Foto: Fernando Hiro

A banda brasiliense Capital Inicial acaba de lançar digitalmente seu novo disco, “Sonora”, nesta sexta-feira (14). Produzido por Lucas Silveira, da Fresno, e com participações de bandas como Scalene, Far From Alaska e CPM 22, o novo trabalho dos caras mistura a experiência de quase 40 anos de banda com o frescor dos nomes mais jovens.

A Nação da Música teve uma longa conversa com o vocalista Dinho Ouro Preto sobre como foi trabalhar com essa nova geração do rock, sobre o que ele acha das plataformas de streaming e também detalhes da nova turnê do grupo.

Entrevista por Marina Moia.

———————————————————————————– Leia a íntegra:
Vamos já começar direto ao ponto! “Sonora” foi produzido junto com o Lucas Silveira, da banda Fresno. Como surgiu essa parceria e como funcionou a dinâmica no estúdio?
Dinho: O modo como isso acabou acontecendo foi curioso, inesperado. Eu estava com algumas canções na mão e eu olhava em volta, procurando nomes pra colaborar, produzir, e nada foi muito estimulante. Calhou de eu ser chamado pra participar de uma gravação que o Supercombo estava fazendo, dentro do estúdio deles, pro Youtube, de umas releituras de músicas deles com vários artistas. E lá fui eu!

Depois da gravação, fiquei conversando com eles e descobri que eles estavam sendo empresariados pela mesma pessoa que representa Far From Alaska, Ego Kill Talent e acho que o Medulla. Não só isso, mas eles me disseram que tinham um “grupão” de Whatsapp com essas bandas novas, onde eles todos se falavam. Eu pedi pra ser incluído no grupo! Tudo bem que não sou de uma banda nova, mas eu disse “não, eu quero participar! Não interessa”. Não interessa os rumos do rock brasileiro. Eventualmente, eles me incluíram.

No grupo, eles marcam encontros, que aconteciam na casa, na garagem, do Lucas Silveira. E lá vou eu pro primeiro encontro, onde estavam algumas bandas como Vivendo do Ócio, Medulla. Não tinha muita gente, na verdade. Chegando lá, eu mostrei pro Lucas uma música e disse “olha, tenho essa música aqui, mas que eu não sei muito como posso resolver. Tenho esses acordes, mas não sei mais o que fazer”. Ele me levou pro estúdio dele e a música que surgiu dessa parceria está incluída no disco, chama-se “Universo Paralelo”, na qual ele canta.

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Então eu ouvi a solução que ele deu, em todos os sentidos. Nos timbres que ele procurou, o arranjo que ele fez, a sonoridade que ele conseguiu tirar dentro do estúdio dele. É um estúdio que está longe de ser um estúdio ortodoxo ou os quais estamos acostumados a gravar. Não tem uma mesa de som, não tem as aparelhagens caríssimas. O cara conseguiu driblar, usando simulações, o estúdio convencional. Usando outras marcas de microfones, usando outros amplificadores, tudo escolhido a dedo. O cara conseguiu botar de pé em cima da garagem dele um estúdio onde você consegue tirar… bom, é só ouvir esse disco [“Sonora”] porque você não consegue ouvir onde ele foi gravado. Não dá pra saber se foi gravado no Brasil, se foi gravado no exterior, se foi gravado num estúdio caríssimo, num estúdio doméstico…

Lógico, você tem ali o elemento humano porque ele conseguiu driblar os equipamentos convencionais, usando simulações de guitarra, de instrumentos. E quando eram amplificadores, microfones de verdade, por exemplo, eram de marcas alternativas. Ele conseguiu montar na casa dele algo espantoso.

Eu peguei a música, mostrei pro resto da banda e os chamei pra irem até a casa dele. Não era pouca coisa, sabe, era questão de você realmente apostar em algo totalmente alternativo, pra ser bem sincero, longe de tudo que a gente já fez. Em termos de captação, de gravação, de tecnologia. Foi tipo “vamos todos nos abraçar e nos lançar nessa aventura?”.

Convencer a banda não foi tão difícil porque eles viram o resultado, tinham visto o que o Lucas tinha feito com a música, e gostado do som. Mais complicado foi convencer a gravadora [risos]. “Gravadora, libera o dinheiro que a gente quer gravar aqui, não quer gravar num estúdio mega uber super caro e bacana. A gente quer voltar às nossas origens. Gravar na garagem”. Foi algo longe de tudo que é considerado ortodoxo.

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Eu acredito que o lugar favoreceu o estado de espírito do que foi criado ali dentro. Eu acho que o fato de ter sido gravado ali contribuiu pro clima de revitalização do Capital. Todos tocaram muito bem. Todos os músicos, o Capital, tocaram como nunca tinham tocado há tempos. Acredito que isso de algum modo também tenha estimulado todos nós.

A gente conseguiu também, junto com o Lucas e as pessoas que participaram desse projeto, sonoridades novas, texturas novas, arranjos novos. O Capital conseguiu superar esse desafio de como manter-se fiel às características e qualidade do Capital, mas apresentando algo novo. Um Capital rejuvenescido, revitalizado. Ao mesmo tempo igual, mas diferente.

Essa balança, esse equilíbrio, acredito que seja o grande feito desse disco, na minha opinião. Ter essa ambiguidade, essa dualidade. Parece o Capital, mas é algo inesperado. Acredito que a banda, nessa altura do campeonato, não quer se entregar à nostalgia, e poder entrar no estúdio sem que o produtor e o estúdio se adeque a nós. O Capital aceitou o desafio de apresentar algo novo. O “Sonora” soa diferente. E aí é que está! A proeza do “Sonora” é que mesmo soando diferente, você sabe que é o Capital.

Como você falou, o trabalho foi marcado por essa colaboração com outras bandas, como Far From Alaska, Scalene e até CPM 22, que apesar de não serem novatos, ainda vieram depois do Capital. Imagino que seja uma troca de experiências e ensinamentos quando vocês se juntam. O que você sente que tem a ensinar para esses novos nomes e o que você mais aprendeu com eles?
Dinho: Ah, liberdade! Vigor, entusiasmo, tesão, o espírito de colaboração. Muita coisa! Eles se abraçam. Eu acho que o rock brasileiro muitas vezes é pautado por rivalidade, mais do que colaboração. Parece que antes as pessoas torciam mais pelo fracasso alheio do que pelo sucesso [risos].

Eu me senti revitalizado [com essas bandas novas] porque eu vi o prazer, a energia, o entusiasmo, o vigor, a colaboração entre todos. Foi revigorante estar com eles. A experiência foi intensa.

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É uma coisa que a gente sempre valorizou, na verdade. Sempre colocamos bandas mais jovens para abrirem os nossos shows, falamos delas nas nossas redes sociais, sempre procurei fazer isso. Talvez dessa vez a gente tenha levado um passo além. Chamar o Lucas pra produzir, chamar essas bandas novas pra tocarem junto com a gente…

Eu acho que se você fizer a pergunta de como está o rock nacional, como está a cena brasileira, não é olhando pro Capital que vai ter a resposta. A gente tem quase 40 anos de estrada. Somos veteranos. Pra você ver como está a saúde do rock brasileiro, você tem que ver como estão esses caras. O que as bandas novas estão fazendo. Na minha opinião, se você olhar o que o Scalene está fazendo, o que Far From Alaska está fazendo, o que Selvagens À Procura da Lei está fazendo, [vai ver que] esses caras são bons pra caralho! As letras são boas, os arranjos são bons, os timbres são bons, as produções são boas.

Então, como está o rock brasileiro? Está muito bem! Eu acho que está muito bem representado. E isso falando desse pequeno universo que está perto de mim. Eu imagino que o metal brasileiro também esteja bom, outros estilos pelo Brasil a fora, coisas que não chegam aos meus ouvidos. Mas o que chega aos meus ouvidos, o que eu gosto, porra, os caras estão honrando a camisa! Se tivéssemos um bastão, uma bandeira metafórica, que fosse passado adiante, no rock brasileiro, ele estaria em boas mãos.

“Sonora” foi lançado aos poucos nas redes sociais e nas plataformas de streaming e agora sai completo digitalmente, uma semana depois do lançamento físico. O Capital Inicial acompanhou todas essas mudanças do modo de consumir música e gostaria de saber como você se sente em relação ao streaming. Foi difícil se acostumar com esse modelo?
Dinho: [risos] Eu tenho um pouco de dificuldade. Eu reconheço isso. Minha cabeça é meio old school, então eu estou acostumado a ouvir discos inteiro e ainda ouço música assim. Eu ponho o disco e ouço de cabo a rabo. Eventualmente faço aqui em casa algumas playlists pra praia ou alguma festa, mas em geral, quando vou correr ou dirigir, eu ouço o disco de cabo a rabo.

Poderia ter sido uma compilação de compactos, por exemplo, com o Capital lançado vários compactos durante os anos e que dai pudessem ser reunidos num álbum só. Mas não é o caso. Essas músicas foram todas compostas na mesma época, foram gravadas no mesmo estado de espírito, produzidas pela mesma pessoa, no mesmo estúdio. Elas fazem sentido juntas e gostaria que as pessoas as ouvissem juntas, de uma vez só.

No entanto, essa é a nova realidade. O Capital passou por várias mudanças. Passamos pelo vinil, pelo CD, pelo download e agora pelo streaming. Todas as bandas estão se adequando a esse novo formato. A gente chegou a ter uma reunião dentro do estúdio, na casa do Lucas, o pessoal da gravadora estava presente. E eles nos explicaram como acontece e as pessoas usam essas plataformas quase como se fossem redes sociais, tanto os artistas como os ouvintes.

Lançando gradualmente o disco, como foi o “Sonora”, você acaba atingindo mais pessoas. Tem a atenção das pessoas por um período mais longo e com isso você acaba estendendo o alcance do disco. Mais gente acaba sendo alcançada por ele. Entram aí a questão dos algoritmos, sobre como funciona a própria plataforma. Isso é meio como se resignar ao mundo moderno, ao século XXI, a plataforma usada para lançarmos música é essa.

Eu falo isso com uma ponta de indignação, sabe? [risos] Porque eu queria que ele fosse lançado de uma vez só. Mas talvez eu seja uma coisa em extinção. Meus filhos não ouvem música como eu ouço. Eles pulam de uma faixa pra outra, ouvem fragmentos, muitas vezes não ouvem as músicas até o final. Parece que a atenção das pessoas está cada vez menor. Tem essa dificuldade de ouvir 11 canções do começo ao fim. Não rola mais isso.

Não foi a tecnologia que provocou isso nas pessoas. Elas que estão sendo saturadas de tanta informação que acabam consumindo música desse jeito também. Constantemente estão sendo bombardeadas com um universo infinito de informação, músicas, notícias, e tudo ficou fragmentado. Talvez seja o final dos tempos, não sei. To filosofando aqui com você! [risos]

Mas é isso mesmo! Todo dia são lançadas músicas novas, discos inéditos. É impossível termos tempo pra absorver tudo e conhecermos tudo.
Dinho: É! Você fica no telefone o dia inteiro! Recebendo milhares de informações novas. Eu sigo todos os jornais brasileiros, blogs, eu fico o tempo inteiro lendo coisas e a nossa atenção é pulverizada. São muitas coisas que acontecem ao longo de um dia e a música é uma a mais.

Não é uma imposição do Spotify isso. Eu acredito que é o contrário. As pessoas passaram a ter sua atenção pulverizada e o Spotify acabou sendo a mídia adequada pra esses novos tempos.

Estamos a poucas semanas de 2019, o disco está no ar… O que o ano que vem reserva para o Capital Inicial?
Dinho: Como o disco foi lançado desse jeito fatiado, a turnê começou quando o disco só tinha duas músicas, em junho, acho. A gente deve ter feito de lá pra cá talvez uns 30, 40 shows. Mas a gente ainda não chegou a fazer show com o disco inteiro lançado.

Então, o cenário já está feito, montamos um esquema de luzes. Nos inspiramos no show do Green Day quando eles vieram pra cá. Na verdade não há um cenário em si, as luzes é que são o cenário. A gente construiu cinco gaiolas dentro das quais estão as luzes e essas gaiolas, por sua vez, se movem também, pra cima, pra baixo e pros lados. É uma estrutura inacreditável. A gente só não consegue fazer aquilo que o Queen faz nos shows, que as luzes saem de trás e passam por cima da banda.

Tudo foi construído em junho e a gente fez essa porção de shows, mas sem o disco inteiro estar lançado. As pessoas viram uma prévia do que vai vir a ser a turnê, já que ainda não tinham ouvido as músicas todas.

2019 já vamos estar com a turnê completa, já que o disco foi lançado, e devemos ir provavelmente até o final do ano que vem. Quem sabe, dependendo do que acontecer, até 2020.

Pra ser honesto, Marina, a minha cabeça funciona assim: entreguei esse disco, estamos finalizando os últimos vídeos, até o Natal tudo vai ter sido lançado, então a minha cabeça já vai pro disco seguinte do Capital. Botei isso na minha cabeça desde que nos reunimos, há muitos anos, de lançar um projeto a cada dois anos.

Eu não gostaria que o Capital se pautasse por nostalgia, saudosismo. Então, a turnê começa, mas a minha cabeça já começa a pensar no repertório do próximo disco. Vai ser um ano de turnê do “Sonora” e de já começar a compor.

Por último, mas não menos importante, você gostaria de mandar um recado aos fãs do Capital Inicial e aos leitores do Nação da Música?
Dinho: Eu toco há quase 40 anos. Já vi muito do rock brasileiro. Eu ouço só rock, mas eu ouço todo rock. Indie, metal, punk, gótico, tudo me interessa do universo do rock ‘n’ roll. Comecei a ouvir rock com 12 anos e to aqui com 54 e continua sendo a paixão da minha vida. E tem coisas que eu ouvia com 12 anos que eu continuo ouvindo até hoje! [risos]

Houve um momento em que a minha vida cruzou com o rock brasileiro e virou o centro da minha vida. Eu vi grandes artistas aparecerem, alguns ficarem pelo caminho, outros morrerem, bandas se desfazerem. Eu sei da qualidade do rock brasileiro. Dos Mutantes até o Erasmo, Rita Lee, Raul, a nossa geração, a geração dos Raimundos, do Planet Hemp, O Rappa, enfim.

O espaço do rock hoje está circunscrito a menos rádios, menos veículos, mas se eu fosse dar um recado… a qualidade do rock brasileiro é indiscutível. A qualidade das bandas novas é surpreendente. A paixão misturada com o rock ‘n’ roll brasileiro fazem o rock brasileiro, na minha opinião, ter uma vitalidade singular. E olha que eu conheço rock de todos os países! Ouço rock argentino, francês, espanhol, inglês, americano. Conheço em outras línguas que não sejam só a nossa e o inglês. As bandas brasileiras são realmente excelentes.

Se eu fosse dar um recado pra galera é: ouçam o novo rock brasileiro!

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