Resenha: “Cracker Island” (Deluxe) – Gorillaz (2023)

gorillaz cracker island 2
Reprodução

Nos últimos tempos, as ideias de metaverso e inteligência artificial têm sido cada vez mais pautadas na sociedade. Mas se enquanto grandes empresas e big techs voltam os olhos para formas de ampliar a realidade virtual por meio de experiências mais imersivas, o conceito que já é velha prática do Gorillaz ganhou um novo significado com o lançamento de seu álbum inédito “Cracker Island”, divulgado nesta sexta-feira (24) em todas as plataformas digitais.

Diferentemente do anterior “Song Machine, Season One: Strange Timez” (2020) e do EP “Meanwhile” (2021), “Cracker Island” mantém a essência do eletrônico e rock alternativo que caracteriza o som do Gorillaz ao longo de seus 25 anos de carreira, ao mesmo tempo que explora referências de algumas das sonoridades mais marcantes da história da música, passando pelas cenas funk, synthpop, hip hop e até mesmo o reggaeton.

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O disco abre com “Cracker Island”, primeiro single do projeto lançado em junho do ano passado em parceria com Thundercat. Acompanhada de um clipe oficial igualmente psicodélico, a faixa é, ao meu ver, o melhor cartão de visitas para a experiência proposta no disco homônimo. Com uma batida cativante e clara influência na cena funk norte-americana dos anos 70, a melodia é marcada essencialmente pelo uso de sintetizadores, que guiam ainda a cadência dos arranjos de guitarra e o contraste entre os timbres de Damon Albarn e Thundercat.

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Desacelerando o ritmo dançante, “Oil” direciona os sintetizadores para a atmosfera do pop rock dos anos 80, dando um ar mais experimental aos suaves riffs de guitarra que tornam magnetizantes os momentos do dueto de Albarn com Stevie Nicks. Não apenas pela coerência de uma composição aparentemente simples, a faixa é um dos grandes destaques para mim por mostrar a versatilidade do Gorillaz numa balada, sem perder sua essência.

“The Tired Influencer” é a primeira faixa do álbum a explorar um lado mais sensorial da banda ao pé da letra, com arranjos que podem se assemelhar à sensação de “fundo do mar”, criada pela combinação psicodélica dos sintetizadores, slides de guitarra e um som que se assemelha às notas mais agudas de um xilofone. Toda essa construção é importante para trazer na sequência a já conhecida “Silent Running”, em parceria com Adeleye Omotayo. Mantendo a sonoridade dos xilofones, a melodia retoma o synth-pop das baladas dos anos 80 (presentes por exemplo no som do Depeche Mode), sendo marcada também por um assobio. Os versos “Parece que eu estava correndo silenciosamente / Através de infinitas páginas, eu deslizo / Procurando por um novo mundo / o desperdício do pôr do sol” ganham ainda uma representação literal na história ilustrada no clipe oficial.

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Seguindo para uma onda mais groove, “New Gold” traz um alerta para uma das faixas talvez mais versáteis de “Cracker Island”. Tanto que, após os primeiros segundos semelhantes à música de abertura da série “Stranger Things”, a parceria com Tame Impala e Bootie Brown traz os sintetizadores imitando o som de uma sirene, destacando a combinação entre o característico rock psicodélico da banda liderada por Kevin Parker e o lado hip hop do Gorillaz.

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Baseada em fatos, “Baby Queen” é uma espécie de homenagem de Dalton Albarn à uma princesa tailandesa que assistiu a um dos shows de sua banda Blur em 1997 – empolgando-se inclusive durante o hit “Song 2”. Como o próprio relata a aparição da princesa em seus sonhos, imaginando como ela estaria hoje em dia passados todos esses anos, a ideia de subconsciente é retratada ainda na balada pela sequência de notas alternadas dos sintetizadores. Tal imaginário ganha uma versão mais lúdica em “Tarantula”, cujos arranjos remetem aos efeitos dos videogames e fliperamas dos anos 80. No entanto, a fantasia aqui representada encobre uma canção de amor mais emotiva do que otimista, apesar do que sugerem os acordes de piano que a encerram.

Ajustando-se ao estilo de Bad Bunny, a parceria com o cantor em “Tormenta” é uma das faixas mais distintas por trazer elementos mais latinos além dos versos em espanhol cantados pelo rapper, que variam do trap para o melódico, e uma sensação até mesmo mais “tropical” na base criada pelos sintetizadores e pelo refrão que ecoa na voz de Albarn. Apesar da introdução mais acústica, os arranjos de “Skinny Ape” propõem em seus quase 5 minutos uma experiência bastante imersiva no rock psicodélico do Gorillaz através das variações progressivas de ritmo e, novamente, dos sintetizadores, que cumprem de forma marcante o papel de baixo no decorrer da música.

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Encerrando o álbum de forma mais serena, a última “Possession Island” é marcada essencialmente por uma cadência bastante melódica de piano tocada pelo compositor e multi-instrumentista Beck, o que torna o timbre do vocalista do Gorillaz mais aveludado de certa forma, mesmo quando é seguido por trompetes no estilo mariachi nos segundos finais.

Faixas extras da versão deluxe

Se as 10 faixas originais de “Cracker Island” são marcadas pelos sintetizadores nos mais variados estilos, o mesmo não ocorre nas cinco faixas bônus que integrarão sua versão deluxe (ainda sem previsão de lançamento), e que foram ouvidas com exclusividade pelo Nação da Música. A começar pela dançante “Captain Chicken”, que com menos de 2 minutos de duração, traz numa espécie de interlude para o lado B do disco as referências iniciais à cena funk somadas ao rap de Del The Funky Homosapien, com o adicional de sons de galinha.

A seguinte “Controllah” é, ao meu ver, uma das melhores surpresas das novas músicas. Não apenas pelo fato de ser a aguardada colaboração do Gorillaz com MC Bin Laden, feita durante a passagem da banda pelo Brasil no ano passado, mas principalmente por misturar com excelência o lado mais experimental do grupo à versão rapper de Bin Laden, que canta a música toda em português numa sonoridade semelhante a algumas músicas do Racionais MC’s, com uma referência ao icônico refrão de “Shake It Bololo”.

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Última inédita do disco, “Crocadillaz” pode ser descrita como “um pouco de hip hop; um pouco de reggae”, respectivamente graças às participações do grupo De La Soul e à cantora jamaicana Dawn Penn, que se destaca especialmente por trazer um pouco mais de melodia junto da base instrumental marcada pelo som de xilofones. Por fim, se enquanto “Silent Running” ganha uma versão acústica exclusivamente no piano, que dá um tom mais dramático aos vocais de Damon Albarn, “New Gold” transforma-se num remix feito pelo produtor Dom Dolla, encerrando com um beat eletrônico o novo trabalho do Gorillaz da melhor forma: no auge.

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Natália Barão
Natália Barão
Jornalista, apaixonada por música, escorpiana, meio bossa nova e rock'n'roll com aquele je ne sais quoi
Mantendo o eletrônico e o rock psicodélico que caracterizam o som do Gorillaz, "Cracker Island" explora as diferentes cenas da história da música por meio de sintetizadores e parcerias com seus grandes representantesResenha: “Cracker Island” (Deluxe) - Gorillaz (2023)