Resenha: “folklore” – Taylor Swift (2020)

taylor swift
Foto: Divulgação / Facebook
Mar Aberto
Mar Aberto

A cantora Taylor Swift divulgou, na última sexta-feira (24), seu mais recente álbum de estúdio. Intitulado “folklore”, o projeto possui 16 faixas em sua versão standard e chega até o mercado fonográfico anunciado um dia antes de seu lançamento, quase que de surpresa, e com menos de um ano do lançamento de seu antecessor “Lover” sendo algo especialmente novo na carreira da artista que sempre dá intervalos de, no mínimo, dois anos entre um projeto e outro. Você confere logo abaixo uma análise detalhada faixa a faixa do projeto. Vamos?!

O álbum é introduzido por “the 1” e é a partir dos primeiros acordes de piano que começamos a mergulhar nessa nova proposta musical da cantora. Com uma letra madura sobre um relacionamento que não funcionou, a cantora passeia por entre as perspectivas do que é em detrimento do que teria sido essa aventura. A produção da faixa traz um clima que ressoa de uma maneira gostosa no ouvido e, ainda que não seja um sentimento completamente positivo, certamente não é de todo mal.

Avançando para águas mais profundas, temos o carro-chefe do álbum de Taylor Swift. Intitulada “cardigan”, a faixa é basicamente tem o mesmo conceito de história da anterior, de uma interpretação diferente. O piano aqui fica responsável por dar um tom um tanto quanto melancólico para a faixa. Se antes Taylor tinha uma visão leve de um desencontro amoroso, aqui ela nos mostra as dores enquanto está perdida nessa narrativa. Essa faixa é a primeira de um trio dentro do álbum que conta a história de um triângulo amoroso adolescente do ponto de vista de cada uma das pessoas dessa teoria. Aqui temos o ponto de uma garota que acabaremos por descobrir mais tarde que se chama “betty”.

“the last great american dynasty” conta a história de Rebekah Harkness que foi a dona de uma mansão em Rhode Island nomeada de “Holiday House” que desde 2015 pertence à Taylor Swift. Resgatando suas origens country, estilo musical onde a escrita narrativa é muito forte, Swift passeia no final da música na transição entre a história de Rebekah e a sua própria. Mantendo um tom mais grave, quase que narrativo, ao longo da faixa, Taylor eleva a oitava vocal a medida que assume o protagonismo da faixa na letra, já no final. Uma sacada bastante perspicaz por parte da cantora.

Mar Aberto
Mar Aberto

A primeira e única colaboração no álbum vem com o grande nome de Bon Iver. “exile” traz um profundo mergulho na história de um casal que não deu certo avaliando sua história de amor interrompida. De um lado temos um eu lírico extremamente pesado que culpa sua parceira pelo fim trágico do relacionamento cujo peso é reforçado pelo tom extremamente grave e dramático do cantor que começa a ser sobreposto por vocais suaves e aerados de Taylor a partir da segunda estrofe rebatendo as acusações da culpa do fim do relacionamento. O contraste vocal na faixa cria uma tensão e uma experiência ímpar no álbum e a faixa pode facilmente ser considerada um dos pontos altos do projeto.

Embebida em uma série de metáforas, Taylor nos apresenta “my tears ricochet”, uma canção escrita totalmente por ela onde as diversas referências são claramente para sua antiga gravadora, ainda que nada possa ser afirmado. Frases como “canções de ninar roubadas” e “amaldiçoando meu nome desejando que eu tivesse ficado” só reforçam isso. A produção vocal da música é igualmente genial fazendo jus à letra com vocais harmonizados que fazem uma cama sombria ainda que sóbria para receber essa carta aberta e brutalmente honesta reforçando a ideia de cena fantasmagórica descrita pela cantora.

“mirrorball” está inclusa na escassa sessão de faixas que não são agridoces do álbum. É uma leve e honesta canção de amor cuja produção cria uma certa confusão onde as estrofes tem uma crescente com um certo tratamento de refrão e o refrão entrega a calmaria da realidade que desmonta o eu lírico em pedacinhos, como no caso de um globo de dança espelhado. Com referências circenses e de discoteca, Taylor Swift nos dá um respiro com uma letra rica e no entanto despida de vaidades, é uma entrega, literalmente em outra esfera.

E a nostalgia entra em cena, o que vai acontecer mais pra frente novamente, mas aqui ela vem em “seven”, na forma de infância. É uma narrativa do ponto de vista de uma criança/adolescente que tenta ajudar um alguém que soa como uma amizade com problemas familiares. No decorrer da canção, a nostalgia vem com mais força nos últimos versos e é possível perceber que há força suficiente pra se escrever uma música especial e viva ainda que reminiscente. É uma das faixas com a maior influência folk dentro da obra.

“august” chega de maneira não literal trazendo consigo o que parece ser a segunda parte do trio de faixas que contam a história de um triângulo amoroso, dessa vez do ponto de vista da 3ª pessoa da relação que tem suas questões e que lembra da aventura romântica ambientada no frio agosto do quente verão norte americano. A construção lírica dessa faixa trás as inquietudes do eu lírico na forma como Taylor Swift entoa seus versos, ou seja, a medida que novas informações são trazidas a mesa, os versos começam a se tornar mais frenéticos. É um caso daqueles em que há uma superação mas… E sabemos que, muitas vezes, tudo que antecede o “mas” não é de fato relevante.

Submersos o suficiente na obra por completo, “this is me trying” abre a segunda parte do álbum de 16 faixas. Aqui temos a cantora em seu habitat natural. Essa faixa é a clássica Taylor derramando seus sentimentos em uma letra honesta e cheia de arrependimentos. Poderia facilmente ser uma segunda versão de “Last Kiss”, faixa de seu terceiro álbum “Speak Now”, com uma nova roupagem e uma produção mais sofisticada ainda que com aparência crua. É quase mágico o que o casamento musical entre Taylor e Jack Antonoff, que está na composição e produção da maior parte do álbum, cria para nós.

Este álbum é cheio de gratas surpresas e honestidades brutais e em “illicit affairs” experienciamos novamente essa combinação. Uma faixa um tanto quanto morna falando sobre traição arrependimento, amor e desilusão, que não é nada do que já não tenhamos visto até aqui, irrompe em uma explosão de todos esses sentimentos anteriormente citados a medida que a produção cresce e dá uma vida completamente diferente para a canção com harmonias vocais que se assemelham aos gritos que ecoam nas cabeças dos corações partidos. É a melhor faixa do álbum? Talvez não, mas certamente tem sua unidade peculiar.

O afago no peito que todo álbum da cantora tem, chega em “invisible strings” em que, presume-se que seja sua faixa mais pessoal do álbum, ao tratar de um romance atual vivido pela cantora e seu parceiro, Joe Alwyn. Com uma letra cheia de metáforas relacionadas a cores na representação de seus sentimentos e amores, bem típico de sua escrita, Taylor faz menção a história japonesa do cordão vermelho que diz que as almas gêmeas estão conectadas por um cordão embolado que eventualmente vai se desembolar fazendo com que elas se encontrem. É especial que isso traga benefícios pra nós também numa canção bem mais próxima da Taylor de “Fearless” do que da de “Reputation”.

A genialidade lírica de Taylor não é novidade pra nenhum de seus fãs e/ou críticos que acompanham sua carreira, mas em “mad woman” ela une isso a uma habilidade de referenciar sua vida e a uma maturidade para falar sobre o machismo e misoginia que ela enfrentou ao longo de sua carreira, especialmente na briga pelos masters de suas canções com Scott Borschetta e Scooter Braun, de maneira brilhante. É realmente fora da curva que um homem fale sobre o ponto de vista de uma mulher feminista como a Taylor então, deixarei o protagonismo de fala para a cantora, uma vez que essa música, um outro ponto muito alto do nível já elevado do álbum, fale por si só. E ela o faz brilhantemente.

A atmosfera magistral com que “epiphany” se apresenta nos envolve em uma realidade paralela e, pra uma canção que relaciona os efeitos das guerras civis e da luta contra a covid-19, é mais do que justo que essa ambientação traga a paz com que a música nos envolve. É importante, inclusive, enaltecer a sensibilidade da cantora em usar a sua plataforma pra prestar uma homenagem tão sólida e tocante para os profissionais que estão lutando incansavelmente para conter o vírus e salvar vidas, muitas vezes ao mesmo tempo. Um ato de humanidade efetivo ainda que subjetivo.

Taylor está para o country como suas letras estão para o amor. É neste estilo musical que a fez chegar até aqui que podemos ter a sua melhor versão e a nostalgia reaparece aqui em “betty” como anteriormente citado. A terceira parte do triângulo amoroso enfim chegou trazendo a perspectiva da terceira pessoa nomeada de James. Um country que nos leva de volta a era de ouro dos tempos de “Fearless” e “Speak Now” e, tudo bem que ela já tenha tido eras de platinas e diamantes, mas nada como uma narrativa de amor e coração partido que a velha Taylor fazia e que a nova ainda sabe fazer. Os nomes citados na canção – Inez e James – são os nomes das filhas de Blake Lively e Ryan Reynolds, o que faz com que dois rumores sejam questionados: o nome não revelado da terceira filha do casal recém nascida é Betty e o triângulo amoroso adolescente presente no álbum é uma história de amor homossexual já que o gênero de James não é citado em nenhuma das músicas e levando em consideração que James, filha do casal, é uma menina.

“peace”, penúltima faixa do álbum, é uma linda carta aberta de maturidade e um dos melhores conjuntos de palavras de todo o álbum. A questão com essa faixa é que melodia e harmonia são muito conflitantes por ter um desencaixe de tempo que chega a ser incômodo. Como nada que Taylor Swift faça é em vão, pode ser que a ideia da faixa seja justamente o que a letra diz em “não, eu nunca poderia te dar paz”. Passando por todas as intrigantes frases da música e do complexo desencontro harmônico-melódico, ter essa música como faixa final do álbum seria um deleite semelhante ao de “Daylight” de seu mais recente álbum intitulado “Lover”.

Como última cartada, temos “hoax”, uma das faixas mais melancólicas do álbum que, musicalmente, revive o primeiro single do álbum, a também melancólica “cardigan”. É uma bela faixa, com uma profundidade emocional e lírica louvável, nada que já não soubéssemos até aqui, talvez um erro deixá-la no final já que é este sentimento que perdurará após a finalização da escuta deste trabalho, o que não faz dela, de maneira alguma, uma música ruim. Dos males, o menor.

Tudo o que é bom dura tempo o suficiente para se tornar inesquecível. Em “folklore”, Taylor nos entrega profundidade, honestidade, genialidade e bravura embrulhadas num cinza nem um pouco monótono que podemos chamar de coesão. Tanto para seus fiéis seguidores, apaixonados ou não por seu trabalho, quanto para os navegantes de primeira viagem, já que esse navio é comandado apenas por ela, fica evidente o toque de Midas que a cantora tem quando resolve se debruçar em um corpo de trabalho tão sólido quanto é o álbum com que fomos presenteados. Não é à toa que “folk” (povo) quando unido a “lore” (sabedoria popular) não poderia nos dar nada além do que um dos melhores trabalhos de Taylor Swift até esta data. Ela que já foi essência, destemida, honesta, vibrante, originária, julgada e amante, se torna agora, mais do que tudo, sábia.

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Mar Aberto
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RESUMO DA RESENHA
Resenha: "folklore" - Taylor Swift (2020)
Guil Anacleto
Arquiteto e Urbanista por opção, cantor e amante de música por vocação. Uniu seu gosto por música e por escrita quando viu no Nação da Música a oportunidade de fundir ambos. Não fica sem um bom livro, um celular e um fone de ouvido. Amante de séries, televisão, reality shows, gastronomia, viagens e tenta sempre usar isso a seu favor para estar reunido com família e amigos. Uma grande metamorfose ambulante reunida em um coração sonhador com um toque de humor indispensável.