Entrevista: Rincon Sapiência fala sobre disco de estreia “Galanga Livre”

Foto: Renato Stockler

Em maio, o rapper Rincon Sapiência divulgou seu primeiro álbum da carreira, intitulado “Galanga Livre”. A estreia do músico foi lançada pela Boia Fria Produções e conta com 13 faixas no total, reunindo os mais variados estilos, como blues, funk e afrobeat.

Nação da Música teve a oportunidade de conversar com Rincon sobre seu novo trabalho, a recente turnê europeia feita por ele e também sobre o show de lançamento no SESC Pompeia, no final do mês.

Entrevista feita por Marina Moia.

————————————————————————————————————— Leia a íntegra

Você acabou de voltar de uma turnê por diversos países da Europa. Como foi a experiência?
Rincon: 
Foi bem interessante! Deu tudo certo… os shows, todo tipo de curiosidade que eu tinha em relação ao idioma e recepção do público foi superada de forma bem positiva. Também consegui render vários trabalhos por lá, como gravar com os artistas de lá, filmei um clipe em Paris. Foram 20 dias que renderam muitas coisas e diria que volto renovado pra cá.

Depois de muitos anos de carreira, você acaba de lançar o seu disco de estreia, “Galanga Livre”. Por que a demora para divulgar um disco e o que te fez decidir lança-lo agora?
Rincon: 
Acho que agora eu já tinha tido um “flerte” em 2014 que foi quando eu fiz o EP “SP Gueto BR”, então ali eu percebi que precisava ter mais aparato pra divulgação, pra produção, pra tudo. Depois dessa experiência que eu tive com o EP, eu passei a iniciar esse projeto do álbum.

Eu tive oportunidade de ter uma direção musical, que foi feita pelo William Magalhães, e tive o apoio também da Boia Fria Produções tanto na produção executiva do disco como também para pensar nas mídias, assessoria, esse tipo de coisa. Sem contar o tempo que tive para encontrar essa sonoridade nessas pesquisas que tenho feito. Foi um tempo longo, mas acabou sendo o tempo suficiente pra lançar meu primeiro álbum. Esse é um trabalho que, daqui alguns anos, quero escutar e ter orgulho dele. Eu acredito que a gente segue essa linha.

Como você mencionou, o disco foi coproduzido com o William Magalhães. Como foi o processo criativo de “Galanga Livre”? Li em algumas entrevistas que você demorou cerca de dois anos para reunir tudo e montar o trabalho…
Rincon: 
É, eu já tinha os arranjos feitos, os recortes, as vozes gravadas que eu gravo tudo eu mesmo em casa. Mas aí chegou o momento de vir uma outra pessoa, com mais bagagem de música do que eu e experiência para fazer os ajustes finais. Por ora, a gente conseguiu rapidamente resultados incríveis e por ora também aconteceram os momentos de choque, dele propor uma coisa ou outra, mas no final das contas a gente se entendeu e ambos saíram felizes com o resultado do disco.

Para aqueles que não sabem o significado do nome Galanga, você poderia explicar o motivo de ter usado “Galanga Livre” como título do disco?
Rincon: 
O nome [do disco] foi inspirado num personagem fictício, vamos dizer assim, no Galanga, que eu criei. Mas o nome foi inspirado no Chico-Rei, que era um rei que veio ao Brasil na condição de escravo. O seu nome de batismo, africano, era Galanga. Eu me inspirei nesse nome pra dar nome ao meu personagem e ele é um escravo que, na primeira faixa “Crime Bárbaro”, mata o senhor de engenho e, a partir disso, se cria uma série de ideias na cabeça dele, que passam do medo ao heroísmo.

A simbologia disso é porque sempre existe uma ideia maior que tenta privar a liberdade de outras etnias, de outros gêneros… Acho que a gente precisa matar essas ideias que seguem esses valores que privam nossa liberdade. A simbologia de um escravo matando o seu senhor de engenho é isso. Uma proposta não de literalmente matar o senhor de engenho, mas a gente matar os ideias que criam o racismo, que criam o machismo, a homofobia e várias outras desigualdades.

Ao ouvir o álbum, conseguimos perceber muitas tipos de som, do funk ao afrobeat. Quais são suas maiores influências? Tanto hoje em dia como na época que você começou. O que te levou a seguir pelo caminho da música?
Rincon: 
Eu comecei apaixonado mesmo por rap e isso veio de pequeno. Quando eu montei minha primeira banda e iniciei minhas atividades com o rap, a ideia de se montar banda veio muito da cena do rock dos anos 90, influenciado por Chico Science, Planet Hemp, O Rappa, Charlie Brown Jr, e por aí vai.

Tive fases de ouvir muito reggae. Sou apaixonado também, desde pequeno, por cultura afrobrasileira, então sempre gostei de umbanda, de candomblé, de capoeira. Quando eu passei a ter uma certa maturidade, artisticamente falando, comecei a colocar todos esses elementos e todas essas influências no meu trabalho com a finalidade de construir algo autêntico, algo que seja, que as pessoas precisem ir até a mim para encontrar esse tipo de texto, de instrumental, de show. É uma busca constante e a gente já tem uma pesquisa muito grande, mas as pesquisas nunca param. Cada hora você está ouvindo uma coisa, cada hora tem algo que te inspira e te apaixona e assim que segue o baile.

Sei que você foi para Senegal e Mauritânia há alguns anos e que isso influenciou no seu som. Como foi a experiência por lá, tanto musical como pessoalmente?
Rincon: 
A experiência foi bem interessante. Eu fui para dois festivais, um em cada país. Fora as pessoas do continente africano, tinham pessoas do mundo todo, da Europa, do Canadá, Haiti e por aí vai. Ali já percebi que as pessoas se identificaram muito com a minha música, também não entendendo o idioma, as coisas que eu falo, mas elas pegavam nos detalhes, como as percussões, o berimbau, a performance de palco, as danças.

Quando eu voltei dessa viagem, eu percebi que eu teria que explorar isso. Eu já tinha algumas músicas já gravadas e ainda sem direção. Eu juntei elas e fiz o EP “SP Gueto BR” em 2014 e quando eu tirei esse projeto da frente, digamos assim, eu falei “agora eu to livre para explorar essas pesquisas que eu tive nessa minha última viagem”. Criou-se essa ideia, essas músicas e esse conceito, que eu chamo de Afrorap. Foi a partir dessa viagem para Senegal e Mauritânia.

Um dos primeiros hits sua carreira foi “Elegância”, de 2009. O que você sente que mais mudou na cena do rap desde então?
Rincon: 
Acho que a abertura pra trabalho e veiculação do rap é muito maior. “Elegância” é uma música que começou a tocar nos bailes e não era tão comum se tocar rap nas festas, era mais o norte-americano. “Elegância” contribuiu pra essa quebra e os bailes a passaram a ter interesse em ter minha presença lá. Fazia shows basicamente em baladas, sempre, aí foi expandindo pra fora de São Paulo, pra Curitiba, interior…

Hoje eu já vejo o rap inserido em festivais, televisão, rádio, publicidade. A gama de público é muito maior, muito diversa e passa por diversas classes sociais, por vários gêneros. É interessante você olhar o seu público e ver pessoas mais velhas, mais jovens, preto, branco, os da quebrada, os da classe média, os gays, as mulheres, a diversidade. Esse é uma cenário que há alguns anos eu via muito menos e acho que o rap caminha para uma direção legal dentro da música popular brasileira.

Todos os clipes dos singles de “Galanga Livre” são muito bem produzidos e interessantes, mas minha curiosidade é com o de “Meu Bloco”. Ele foi mesmo gravado em plano sequência? Como foi a gravação dele?
Rincon: 
Foi bem divertido. É uma música que entrou nos 45 do segundo tempo. “Ponta de Lança” já foi outra que apareceu meio de surpresa também. Surgiu por espontânea pressão e teve que estar no disco, pela repercussão que ela teve. Estava naquele momento… “Ponto de Lança” saiu no final de dezembro de 2016 e depois virou o ano, já era verão, Carnaval e eu já tinha essa música. Pensei “pô, não tem momento melhor pra eu botar essa música na roda também”.

Já me agilizei pra gravar, mixar e masterizar. Fiquei com a música pronta e tinha pouco tempo pra lançar o clipe. Uma sugestão que deram foi: “se a gente fizer no plano sequência, a gente já mata a edição”. As pessoas compraram a ideia, o Jorge, a Fernanda, a rapaziada que trabalhou na produção e edição do clipe, e a gente foi lá e filmou. É bem minucioso. Um erro e tem que voltar tudo, mas ao mesmo tempo não foi algo maçante e desgastante. Fomos gravando vários takes, se divertindo, cantando, dançando e rolou esse resultado que tá aí.

Tem alguma banda ou artista hoje em dia com quem você gostaria de fazer uma colaboração? Uma parceria dos sonhos?
Rincon: 
Uma colaboração dos sonhos, pra falar assim de imediato, eu não tenho, mas eu conheço muita gente, tanto de longe como de perto, que tem trabalhos interessantes. Artistas desde o rock… sou amigo da rapaziada d’O Terno. Acho que num momento oportuno a gente pode fazer algo. Enfim, tem os ídolos também, mais da antiga, como Ney Matogrosso, Gilberto Gil, Djavan, e outros rappers que eu gosto, Froid, Djonga, enfim, muita gente. Muitas possibilidades de colaborações. Agora que eu terminei o disco, eu to soltinho também, só aguardando os convites pra fazer alguma coisa também.

No final do mês, terá lançamento do disco no SESC Pompeia. O que os fãs podem esperar dos shows?
Rincon: 
A gente tem trabalhado bastante, se dedicado pra isso. Eu acho que tudo é uma tensão, principalmente pra mim, como primeiro álbum, primeiro show de lançamento. Aparentemente, as vendas estão indo muito bem. Eu acho a tendência é que se esgote dias antes dos shows. Pra mim, tudo isso é novo. Já cantei em muito lugar vazio. Toda essa história que está acontecendo agora é muito nova e isso cria responsabilidades, expectativas e tensões. Eu me coloco na frente de tudo e eu falo pros meus parceiros de banda que a gente tem que se concentrar em fazer tudo certinho e dar nosso melhor, mas a gente tem que estar se divertindo também. Estou contando que seja dois dias de muita diversão, descontração, música e energia boa.

Por último, gostaria de mandar um recado para os seus fãs e para os leitores da Nação da Música?
Rincon: 
Diria para a rapaziada colar nos shows, aparecerem sempre e é isso!

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Marina Moia
Jornalista, bauruense de coração e apaixonada por música desde que se conhece por gente. Viciada em séries, amante de livros e colecionadora de batons coloridos.

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