
Gilberto Gil subiu ao Palco Mundo do Rock in Rio 2026 nesta segunda-feira (7) carregando mais de quatro décadas de história com o festival. Em sua sexta participação no evento, o cantor revisitou diferentes momentos de sua carreira, homenageou Rita Lee e Cazuza e aproveitou a estrutura do novo palco para transformar algumas das canções mais conhecidas de seu repertório em experiências visuais.
A apresentação também ganhou um tom de possível despedida. Ao lembrar sua primeira passagem pelo festival, em 1985, Gilberto Gil levantou a possibilidade dessa ser sua última participação no Rock in Rio.
“Mais um Rock in Rio. Eu estive aqui no primeiro… Era aqui ao lado. E depois vários outros, e agora aqui. Talvez quem sabe seja o último que eu venha. Vamos ver. Vamos ver… tenho que descansar um pouquinho”, disse o músico.
A fala provocou uma reação imediata do público, que respondeu com um afetuoso “não” à possibilidade de não voltar a encontrá-lo no palco do festival. Aos 84 anos, Gil encerrou em 2026 a turnê “Tempo Rei”, criada como uma celebração de sua trajetória, e tem sinalizado uma redução no ritmo de apresentações.
O show começou com “Cérebro Eletrônico” e “Pela Internet”, duas músicas que, separadas por décadas, ajudaram a estabelecer desde cedo uma das características mais marcantes da obra de Gil: a capacidade de observar o presente e incorporá-lo à sua música.
A sequência trouxe “Andar com Fé” e “Toda Menina Baiana”, antes de Gil ampliar ainda mais o alcance do repertório com “Rebel Music”, de Bob Marley, e “Vamos Fugir”. A apresentação seguiu transitando por diferentes momentos de sua carreira, passando por “Realce”, “Palco” e “Super-Homem – A Canção”.
O repertório não ficou preso aos grandes sucessos. Gil também abriu espaço para encontros com outros compositores e artistas que atravessaram sua trajetória. “Esperando na Janela”, “Maracatu Atômico” e “Divino, Maravilhoso” ajudaram a construir uma apresentação que passeou pela MPB, reggae, rock, tropicalismo e ritmos brasileiros sem perder a identidade do cantor.
Um dos momentos mais simbólicos aconteceu quando o cantor baiano apresentou “Ovelha Negra”, de Rita Lee. A escolha carregava um significado especial pela amizade entre os dois artistas. Rita Lee foi uma das figuras fundamentais do rock brasileiro e também esteve entre os nomes que se apresentaram na primeira edição do Rock in Rio. Ao colocar sua canção no repertório, Gil trouxe para o Palco Mundo a lembrança de uma artista que ajudou a transformar a música brasileira.
Se “Ovelha Negra” estabeleceu uma conexão afetiva com Rita Lee, “Pro Dia Nascer Feliz” aproximou ainda mais o show de Gilberto Gil da história do festival.
A música, composta por Cazuza e Frejat e lançada pelo Barão Vermelho, foi apresentada por Gil como uma homenagem ao rock brasileiro e a um dos momentos mais emblemáticos da primeira edição do festival.
Em 1985, Cazuza cantou “Pro Dia Nascer Feliz” no dia anterior à eleição de Tancredo Neves como presidente, em um momento que simbolizava a transição do país para a democracia. Durante a apresentação, o então vocalista do Barão Vermelho se enrolou em uma bandeira do Brasil e transformou a música em uma das imagens mais lembradas daquela edição.
Mais de 40 anos depois, Gilberto Gil resgatou a canção diante de uma nova geração de público do festival. A escolha também dialogou diretamente com a edição de 2026. No domingo (6), o Barão Vermelho havia retornado ao Palco Mundo para uma apresentação especial com a formação original e prestado uma homenagem a Cazuza.
Se o repertório já carregava décadas de história, o aspecto visual ajudou a levar a apresentação para outro lugar.
Gil aproveitou o novo LED do Palco Mundo em sua totalidade. O telão deixou de funcionar apenas como pano de fundo e passou a acompanhar a personalidade do artista, exibindo imagens em que ele aparece fazendo caras e bocas, mudando de pose brincando com sua própria representação.
A escolha combinou especialmente com a postura de Gil durante a apresentação. Aos poucos, o cantor transformou o espaço gigantesco do Palco Mundo em uma extensão de sua presença cênica, sem precisar recorrer a uma produção excessivamente carregada.
O resultado ficou ainda mais evidente em “Aquele Abraço”. Enquanto Gil cantava um dos maiores clássicos de sua carreira, o telão simulava o artista dando um abraço no público. A imagem transformou a distância entre o palco e a plateia em uma espécie de gesto físico, criando um dos momentos mais bonitos da noite.
A apresentação terminou com “Funk-se Quem Puder” e “Atrás do Trio Elétrico”, encerrando uma noite construída a partir de encontros entre passado e presente.
Ao longo de cerca de uma hora e dez minutos, Gilberto Gil passou por diferentes fases de sua carreira, revisitou referências importantes da música brasileira e ainda encontrou espaço para dialogar com a história do próprio festival.
Depois de seis participações no Rock in Rio e de uma trajetória que atravessa a música brasileira há décadas, Gilberto Gil deixou no Palco Mundo uma apresentação que poderia ser despedida, reencontro ou simplesmente mais um capítulo da história da música.
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