São Paulo Trip: O dia em que fiz as pazes com Guns N’ Roses (ou Axl Rose)

Foto: Divulgação.

Sabe quando alguém já deu alguma mancada com você mais de uma vez e sua confiança vai se desgastando cada vez mais? Essa é minha relação com Guns N’ Roses. Quando era adolescente, a banda foi, ao lado de Kiss e Aerosmith, minha introdução ao hard rock. Passava tardes e mais tardes ouvindo e assistindo repetidas vezes os clipes. No entanto, com o passar do tempo, a separação do grupo, as mancadas de Axl e toda aquela enrolação chamada Chinese Democracy, fui deixando de lado e criando uma certa resistência à banda. A gota d’água foi no Rock in Rio de 2011, quando eles atrasaram mais de 2h para entrar no palco em uma apresentação desastrosa. ~Meu Guns~ havia se tornado um cover de si mesmo.

Corta para 2017, mais precisamente na madrugada de sábado para domingo, entre uma zapeada e outra pela TV, acabei encontrando a transmissão ao vivo do show do Guns N’ Roses no Rock in Rio e, já sabendo que iria ver o show deles na mesma semana em São Paulo, resolvi deixar para saber o que me esperava no Allianz Parque. Mesmo batendo uma boa saudade, Axl aparentemente mantinha seus problemas com a voz, mas aparentava estar muito mais à vontade no palco do que sua última passagem pelo festival. Claro, agora ele tem Duff e Slash de volta, o que claramente significa uma divisão equalizada das responsabilidades no palco.

Três dias depois, lá estava eu, no estádio do Palmeiras, próximo ao palco, para conferir o trio no festival São Paulo Trip. Depois de uma apresentação mais que enérgica e teatral de Alice Cooper (esse eu fiz questão de ver no festival pela TV e já sabia o que estava por vir, uma pena Arthur Brown não ter aparecido novamente), a banda liderada pelo trio Axl, Slash e Duff entrou no palco com 15 minutos de atraso, com “It’s so Easy”, “Mr. Brownstone” e “Chinese Democracy”.

Esperar ver o Guns do início dos anos 90 no palco é pedir para se decepcionar, ao menos na sonoridade. Se por um lado Slash e Duff se mostram em forma, o mesmo não pode ser dito sobre Axl. O cantor se esforça, mas é muito claro que nem ele mesmo possui controle de sua voz, que oscila muito, ora muito semelhante com seus tempos áureos, como em “Welcome To The Jungle” e “You Could Be Mine”, ora como um cantor cover de si mesmo, como em “Rocket Queen” e “This I Love”.

Mesmo assim, se por um lado ele desliza na voz, por outro ele consegue conduzir um show de 3h30 com muita solidez. Axl Rose é um showman, um dos maiores fronts da história e sabe disso, usa toda a sua força para entregar uma performance enérgica e que contagia o público, correndo pra lá e pra cá entre um tchauzinho e outro pro público. Rolou até uma benção a um casal no fim do show. Ele não fala muito, mas parece estar muito mais à vontade, mais leve e com menos responsabilidade, já que quando ele se ausenta do palco, Duff e Slash fazem o trabalho e não deixam o público perder o ritmo. Não é pra menos, afinal, não é todo dia que se vê um dos maiores guitarristas da história dedilhando seus solos e tocando a trilha de “O Poderoso Chefão”, como de praxe, em um dos grandes momentos do guitarrista na noite.

E foi justamente quando o show parecia estar esfriando, que se iniciou aquele que seria um dos grandes picos: o solo de “Sweet Child O’ Mine”, em que o estádio, praticamente lotado, entoou o refrão com todas as forças. O público sabia que, depois de uma hora meia de show, faltavam ainda pelo menos mais uma hora e meia para o fim, mas não perdeu o pique, muito por conta da banda, que não deixou isso acontecer. Se não era Axl, era Slash, se não era Slash, era Duff e assim seguiu até o final, apoteótico, por assim dizer, com “Used To Love Her”, “November Rain”, “Knockin’ On Heaven’s Door”, “Nightrain”, “Don’t Cry”, “Patience” e “Paradise City”.

No fim das contas, aquela que deveria ser uma experiência morna, se tornou uma das mais memoráveis. Além de pagar uma dívida afetiva ao garoto de 14 anos, que ouvia uma das maiores bandas do mundo sem parar, foi também o dia do homem de 25 anos fazer as pazes com essa banda, que decepcionou tempos atrás, mas conseguiu mostrar, generosamente por três horas, que ainda há alguma lenha pra queimar. Que bom que deu tempo de fazer tudo isso em uma vida só.

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Vinicius Machado: Jornalista por opção, escritor por teimosia e apaixonado por música e cinema, principalmente quando essas duas artes se juntam. Além de escrever para o Nação da Música desde 2013, possui um blog de resenhas de filmes. É frequentador assíduo de shows e festivais. Já viu ícones como Bob Dylan, Roger Waters, U2 e Paul McCartney e só pretende largar essa vida depois que assistir aos Rolling Stones ao vivo.

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