Resenha: “In The Meantime” – Alessia Cara (2021)

ALESSIA CARA
Foto: Shervin Lainez
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Com grandes inspirações dos anos 2000, mas pulando por diferentes eras nas dezoito músicas do disco, Alessia Cara retornou nessa última sexta (24) com “In The Meantime”, seu primeiro álbum desde “The Pains of Growing” de 2018 – como você pôde acompanhar aqui na Nação da Música. Expondo sua habilidade de criar composições muito inteligentes e ainda relacionáveis, ela consegue manter seu ouvinte envolvido na narrativa do projeto mesmo com sua duração de quase uma hora.

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“In The Meantime” de modo geral é um álbum sólido sobre a dualidade de sentimentos que a vida adulta lhe oferece – explorando as contradições dentro do amor, do autoconhecimento e até mesmo do próprio estado de estar sozinho. Enquanto a produção falha em algumas das faixas, por exemplo usando batidas repetitivas, ou simples demais quando a letra pedia por mais, o disco continua cumprindo sua proposta como uma exploração do tempo entre – seja entre a tristeza e a felicidade, o término e a superação, o começo de um relacionamento e a separação, e muitos outros períodos.

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Iniciando o projeto com “Unboxing Intro”, Alessia Cara deixa claras as intenções dele. Com linhas como “Preciso de claridade / Perdi a terapia de novo”, ela fala sobre esses sentimentos escondidos e encaixotados, até que não consegue mais segurá-los – o que acontece no fim da intro. Quem segue é “Box In The Ocean” e, com uma batida de blues, mesclada com toques de reggae, a artista aproveita o momento para continuar a reflexão sobre o encaixotamento iniciada na anterior. Usando de metáforas relacionadas a trancas e esconderijos, ela versa sobre como tem todas essas emoções prestes a explodir mas que ninguém saberá nada sobre elas pois as esconde, até o momento em que as solta e deixa essa ‘caixa no oceano’ flutuar.

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Bluebird”, segundo Alessia Cara, é uma faixa aspiracional, um sentimento que ela desejava ter sentido durante o fim de um relacionamento – mas que, na verdade, não foi o que ela experienciou no final desse amor não-retornado. Ao som inspirado pela Bossa Nova, a cantora deseja o bem para esse interesse amoroso perdido, falando sobre como ela ainda o ama, mas não poderia continuar a prendê-lo – usando a metáfora de um pássaro que ela soltou, pois sentia que o relacionamento estava cortando as asas dele. Os versos “Você parece mais feliz, eu chequei é claro / Eu te desejo o melhor, é claro / Eu estou doendo menos, tenho certeza” encapsulam perfeitamente os dois lados dessa emoção.

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Produzida por Boy Wonder, a canção “Lie To Me” foi desenvolvida em um momento interessante na criação de “In The Meantime” – “Eu achei que já tinha acabado o álbum, que tinha dito tudo que tinha para dizer, mas senti que precisava escrever sobre uma amiga minha que estava no estúdio comigo – e sobre o menino que não estava respondendo as mensagens dela”, contou Alessia Cara em uma audição exclusiva do disco. Por cima de uma produção merecedora de nomes dos anos 2000, como Destiny’s Child ou TLC, a letra questiona-se sobre as ações desse interesse amoroso enquanto ele não está ao lado dela, dizendo que “Eu prefiro estar sozinha / Do que deixar você mentir para mim”.

Shapeshifter” é uma queda imensa na energia depois da aura de “Lie To Me”, mas é muito inconclusivo se isso apresenta-se como um problema no disco ou uma variação necessária a seu conceito. A composição melódica, construída por cima de um violão e uma bateria, é cansativa com a duração da faixa – repetindo o mesmo ritmo ao longo da canção inteira, com poucas diferenças, mesmo quando chegamos ao refrão. No entanto, as letras são algumas das mais envolventes do projeto, usando do poder sonoro do “-er” ao fim de “Shapeshifter”, a artista cria diversas rimas e entrega um dos versos mais poderosos em questão poética: “Eu fui enganada ou você é um tolo como eu?” (“Did I get fooled or are you a fool just like me?”).

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A música “Fishbowl” é um dos momentos em que a produção não combina com o sentimento expresso pelas letras, mas isso é um elogio. Descrevendo uma crise de ansiedade, questionando-se se está presa em um aquário, afogando-se, Alessia Cara canta sobre isso por cima de uma batida anos 2000, com momentos animados, de maneira a expressar que sentimentos como esses nem sempre soam como a gente espera. A próxima, “I Miss You, Don’t Call Me”, é a descrição de uma ferida aberta – misturando elementos de jazz, pop e acústica, com diversidade de velocidades. Com o próprio nome, a cantora já mostra a mensagem – de sentir-se conectado ainda a alguém que você sabe que não pode entrar em contato, de maneira a que você consiga superar ele. Durante a ‘bridge’, ela usa de várias comparações, como “Você é a luz que eu tenho medo de acender”, mas finaliza a faixa com um momento de vulnerabilidade, dizendo “Por favor me ligue”.

Middle Ground (feat. CHIKA)” segue, e é outro exemplo de uma faixa na qual a produção simples demais não faz justiça à composição e conceito interessantes. Refletindo sobre esse momento de estar tão guardada e protegida, mas ainda querendo outra pessoa, Alessia Cara canta “Eu não sei o que eu quero / Eu estaria melhor sozinha ou com alguém me enlouquecendo?” e CHIKA versa “Se esse amor é realmente destinado, você vai me encontrar no meio”. As duas expressam essa dualidade e incerteza humanas de maneira perfeita em suas letras, com destaque às rimas da convidada.

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A canção “Somebody Else” expressa um sentimento contrário ao da anterior – no qual você já deixou alguém que te machucou completamente para trás, cantando sobre como não há nenhuma área no meio dessa vez, é tudo claro para ela e está confortável sozinha. A melodia com uma guitarra elétrica fazendo a base, na qual a percussão constrói, é simples, mas um ritmo ideal para o ponto médio de um projeto longo como “In The Meantime”. A décima faixa é “Drama Queen” e, para a produção, Alessia Cara viaja ao passado bem mais que somente os anos 2000, indo até a década de 50, com campainhas e palmas entre as batidas – criando uma canção que caberia dentro do musical “Hairspray”. Com a letra feita em cima de um instrumental, cujo nome foi mantido para a faixa, a artista contou, ela explora esse relacionamento no qual seu parceiro está envolvido somente para criar drama – usando, para isso, várias cenas de teatro e cinema.

Clockwork” é a seguinte e explora de uma maneira única o sentimento de uma depressão que, ao invés de ser constante, age como uma maré – indo embora e retornando. “Cansada de sentar e viver com isso até que ela caia”, canta a artista sobre essas emoções de saber que esse momento ruim está chegando, mas não ter o que fazer sobre isso. A batida compassada durante o refrão, no qual ela descreve esse período como um relógio em que já estão definidas e marcadas as suas sensações, é uma escolha perfeita para combinar as letras com a produção.

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A canção “Best Days” foi escolhida pela cantora como o momento mais triste do disco, especialmente pelo conceito bastante profundo que ela explora – a dúvida sem resposta que é “E se meus melhores dias são aqueles que eu deixei para trás?”. Escrita, como Alessia Cara contou durante a audição, em um episódio particularmente depressivo de seu período em quarentena, a composição, por cima de pianos e instrumentos orquestrais, reflete sobre essa possibilidade de que você nunca será tão feliz como você foi no passado – principalmente representando o lado negativo da dualidade de “In The Meantime”.

Como próxima temos “Sweet Dream” e já começamos mais animadamente do que a passada – no entanto a produção passa uma imagem falsa, já que as letras também exploram uma face sombria da vivência humana. Cantando sobre o momento de não conseguir dormir e implorando por um doce sonho, a artista apresenta suas ansiedades, suas preocupações e seu esforço para se distrair desses. Em “Find My Boy”, Alessia Cara retorna à influência de bossa nova, presente em “Bluebird”, e canta sobre diversos lugares no mundo inteiro e inúmeras atividades que seu verdadeiro amor pode estar fazendo nesse momento da canção. Criando uma letra brincalhona, a cantora descreve esse seu sentimento de que a pessoa destinada para ela ainda está em algum lugar.

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A seguinte é “Voice In My Head” e a artista usa o momento para descrever seus pensamentos negativos e o fato de que ela sente que essa ‘voz’ é o que a prende para baixo, não a deixando melhorar. “Estou encalhada comigo no fim de tudo” canta ela em um dos versos, sob a batida claramente inspirada pelo gênero musical reggae, além de puxar vibrações da banda The Police. Descrevendo um momento de extrema ansiedade e de pura raiva direcionada à sua própria insegurança, a faixa usa dessa produção que muda de velocidade ao longo de sua duração para representar esse sentimento que se intensifica e se acalma, mas sempre está no fundo de sua cabeça.

A décima-sexta canção é “Slow Lie” e, ao som basicamente de um violão, Alessia Cara canta sobre um amor com o qual tinha se conectado muito e que agora a deixou, aparentemente sem razão. Em momentos como “Foi demais para você?”, ela tenta adivinhar esse motivo – em outros versos da música ela reflete sobre como ele disse que nunca iria mudar ou perder essa paixão por ela, que foi exatamente o que aconteceu. O interesse amoroso se desligou tanto dela que a única coisa que ela pode fazer durante a faixa é refletir sobre a relação e afirmar “Acho que te vejo por aí”.

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“Essa faixa me faz me sentir como uma rockstar deprimida”, Alessia Cara diz sobre “You Let Me Down”, que segue “Slow Lie” – construída em cima de uma guitarra e uma bateria mais relaxada, contando com alguns sintetizadores. A faixa descreve o momento em que ela realmente teve o sentimento de paz, pelo qual aspirou em “Bluebird”, com o final de um relacionamento, afirmando que ainda ama a pessoa, mas ele a decepcionou tanto que a melhor coisa a se fazer agora é pôr um ponto final nessa conexão – apresentando linhas como “É uma causa perdida / É uma aposta ruim”, para descrever o que ocorreria caso decidissem continuar.

Apartment Song” é a faixa final de “In The Meantime” e, além disso, é um dos momentos mais positivos dentro do projeto – contando com a cantora abrindo seus braços para as dualidades da vida, para o fato de que não estará sempre bem e para a realidade de que, às vezes, pequenos momentos são os que nos fazem mais felizes. Uma homenagem para o apartamento no qual vive atualmente, por isso o título, e falando sobre o sentimento mais abstrato de se sentir confortável em sua própria cabeça, a artista canta: “Eu sei que sou uma tristeza, não tenho nenhum amante / Mas a cor do céu está tão bonita hoje, eu não me importo” e “Preenchendo o buraco com a felicidade que estou sentindo / Mesmo que eu saiba que não é para sempre”. A música se torna ainda mais significativa com o final dela, que traz risadas e vozes de sua família e amigos, pessoas que ela ama muito e que podem aproveitar essa emoção junto a ela.

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Com dezoito faixas, o projeto “In The Meantime” é ambicioso e bastante longo, tendo presente entre seus componentes, momentos que não se destacam e que não conseguem se equilibrar com os mais sólidos do álbum. No entanto, isso não é para dizer que Alessia Cara não brilha dentro das canções – com sua honestidade e poder de cantar experiências universais, ela consegue criar composições, como “Fishbowl” e “Clockwork”, que não tem como não marcarem o ouvinte. Um disco cheio de potencial e de momentos incríveis às vezes é manchado por produções simples demais ou que não acompanham as melhores canções, “In The Meantime” vale ser ouvido com a mente aberta e com certeza do talento da artista por trás dele.

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RESUMO DA RESENHA
Alessia Cara - "In The Meantime"
Estudante de jornalismo, não-binárie e apaixonade por música. Sempre aberte para ouvir qualquer gênero, artista ou década. O universo do pop, principalmente hyperpop, k-pop e synthpop, é onde eu vivo e sobrevivo.