Resenha: “Dance Fever” – Florence and The Machine (2022)

Reprodução / Twitter
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@nacaodamusica

O primeiro projeto da banda Florence + The Machine em quatro anos, “Dance Fever” foi lançado em 13 de maio desse ano, contando com 14 faixas originais. Misturando a tonalidade folclórica e quase medieval de seus primeiros projetos a com composição narrativa e sentimental presente no último álbum, “High as Hope” de 2018, Florence consegue criar um disco que existe em sua própria temporalidade, ao mesmo tempo que reflete sobre suas experiências pessoais como uma mulher, uma artista e uma amante.

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Ao longo do disco, a banda brinca com diversos gêneros musicais, sempre mantendo instrumentos orgânicos como a base das faixas. Indie rock, folk pop e até alguns aspectos de dance, tudo isso existe no universo de “Dance Fever” – contando as tragédias e vitórias de sua vocalista, que extraiu inspiração de sua própria vida e de ‘heroínas trágicas’, como contou Florence em entrevista à rádio britânica BBC, pré-lançamento.

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Abrindo com “King”, conhecemos nossa protagonista: sentimental, artística e orgulhosa. As letras relatam conversas profundas com um interesse amoroso, além de explorar a noção de que dor é necessária para a criação de arte.

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Com frases como “Mas, uma mulher é mudança / Sempre trocando de forma”, Florence já ancora a faixa na feminilidade, explorando isso também no refrão, no qual destaca sua existência como “rei”, contrapondo-a com “mãe” e “noiva”. Ainda assim, “King” também abraça as dúvidas de sua criadora, que questiona sua continuidade como artista.

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A sonoridade é crescente, usando pouquíssimos, se algum, sons eletrônicos – focando a produção em uma guitarra como base, em cima da qual são adicionados instrumentos de sopro e percussão, outra coisa que nos acompanha desde o primeiro verso. Os instrumentos acompanham as reflexões da vocalista, que enraíza-se como “rei”, ao mesmo tempo que questiona sua posição.

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O quarto single de “Dance Fever”, “Free”, sobre a qual você pode ler aqui na Nação da Música, é uma exploração de sentimentos de ansiedade, uma caracterização de alguém procurando soluções para esse problema, que parece nunca ir embora. Falando sobre o uso de remédios, drogas e passagens por hospitais, Florence percebe que a única vez que sua ansiedade desaparece e a deixa “livre” é enquanto ela dança.

Em sua produção, “Free” já é rápida desde a primeira nota, sendo construída com percussão constante e uma guitarra elétrica – mas, o refrão consegue crescer e atuar como um momento real de liberdade.

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Choreomania”, uma das minhas faixas favoritas no disco, abre com um momento falado, no qual a artista narra seus ataques de pânico – sentimento que é base da composição no restante da faixa, mais uma vez explicitando a importância que dança tem para Florence.

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Utilizando a epidemia de dança de 1518, na qual diversas pessoas dançaram até a morte, como uma metáfora para a procura constante de melhora e, no caso da artista, a pressão para performar, a canção também tem um sentimento quase profético, especialmente com o fato de que foi escrita pré-pandemia.

Uma das frases mais marcantes do disco também está nessa faixa, “Você diz que o rock ‘n roll está morto / Mas será que ele só não foi ressuscitado na sua imagem?”, com Florence refletindo sobre como as pessoas dificilmente reconhecem o rock em mulheres. A produção, inclusive, é quase como um rock medieval, contando com percussão pesada e guitarras ao fundo, mas, também podendo-se ouvir pandeiros, palmas e sons mais leves do folk.

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Sentimental e narrativa, “Back In Town” remove quase toda a instrumentação, tendo os vocais de Florence como personagem principal por quase toda a faixa. Narrando sua visita a Nova York, na qual escreveu diversas das faixas do álbum, a artista descreve um sentimento de irrealidade, dentro do qual espera muito de uma experiência, mas, o que acontece é muito diferente.

Ao longo da composição, Florence consegue romantizar até os aspectos mais sujos, “Deixe os ratos girarem em volta de nossos pés”, mas percebe que é sempre a dor da realidade que a faz ficar.

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Girls Against God” começa com um leve toque de violão, adicionando percussão assim que a voz da cantora surge do silêncio instrumental. Escrita durante a pandemia, a canção explora os sentimentos de raiva e tristeza, que surgiram durante o isolamento.

A composição coloca o foco completo nas emoções, fugindo da realidade e realmente questionando tudo – até mesmo declarando guerra a deus. A produção mantém-se quase a mesma ao longo da faixa, aumentando, no entanto, o som de eco, simulando quase como uma multidão cantando ao lado de Florence.

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No final de “Girls Against God”, a protagonista reconta seu encontro com o diabo, que a ofereceu uma escolha entre um coração de ouro ou uma voz de ouro – esse momento descreve um ponto mais sombrio do disco, que sangra direto para “Dream Girl Evil”.

Já pela introdução, que lembra sons de duelos em filmes, a faixa é um desafio antes de qualquer outra coisa. Florence descreve o quanto sua realidade é distorcida por homens que a assistem, também explorando o quão libertador é esse papel de maldade para uma mulher.

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A próxima faixa, “Prayer Factory”, é mais um interlúdio, com pouco mais de um minuto de duração. Explorando temas de luto, especialmente pelo fim de uma conexão, e poder, a composição abraça a potência em seu próprio trauma, além de narrar uma pausa brusca, outra possível conexão com a pandemia e os sentimentos descritos em faixas anteriores.

Cassandra” é uma das canções mais inspiradas na sonoridade do folk dentre as músicas do álbum, e é nela que Florence explora mesmo a sentença de isolamento que o mundo sentiu durante a pandemia.

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Utilizando o mito de Cassandra, vidente amaldiçoada por Apolo a contar profecias verdadeiras, mas, nunca acreditadas, a vocalista canta sobre um sentimento de expulsão e desespero, procurando em qualquer lugar alguma liberação.

Enquanto isso, a produção também cresce com as emoções da personagem, terminando com muita intensidade enquanto Florence implora aos deuses para que “Me levem de volta”.

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Com um som inspirado pela salsa, “Heaven Is Here” é outra faixa mais curta. Cantando e dançando, a faixa é quase uma descrição de descontrole – não necessariamente negativo, mas completamente solto de quaisquer regras.

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A produção, mesmo que curta, soa repetitiva, até a última seção, que é falada por Florence e os sons são quase silenciosos, enquanto a personagem descreve o poder de fuga que essas canções representam.

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Aberta com uma respiração profunda, “Daffodil” é baseada em uma guitarra elétrica, soando mesmo como uma música de rock sentimental, apoiada pela percussão rítmica.

Na composição, a artista descreve a beleza presente em momentos pequenos, como ver uma flor de narciso, utilizando ela como uma cura para profundas tristezas, “E o mundo dobrado para chorar”. Além disso, Florence também usa a faixa para adicionar ainda mais mágica e mitologia ao álbum, reconhecendo a flor como uma profecia de que tudo ficará bem.

My Love” é música mais ‘dance ‘ do álbum, utilizando sintetizadores e sons eletrônicos por baixo dos vocais claros de Florence. Com um refrão que consegue mesclar disco com a sonoridade medieval da artista (fazendo com que os sintetizadores soem como pandeiros), a faixa conta com uma das produções mais complexas de “Dance Fever”.

A composição continua explorando as dificuldades em ser uma artista, especialmente no quesito da criatividade.

Florence começa explicando que sempre conseguiu expressar tudo em músicas, mas, tem tido dificuldade em preencher as suas folhas atualmente – mas, não acaba aí, ela passa a faixa inteira questionando como retornar à sua expressão, onde ela coloca suas emoções nesse momento. Mesmo que dançante, é um dos momentos mais desesperadores do disco.

Em “Restraint”, a artista volta a músicas com instrumentais mais cenográficos, enquanto sua voz toma o papel de protagonista nesse curto interlúdio. Entre respirações profundas, Florence expõe suas ansiedades, explicando que “nunca aprendi contenção”.

A próxima faixa, penúltima do álbum, “The Bomb” conta com a composição mais clara do álbum e sua produção consegue solidificar sua sentimentalidade. Falando diretamente com um interesse amoroso, a artista descreve a dificuldade em aceitar seus próprios sentimentos e sua obsessão com instabilidade.

Baseando-se em um violão, com uma discreta percussão, “The Bomb” consegue abranger sentimentos pessoais de Florence, enquanto também questiona a outra pessoa, que mantém-se indisponível. Em um dos últimos versos, a artista diz “Às vezes, você consegue a garota / Às vezes, você ganha a música”, continuando nos temas de criatividade.

Fechando o disco com uma chave melancólica, “Morning Elvis” também tem uma produção mais discreta, utilizando ecos e coros em certos momentos – de maneira a dar uma vibe quase odisséica à faixa.

A composição, no entanto, é extremamente honesta e crua, equilibrando relatos de bebedeira, ao lado de pensamentos suicidas e um abandono completo de si mesma. Ainda assim, Florence termina o disco refletindo que seu destino e sua paixão está enraizada na música e na performance, esperando ser salva pelo palco e seu público.

O mais novo álbum de Florence + The Machine consegue mesclar perfeitamente todas as eras da artista – o tom folclórico, as letras honestas, o rock ‘n roll e a temática quase mitológica constroem uma visão completa de sua discografia.

Oferecendo letras dignas de choro, de reflexão e de liberdade, “Dance Fever” é fluído e possibilita a construção de seu próprio significado. Momentos do disco acabam se perdendo em uma narrativa complexa e cheia de referências, mas, ‘óbvia’ nunca foi um adjetivo atribuído a Florence Welch.

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RESUMO DA RESENHA
Florence and The Machine - "Dance Fever"
Estudante de jornalismo, não-binárie e apaixonade por música. Sempre aberte para ouvir qualquer gênero, artista ou década. O universo do pop, principalmente hyperpop, k-pop e synthpop, é onde eu vivo e sobrevivo.
Em “Dance Fever”, somos convidados a um universo completamente coberto de significados, simbologia e mitologias - tudo isso por cima de um som que mistura pop, folk, rock e até dance. Com suas letras honestas e narrativas, Florence + The Machine conseguiu criar um álbum fiel a seu imaginário.resenha-dance-fever-florence-and-the-machine-2022