Resenha: “Nheengatu” (2014) – Titãs

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Os paulistas do Titãs chegaram como uma paulada nos anos 80, criticando a tudo e a todos, expondo os podres da ditadura que dominava o país e incentivando uma rebelião por parte dos brasileiros. É Impossível falar de Titãs sem se lembrar de “Polícia”, hino usado em protestos até os dias de hoje. Porém, com mais de 30 anos de estrada e mudanças na sua formação, uma crise de identidade é inevitável, e isso ficou evidente com o lançamento do duvidoso “Sacos Plásticos” em 2009, que abusava de sons românticos e puxados para o pop. O grupo estava tentando se reencontrar, mas a fase não agradou os fãs mais fiéis que foram conquistados por aquela banda rebelde.

Cinco anos depois, chega “Nheengatu”, lançado em maio de 2014. O álbum sucede o aniversário de 25 anos do clássico “Cabeça Dinossauro”, o que fez com que o grupo relembrasse seus tempos de ouro, fator que influenciou o rumo do novo trabalho – além dos diversos movimentos sociais que estavam (e ainda estão) acontecendo no Brasil. O disco já trabalha uma contradição logo em sua capa, utilizando uma pintura da Torre de Babel, que foi construída pelos homens para chegar até Deus, o que não o agradou, resultando na destruição do monumento e no desentendimento entre os povos. O contraste se dá pelo título “Nheengatu”, que foi uma língua criada por jesuítas para facilitar a comunicação com os indígenas no Brasil colonial.

Do começo ao fim, temas polêmicos são tratados com muita agressividade e sem censura. Sem deixar nada passar, as letras ácidas falam de assuntos como drogas, política, preconceito, pobreza e pedofilia, como já começa na primeira faixa do disco. “Fardado” pode ser visto como uma sequência direta à “Polícia”, retomando o adorado punk rock do grupo e criticando fortemente a atitude tomada por militantes brasileiros.

Ironia e sátiras dão forma à “Mensageiro da Desgraça” que, de forma bem humorada, fala sobre alguém cansado da fome, do crack e da cachaça, disposto a mostrar toda a “desgraça” ao mundo, utilizando como cenário importantes pontos da cidade de São Paulo. “República dos Bananas” segue o mesmo conceito, criticando os costumes e futilidades da sociedade, retratados em temas corriqueiros da classe média.

Não há espaço no disco para baladas ou romantismo. “Fala, Renata”, mesmo que não traga o mesmo nível de criticas sociais das outras faixas, é bem divertida e agressiva, soando mais como um momento de descontração, que prepara o ouvinte para uma de minhas favoritas. “Cadáver Sobre Cadáver” traz uma um som mais melódico muito bem trabalhado, retratando um fim comum a todos, a morte. A música é mais “leve” se comparada com as outras.

“Canalha” é na verdade uma releitura do sucesso de Walter Franco, imprimindo a identidade (recém-reencontrada) da banda. Foram prometidos vários temas polêmicos, e “Pedofilia” cumpre isso, sendo bem ousada em sua letra e instrumentos, com vocais rasgados no refrão. “Chegada Ao Brasil (Terra a Vista)” está longe de ser a melhor de “Nheengatu”, mas traz de volta aquela mistura de pop e rock dos dois primeiros álbuns da banda, assim como “Eu Me Sinto Bem”, que mesmo implicitamente, faz uma crítica ao conformismo da sociedade.

“Flores Pra Ela” realmente me surpreendeu quando ouvi pela primeira vez, sendo uma das mais bem trabalhadas desta nova fase. Contando uma crônica sobre machismo e hipocrisia, traz uma realidade que infelizmente ainda acontece muito nos dias de hoje, mostrando um relacionamento autoritário onde um homem se diz louco por sua companheira submissa, mas a maltrata e reprime quando sozinhos, retratando a violência e o autoritarismo sofrido pelas mulheres.

A distinção dos três vocalistas é realmente interessante de se observar, sendo que cada um deles traz sua individualidade. E é Sergio Britto que traz seu toque de acidez em “Não Pode”, que se rebela contra o uso excessivo de regras, enquanto “Senhor” (escrita por Bellotto, com Branco Mello nos vocais) é mais divertida e irônica, criticando o fanatismo e o lucro que envolve algumas igrejas, rolando até uma pequena paródia do Pai Nosso.

Já perto do fim, a agressividade de Paulo Miklos mostra as caras novamente em “Baião de Dois”, sem se poupar do uso de palavrões, coisa que não acontecia nos últimos trabalhos. A letra complexa é acompanhada de um instrumental impecável, que explode no final da faixa. O instrumental também é destaque no encerramento do álbum. “Quem São os Animais?” traz uma crítica a toda forma de preconceito ainda existente na sociedade, relacionando ofensas como “viado” e “macaco” com a pergunta feita no título: quem são realmente os animais?

Cansados apenas de observar, o Titãs não pode se calar diante de todos os problemas que estavam acontecendo. O termo muito usado nos protestos de 2013, “O Gigante Acordou”, realmente se encaixa aqui, sendo que o gigante é na verdade aquela alma jovem e rebelde que acorda no coração de meia idade dos remanescentes de uma das bandas de rock mais influentes do Brasil.

Tracklist:
01. Fardado
02. Mensageiro da Desgraça
03. República dos Bananas
04. Fala, Renata
05. Cadáver Sobre Cadáver
06. Canalha
07. Pedofilia
08. Chegada A Brasil (Terra a Vista)
09. Eu Me Sinto Bem
10. Flores Pra Ela
11. Não Pode
12. Senhor
13. Baião de Dois
14. Quem São os Animais?

Nota: 8

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