxa pro lado do jazz, pô, uma delícia tocar. Ou você tá ali e de repente é uma galera que tem mais a veia do samba… São estilos infinitos, são riquíssimos, são bonitos. E não quero me reduzir só ao jazz e ao samba, tem o afoxé, a música eletrônica, o próprio rock and roll. Eu penso assim, pelo menos. Quase tudo é bom de tocar e a gente não tem muita restrição.

A restrição é justamente porque não dá pra você querer colocar tudo numa mesma panela, entende? Às vezes é preciso focar ou privilegiar determinados estilos pra você conseguir, como eu estava dizendo antes, chegar num identidade um pouco mais definida. Como a gente está buscando isso no BRAZA, acho que a gente tem segurado um pouco mais a onda ao invés de sair tentando tudo.

Acho que se fosse pra escolher um estilo que gostaria de fazer, eu acho que uma coisa que a gente quer tentar mais ainda e que, por mim, é algo a ser explorado, é a gente assimilar mais ainda as raízes brasileiras. Tem a influência no BRAZA, sem dúvida, mas ainda é uma influência um pouco mais indireta do que direta. A gente usa muita percussão, você vai ouvir muito tambor, ritmos que vem da africanidade e que tem muito a ver com o Brasil também. Mas eu acho que talvez a gente pudesse trazer mais as referências brasileiras ainda. Isso sim, eu acho que caberia no BRAZA. Mas se a gente quisesse fazer um jazz ou uma salsa, por exemplo, acho que já não tem muito a ver com a proposta do projeto. A gente está realmente buscando misturando as influências, principalmente das vertentes do reggae, ragga, dub.

A Sister Nancy participa do álbum, na faixa “Exército Sem Farda”. Como surgiu a parceria e como foi trabalhar com ela?
Vitor: 
Surgiu da mesma forma que no disco anterior, que a gente fez a participação com o Mykal Rose, que também é da velha guarda da Jamaica. Pô, grande Black Uhuru, uma das bandas mais importantes de lá. E a Sister Nancy é dessa geração, ela é contemporânea deles. A gente fez o contato com ela como fez com o Mykal Rose, através de um grande amigo nosso, que inclusive é produtor da banda, da estrada, que é o Bruno Negreiros. Ele inclusive assina uma das músicas com a gente, é um cara muito envolvido não só com música, ele participa de um esquema de som aqui, um coletivo que é o Interferências, que são vários amigos nossos. E eles têm muito esse contato com a galera da Jamaica.

Então, através do Bruno, a gente mandou a música pra ela, fez o convite por e-mail. A gente nunca se encontrou pessoalmente, mas mandamos a letra traduzida e falamos tipo “a gente te admira muito, o seu trabalho, e tudo mais”. Perguntamos se ela topava participar e ela topou, gravou de lá e mandou pra gente a parte da letra que ela canta. Depois disso foi, na mixagem, encaixar a voz dela e se emocionar de quase chorar porque a gente é muito fã mesmo e ficou muito bonito a forma que ela cantou. É uma voz muito forte, muito bonita.

Uma das coisas que me chama minha atenção à banda são os videoclipes. Todos eles possuem uma produção muito bacana, eles têm a cara da BRAZA mesmo. Vocês são envolvidos na direção, na produção e na pós-produção também. Pra vocês, qual a importância do audiovisual e de estarem tão envolvido nesses projetos?
Vitor:
Obrigado! O vídeo é uma coisa que a gente tem focado muito no BRAZA, de tentar realmente trazer o máximo de qualidade que a gente puder, em termos de tudo, desde fotografia, edição, de fazer algo realmente relevante. Não só tipo “ah, faz um clipe ali, coloca no YouTube porque as pessoas assistem”. É uma forma de arte muito potente, o audiovisual é muito forte. É um filhote do cinema, esse lance de fazer vídeo pra música. São possibilidades muito grandes. Desde que começou o BRAZA, a gente vem atento e conscientemente buscando trabalhar mais isso, então a gente tá realmente metendo muito a mão na parte audiovisual.

Todos os vídeos do BRAZA são dirigidos pela banda também e é sempre em parceria com algum diretor. O primeiro vídeo desse disco, do “Tijolo por Tijolo”, que é da música “Ande”, a gente fez no mesmo esquema dos últimos dois, que foi “Segue o Baile” e “Oxalá”, com a mesma equipe inclusive, com o Ronaldo Land, o Jesus, que é um grande amigo nosso, videomaker e diretor aqui do Rio que manda muito bem e faz muita coisa de cinema e publicidade. É um cara muito talentoso. Ele fez a direção de fotografia e a gente concebeu a ideia toda e a gente editou também, que é uma coisa que dos quatro vídeos do BRAZA, três foi a banda mesmo que editou. A gente senta lá, abre o Adobe Premiere e passa não só horas como dias fazendo a decupagem, depois fazendo a edição. É um processo longo, trabalhoso, mas que a gente gosta, sente prazer em fazer, e porque, como você disse, a gente consegue imprimir mais ainda a nossa ideia ali. Claro que também às vezes é legal você delegar para um profissional, colocar um outro olhar ali sobre a obra, mas acho que pelo fato da gente mesmo editar, aquilo fica com a cara que a gente tava imaginando. Tanto pro lado bom, como pro lado ruim [risos]. Tanto o elogio como a crítica são responsabilidades nossas.

A gente tem tentado, no audiovisual, estar se aprimorando e valorizando isso porque acho que também é um diferencial pra quem trabalha com música. Outro dia eu tava vendo um vídeo, um amigo meu que é muito fã do Foo Fighters foi me mostrar um vídeo novo deles. Estou usando o Foo Fighters como exemplo, mas tem vários outros desse tipo. Não é uma banda que eu vou chegar em casa e vou botar uma música pra ouvir, não tenho músicas do Foo Fighters salvas no meu celular, mas quando eu paro e vejo um vídeo ou alguém me mostra alguma coisa, eu vejo que os vídeos são muito bem produzidos, são ideias muito boas, são todos muito bem pensados. Aquilo ali me faz, mesmo não sendo exatamente fã da banda, adquirir um respeito e uma admiração pela banda, que talvez se eles não investissem tanto nos vídeos, eu provavelmente não ia ter essa admiração, o Foo Fighters ia passar batido. Mas quando alguém fala neles, eu penso que por mais que eu não curta muito ouvir o som, pô, admira porque os caras fazem uma parada com muito conteúdo. Tanto que os vídeos são incríveis.

Eu acho que o audiovisual tem isso. Existe muito o público hoje de ocasião. O público que não vai ouvir o seu disco inteiro, mas que vai ver um single que o amigo botou no YouTube, que ele vai achar legal e ele pode nunca ouvir o disco inteiro, mas ficar te conhecendo pelo vídeo. Tem essa importância.

Claro! O vídeo é um cartão de visita, basicamente…
Vitor: 
Exatamente! Como essa história que eu falei do Foo Fighters. A mesma coisa comigo acontece com a Rihanna. Não tenho músicas dela salvas no meu celular, mas acho ela incrível porque já vi alguns vídeos e algumas músicas e é maneiríssimo. O audiovisual, sem dúvidas, é fundamental hoje em dia.

Falando em audiovisual, vocês também realizaram o projeto “Obra Utopia”. Você poderia falar mais sobre a escolha do local e sobre a importância do projeto pra banda?
Vitor: 
Claro, claro! Acho que entra nesse mesmo papo que a gente tava falando, no lance de ter uma videografia forte. Às vezes, inclusive, não só prestar atenção naquilo que está fazendo, como também prestar atenção naquilo que está deixando de fazer. Você pode falar ”ah vamos fazer um vídeo ao vivo ali…” e faz uma coisa mais ou menos, grava num cenário meio mais ou menos, com uma produção feita pra ficar barata… Esse tipo de coisa a gente acha melhor não fazer. O “Obra Utopia” entra nesse pacote de fazer uma videografia de conteúdo forte, caprichada em termos técnicos de fotografia, iluminação, tudo mais.

A ideia de fazer esse projeto surgiu porque quando a gente lançou o primeiro disco, a gente pensou: “Bom, a banda está surgindo agora e a gente precisa realmente fidelizar um público, mostrar pra galera que a gente tá ai e que o lance também existe ao vivo…”. Primeiro, a gente tinha a intenção de satisfazer essa demanda que sabia que haveria. “Então vamos fazer uma coisa ao vivo, vamos gravar cinco músicas, mesmo sem plateia”. Mas dai pensamos ”e onde fazer?”.

Dai surgiu a ideia de fazer lá no Armazém da Utopia, que é um dos armazéns aqui no cais do porto. Aqui no Rio de Janeiro tem uma parte grande, só explicando rapidamente, que foi “revitalizada” pras Olimpíada. E uma dessas áreas é essa parte do cais do porto, que era uma área muito degradada, feia, de muita marginalidade. Houve uma revitalização, muitas obras, com várias coisas questionáveis, muita gente perdeu a casa, foi desalojada, com umas indenizações muito contestáveis. Como todo projeto urbano, ele teve seus impactos positivos e negativos. O que acontece é que aquela área era uma área da cidade que hoje em dia é muito simbólica. Pra começar, é onde de fato a cidade começou, então já é uma área histórica. E uma parte agora passou por todas essas transformações desses eventos que, sem dúvida, ficaram na história já, como a Olimpíada, Copa do Mundo…

A gente resolveu fazer ali justamente por toda esse simbolismo que o lugar carrega. E, claro, também por uma facilidade porque o Armazém da Utopia é gerido por uma companhia de teatro, que é a companhia Ensaio Aberto, da qual a gente é bem conhecido e amigo do pessoal que administra. A gente tinha também a facilidade do contato e de poder fazer ali. Nós fomos pra lá num final de semana, quem dirigiu foi o Wilson Domingues, outro videomaker aqui do Rio, da mesma galera do Ronaldo Land, que citei anteriormente. Também é um cara muito talentoso e ele tem essa linguagem muito contemporânea, das galeras que vêm dos vídeos de skate, que têm uma linguagem urbana muito forte, sabem trabalhar muito bem a questão da luz, das texturas da cidade, da geometria, da arquitetura. A gente quis fazer com uma pegada muito contemporânea.

Eu acho que o resultado ficou incrível. Esse projeto, especificamente, a gente não botou a mão. A gente colocou a mão no sentido “vamos elaborar as ideias”. Porque antes de filmar você tem uns dois, quase três meses de reunião pra pensar em tudo, como figurino, cenário, locação. Nisso a gente botou a mão, mas por exemplo, não foi a gente que editou, não foi a gente que fez o desenho de som. Essa parte toda ficou com o Wilson, que foi o camarada que dirigiu. E acho que cumpriu o papel e ficou bem bonito. A gente encara mais ou menos como um curta metragem musical, sabe?

Gostaria de mandar uma mensagem pros leitores da Nação da Música e pros fãs do BRAZA?
Vitor: 
Ah, agradecer a Nação da Música. Muito obrigado, Marina. Mandar um salve pra todo mundo que acompanha o site, que eu acho que é importantíssimo. A gente agradece o espaço! E tolerância, mais do que nunca. Coração na ponta da chuteira e vamo em frente!

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Marina Moia
Jornalista, bauruense de coração e apaixonada por música desde que se conhece por gente. Viciada em séries, amante de livros e colecionadora de batons coloridos.

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