garbage (1)Na última quinta-feira (12), a Nação da Música teve a oportunidade de ouvir antes do lançamento “Strange Little Birds”, o novo álbum do Garbage – que chega oficialmente às lojas no dia 10 de junho. Gravado de forma independente, o disco segue um caminho obscuro e contrário ao que costuma tocar atualmente nas rádios, rebelando contra todos os rótulos e títulos impostos pela sociedade.

No mesmo dia, a NM bateu um papo com a líder da banda, Shirley Manson, que nos apresentou um pouco melhor o conceito do álbum, sua produção e ainda deixou uma grande mensagem de apoio às mulheres que são forçadas a se parecerem como algo que não são. Confira:

Entrevista e Tradução por Veronica Stoldonik.

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Eu acabei de ter a oportunidade de ouvir o novo álbum, “Strange Little Birds”, e primeiro de tudo, estou encantada — ele está muito, muito bom.

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Shirley Manson: Obrigada!

Parece que ele está mais adulto e sombrio, com um som quase que melancólico, diferente do que a gente tem visto nas paradas recentemente. Qual foi a inspiração por trás dele?

Shirley Manson: Eu acho que a gente queria fazer um álbum do qual iríamos ter vontade de ouvir (risos). Eu acho que nós estávamos… Não sei se você tem essa palavra no seu país, mas temos uma palavra escocesa, “scunner” – nós estamos um tanto quanto “scunnered” com a cultura popular de hoje em dia, o que basicamente quer dizer que estamos esgotados, revoltados, por muitas razões, mas a maior delas é que o mundo está constantemente passando por muitas mudanças; porém, elas não aparecem refletidas na cultura, o que é muito estranho. De certa forma, eu acho que é papel do artista refletir o que está acontecendo no momento. A gente queria fazer um álbum muito autêntico, que transmitisse o espírito do mundo em que estamos vivendo. E para nós, ele é bem sombrio, diferente, e esquisito de muitas maneiras; não conseguimos mais suportar ligar as nossas TVs, rádios, e surfar na internet e só ver e ouvir essas músicas superficiais, felizes, irrelevantes, e vazias. Não conseguimos mais aguentar um dia disso, e queríamos fazer um álbum que se rebelasse contra essa coisa de ter que agradar todo mundo.

É um álbum de rock muito bom. Vivendo num mundo de influência pop como você acabou de descrever, como você acha que o público vai reagir a ele?

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Shirley Manson: Se quer saber a verdade, eu não acho que me importo em como as pessoas vão receber o CD. Tudo que sei é que em nossa cultura as pessoas continuam se importando com sucesso cada vez mais, e a importância das coisas passa a ser medida unicamente através disso. Uma obra de arte, uma música, um designer de moda, um filme; a lista não acaba nunca. Tudo é julgado pelo quão bem sucedido você é, e eu não acho que esse seja necessariamente um clima propenso para se gerar artes de qualidade por que muitas vezes as melhores ideias desafiam o “status quo” [aquilo que é considerado norma, dentro dos padrões]. Muitas vezes as obras mais interessantes e gratificantes são desafiadoras, e sempre que você desafia pessoas, principalmente quando se está desafiando o “status quo”, você corre o risco de ofender ou incomodar os outros, ou de simplesmente não ser levado a sério.

É numa dessas que você acaba consolidando o seu próprio fracasso, entende? No minuto em que você faz algo fácil você dobra as suas chances de sucesso; mas nem sempre o caminho mais fácil é o melhor. Às vezes nós como seres humanos precisamos ser desafiados e ter nossas ideias questionadas, então decidimos que queríamos fazer o álbum que precisávamos fazer como artistas. Agora nós temos que estar dispostos a viver com as consequências dessas decisões, por que você pode ter certeza que terão muitas. Mas isso é a vida, certo? Você tem que fazer escolhas e depois suporta-las, aceitando as consequências que vem com elas.

Você estava falando sobre essa obsessão com ser bem sucedido, e no primeiro single do CD, “Empty”, vocês falam sobre isso – a obsessão com coisas e pessoas. Eu acho que por causa dessa era digital em que vivemos tudo é tão acessível que as pessoas passam a ser tão obcecadas em amar e querer coisas que mal conseguimos fazer outras coisas de nossas vidas a não ser viver essa ansiedade. Como você encara isso?

Shirley Manson: Bom, eu concordo plenamente com tudo que você acabou de dizer, e acho que é isso mesmo que estávamos falando em “Empty” – era exatamente essa a nossa mensagem. Esse vazio, essa irrelevância em sermos obcecados com coisas, pessoas e ideias; todas essas obsessões que inventamos e deixamos criar raízes nos dias de hoje. É muito fácil de criar a sua própria realidade nos dias de hoje. Você pode entrar na internet e inventar a ideia mais maluca que conseguir pensar (risos), e vai encontrar alguém para apoiá-lo online.Você consegue aumentar essa realidade distorcida que você criou pois cada dia se torna mais raro de ver as coisas serem questionadas; nós vivemos em nossas próprias realidades, que quase não apresentam nenhum desafio.

Então ficamos presos dentro da nossa própria loucura por vezes, o que é problemático. Uma sociedade e cultura saudáveis precisam de debates, discussões e conversas, as quais não vemos mais acontecer no mesmo nível que existiam antes. Eu acho que parte disso se deu pelo declínio de jornais com matérias boas como costumávamos a ler antigamente, e os canais de TV, que hoje lutam para conseguir manter suas audiências. Nós estamos nos perdendo cada vez em nossos próprios devaneios.

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Muitos artistas tem feito “meet & greets” ultimamente; isso realmente não é um novo conceito. Mas por dois dias vocês vão sentar com fãs em Los Angeles para que eles possam fazer perguntas, vocês vão tocar algumas músicas, tomar uns drinks… Numa época em que tudo é completamente digital, como que é poder ter a oportunidade de proporcionar uma experiência tão pessoal com os fãs da banda?

Shirley Manson: Achamos que essa seria uma oportunidade incrível! (risos) Nós tentamos pensar em algo que gostaríamos de ver dos artistas que nós gostamos. No começo a gente pensou em como faria isso, talvez tocar na casa de um fã ou algo do tipo, mas então concordamos com esse lindo e histórico estúdio em Hollywood aqui em Los Angeles. É muito estranho pensar que foi aqui que os Beach Boys gravaram CDs, o Elvis tocou, e o Frank Sinatra gravou muitas de suas músicas mais famosas. É um lugar incrível, e é um grande privilégio para a gente, como banda, poder tocar nossas músicas nesse lugar e conhecer as pessoas que acompanham a gente. Acho que vai ser muito especial.

Garbage está em existência a mais de 20 anos, e vocês viram praticamente de tudo – discos de vinil, fita cassete, CDs, o estouro das redes sociais… Como que você acha que essas evoluções da indústria da música afetaram vocês como uma banda?

Shirley Manson: Meu Deus, isso nos mudou tanto! Em muitos sentidos diferentes, e todos eles extremamente positivos. Quando a revolução tecnológica começou, por um lado, ela definiu os nossos fãs. Nosso segundo álbum [“Version 2.0”] foi um dos primeiros álbuns a ser gravado digitalmente da história. De certa forma, nós moldamos a nossa identidade através da tecnologia, o que nos causou muito mal também; por um tempo a tecnologia ameaçou a nos passar para trás até que finalmente conseguiu obscurecer algumas de nossas facetas. Nós tivemos que lutar muito como uma banda para sobreviver e achar o nosso caminho no meio de todas aquelas informações que tinham mudado o mundo; nós não conseguimos compreender aquilo tudo até que saímos da estrada, paramos de gravar e finalmente demos um tempo para absorver tudo o que tinha acontecido, por que as mudanças eram imensas.

Você é considerada um grande ícone e inspiração para mulheres na indústria da música, e é muito fácil de identificar outras artistas mulheres que foram inspiradas por você. Você, ao lado de outras artistas dos anos 90, como Gwen Stefani e Courtney Love, ajudaram muito a abrir o espaço para muitas das artistas que vemos hoje em dia – Lana Del Rey, Banks, Florence Welch… Como você se sente em saber que criou e é parte de tamanho legado?

Shirley Manson: Faz com que eu queira pular de alegria (risos). Você sabe, a ideia de que qualquer coisa que nós fizemos como uma banda tenha influenciado outra pessoa a ser criativa é um elogio enorme. Eu não tive filhos; eu nunca quis ter filhos para falar a verdade, mas quando eu ouço que pessoas foram influenciadas pela nossa música eu sinto uma conexão com esses artistas, como se de alguma forma pedacinhos do meu DNA fizessem parte deles. Fazer parte da formação de uma cultura é um privilégio; é muito feliz. Eu acho isso muito bacana (risos). É magnífico.

Como você vê essa nova geração de artistas mulheres que estão dominando a cena musical hoje em dia? Pelo que me parece, nos anos 90 vocês tinham muito mais liberdade de, como mulheres, se vestirem do jeito que queriam e fazer as coisas do seu jeito. Hoje, pelo contrário, parece que tem tantas regras sobre como elas devem se vestir e se comportar que parece ser muito fácil de se perder no meio disso tudo.

Shirley Manson: Eu concordo completamente com você. Eu acho essa cultura que vivemos hoje em dia em relação a identidade feminina completamente perturbadora. Se você pegar a Kim Kardashian, que é a maior celebridade feminina do momento, a mais famosa, que mais aparece e mais é coberta pela mídia, ela é alguém que é fotografada num, pelo que me parece, corselete vitoriano numa tentativa de afinar sua cintura. Eu sinto como se nós tivéssemos completamente regredido para uma época em que se era esperado das mulheres se conformarem a essas silhuetas irreais, e eu ressinto isso; eu ressinto pois sei que isso vai afetar garotas que eu amo, e que vai mexer com o jeito que elas processam informações sobre os próprios corpos, além de suas auto-estimas. Eu não acredito que o papel de uma mulher no mundo é ser bonita; eu não acredito que o papel de uma mulher no mundo é o de ser um objeto. Eu acredito que a mulher é igual ao homem, e merece a liberdade de ser o que quer que ela queira.

Existe tanta ênfase em como uma mulher deve parecer fisicamente que eu quero encorajar todas as mulheres a se rebelarem contra isso; eu quero que elas saibam que elas tem muito mais para oferecer ao mundo fora a sua aparência. A sua realidade é aquilo que você escolhe que ela seja, e quando você é encorajada por celebridades e revistas femininas a acreditar que sua realidade é somente sobre sua aparência… Eu quero dizer a garotas que eu estou nessa a muito tempo, e estou lhes dizendo, nesse momento, um fato: você é o que você faz, o que você vê, como você vive a sua vida, o quão boa amiga você é, o quão generosa você é com o mundo, como você lida com os problemas. Não seria ótimo se todas parecêssemos com super modelos? Mas não parecemos; e para todas nós que não se parecem, eu só quero que vocês saibam e entendam que estão livres para fazer aquilo que quiserem se acreditarem nisso.

Essa mensagem foi muito bonita; como uma mulher, eu estou muito grata que você tenha dito todas essas palavras!

Shirley Manson: (risos) Você sabe, às vezes me da vontade de chorar quando eu vejo… Eu não desejo nenhum mal a Kim Kardashian, e nem quero faltar com respeito com ela, de verdade. Eu tenho certeza de que ela é muito doce, que só seguiu esse caminho por que vem sido muito lucrativo para ela. Eu entendo isso, e não estou a desmerecendo por isso. Mas ao mesmo tempo, eu vejo o jeito e o estrago que essa imagem faz na cabeça de tantas garotas, e quero ser contra a ela por razões políticas e humanitárias.

Lógico; eu entendo isso completamente, e concordo com tudo.

Shirley Manson: Estamos com um papo tanto polêmico logo de manhã, não estamos? (risos)

Ah, mas tá sensacional! Eu amei tudo que você disse! (risos) Mas como nosso tempo está acabando, para finalizar, você gostaria de deixar uma mensagem para os fãs brasileiros?

Shirley Manson: Apenas um muito obrigada por tudo que vocês tem feito pela gente, e até mesmo por estarem interessados em ler esse artigo. Eu sei que há tanta coisa, tantos artistas e bandas novas, e tão pouco tempo para a gente poder absorver tudo que é jogado na nossa frente. Toda vez que fico sabendo sobre alguém se conectar com algo que dissemos ou com nossa música, que nos siga ou nos visto em nossos shows… Fico encantada. Isso é maravilhoso; me deixa maravilhada (risos).

Vocês estão com planos de voltar para o Brasil em breve?

Shirley Manson: Nós temos sim, na verdade. Nós temos falado bastante disso com nossos gerenciadores, e sei que conversas estão rolando; temos uma intenção muito forte de voltar para a América do Sul.

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