Gus & Vic
Foto: Mateus Aguiar

A história de Gus & Vic não poderia ter começado em um lugar melhor: um karaokê no Rio de Janeiro ao som de Backstreet Boys. Como uma espécie de conto de fadas da pós-modernidade, em pouco tempo a dupla se apaixonou, casou e começou a trilhar uma carreira musical juntos.

Com dois anos de parceria, Gustavo Scanferla e Victória Cosato marcam presença na cena independente carioca e já realizaram diversas apresentações entre RJ e SP, além de dois shows acústicos em Nova York.

O álbum de estreia da dupla foi lançado recentemente, em 6 de abril. Com 12 faixas que misturam rock, blues e pop com outros gêneros musicais, “Savana” alcançou mais de 10 mil plays nas plataformas de streaming em apenas três dias.

Com muita simpatia, Gus e Vic conversaram por telefone com a Nação da Música e falaram sobre “Savana”, o processo criativo na hora de compor e seu querido cachorro Jorge, estrela do clipe de “Noite”.

Entrevista feita por Gabriela Cavalheiro.

————————————————————————————————————— Leia na íntegra

Vamos começar falando sobre a forma como vocês se conheceram. Foi em um karaokê, no Rio de Janeiro, não é? Me contem melhor essa história.
Vic:
Então, foi em 2013. Na verdade, a gente tava no aniversário de um amigo em comum e de última o Gustavo decidiu ir. Quando eu cheguei, esse nosso amigo apresentou a gente, e por acaso tava na minha hora já de cantar no karaokê, aí chamaram o meu nome. Eu ia cantar Backstreet Boys e aí eu falei “meu deus, preciso de alguém pra cantar comigo!” E aí eu chamei o Gustavo, tava apresentando ele ali na hora e eu perguntei “então, já que você chegou agora, vamos ali cantar um Backstreet Boyszinho?” e aí ele falou “claaaro, sei tudo de Backstreeet Boys”. Mentira, ele não sabia nada [risos]. E aí a gente cantou “I Want It That Way”, não tenho certeza se foi muito legal porque não dava pra se ouvir direito lá, mas foi realmente divertido. Depois um amigo meu quebrou a perna e eu tive que ir embora.

O teu amigo quebrou a perna no karaokê??
Vic:
Logo depois que a gente cantou, um amigo meu quebrou a perna e eu fui embora. Foi todo mundo dar um help pra ele e eu e o Gustavo, a gente se desencontrou. E eu só fui encontrar ele de novo um tempo depois.

E o resto é história [risos].
Vic:
Mais ou menos um mês depois disso a gente se encontrou. Por acaso, foi no lugar onde a gente vai fazer o nosso show de lançamento do “Savana”, que é no Solar do Botafogo, que é um teatro aqui no Rio. Desde então a gente começou a namorar, a gente casou, a gente hoje em dia tá casado vai fazer dois anos e temos um lindo filho cachorro [risos].

Eu até queria falar sobre isso! Eu assisti o clipe de “Noite”, que ficou muito legal, mas o que eu mais preciso saber é: quem é aquele cachorro? [risos]
Vic:
É o nosso filho, o Jorge! Melhor cachorro do mundo! A gente teve que gravar nove vezes porque foi plano sequência, então a gente gravou nove vezes e das nove vezes o único ator que fez tudo certo foi ele. As cenas foram: ele comigo na cama, depois ele levanta… E pra um cachorro acaba sendo fácil de coordenar porque a gente tá ali e aí outra pessoa chama ele por detrás da câmera e ele vai… Depois ele aparece novamente na sala, a gente chamou ele. E no final do clipe aí ele já veio por conta própria, ele foi andando em direção à câmera e todo mundo ficou chocado.

Ele geralmente gosta de ver vocês tocando?
Vic:
Sim! Sempre que gente toca em lugar aberto, a gente leva ele também e ele se amarra, ele adora. Teve um show que a gente fez que durante “Open Door”, que é uma música que tem vários agudos e é o ponto alto do show, ele começou a latir junto. Foi muito engraçado, porque ele começou quase a uivar junto com a música. Acho que ele curte bastante.

Gus: Quando a gente tá tocando aqui em casa, se ele não estiver perto na hora, ele vem imediatamente, pra ficar bem pertinho e ficar ouvindo.

Que amor! Bom, agora voltando à história do karaokê: vocês já cantavam antes disso ou eram só cantores de chuveiro mesmo?
Gus:
Antes desse karaokê e até um pouquinho de tempo depois, eu tinha uma outra banda só que ainda não era nada muito a sério. Não tinha nenhum tipo de profissionalismo, era mais uma coisa amadora mesmo e ia bem devagar. Foi só quando a gente [Gus & Vic] começou que as coisas começaram a acontecer e a ser levadas com mais velocidade, mais seriedade, acreditando mais também. Já o caso da Vic, ela era de chuveiro mesmo. Até dois anos atrás quando a gente lançou o nosso primeiro vídeo tocando e cantando, pouca gente ainda sabia que ela cantava, né?

Vic: Eu fiz coral na escola durante dois ou três anos, mas era uma escola pequena, então não era uma coisa profissional, não tinha aula muito teórica… Mas o meu pai, ele é compositor e ele sempre estimulou isso em mim. Ele não trabalha com música, mas ele tem várias composições, inclusive “Aldebarã”, que é uma das faixas do disco, foi ele que escreveu. Então eu sempre tive esse lado muito escorado, eu sempre gostei muito de cantar pra mim.

Hoje em dia, já tem mais ou menos um ano e meio que a gente tá 100% lidando com a banda. Eu sou designer, sou publicitária de formação, trabalho com design e o Gustavo, ele também se formou publicitário, mas ele trabalha como programador. Mas a gente já vem há mais de um ano focados na nossa carreira [musical] porque é o que a gente descobriu que é o que faz a gente feliz mesmo. E sem dúvida, até agora nesse processo de lançamento do álbum, é algo que consome bastante do nosso tempo e é a melhor maneira possível que a gente enxerga de passar os nossos dias, as nossas vidas. Hoje em dia, esse é com certeza o nosso grande estímulo.

Aproveitando que vocês citaram “Aldebarã”, eu quero saber como foi esse processo de recuperar a faixa e regravar algo de alguém que é tão próximo a vocês?
Vic:
Quando a gente decidiu gravar o CD, “Aldebarã” foi uma das primeiras canções que a gente quis trazer pra ele porque a gente ama a música e meu pai nunca tinha lançado. Ele compôs essa canção em 81, ele chegou a ganhar alguns festivais naquela época, que tinha bastantes festivais independentes – sem a internet, era a melhor maneira pra divulgar. Ele chegou até ganhar festivais com ela, mas ele nunca fechou um contrato com uma gravadora e hoje em dia, pra ser independente, tem muito mais possibilidades de você produzir o seu conteúdo e de colocar ele no mundo. Então a gente quis trazer “Aldebarã” pro álbum.

Pra gravação, foi muito mágico porque a gente pode contar com um estúdio incrível. Se você prestar atenção, “Aldebarã” é uma canção que tem metais, que tem violino, tem um arranjo super bonito, então a gente teve a sensibilidade de todos os músicos na hora de fechar o arranjo também. Meu pai, na primeira vez que ele ouviu, ele ficou super emocionado. Ele não tava acreditando que a música dele tinha realmente ganhado proporções de ter praticamente uma orquestra, porque ela ficou bem com um espírito que eu acho que recupera essa questão da nostalgia, da memória.

Gus: É uma música que estava sempre presente na nossa vida. Pelo menos ali no núcleo familiar da Vic, na minha vida também depois que eu comecei a namorar com ela.

Legal isso! Aposto que o teu pai deve ter ficado bem orgulhoso, Vic.
Vic:
Ah, ele ficou! E desde que a gente lançou “Aldebarã”, ela já tocou em algumas rádios, inclusive algumas rádios fora do país e ele tem alguns amigos que são músicos, dai ele fez numa viagem no começo do ano à Nashville (EUA) e mostrou a música pra todo mundo. Ele é muito orgulhoso [risos]. Acho que principalmente também por eu estar interpretando, então pra ele é realmente muito especial.

Falando em Nashville, eu vi que vocês fizeram algumas apresentações em Nova York em dezembro de 2017.
Vic: Sim, sim! Foi ótimo.

Como foi essa experiência? Conte-nos um pouquinho.
Vic:
Em novembro do ano passado, a gente já tinha finalizado a gravação do CD e a gente foi passar um mês em Nova York. Antes de ir, a gente entrou em contato com algumas pessoas que a gente já tinha trabalhado, como por exemplo o Mario Caldato, que fez a mixagem do nosso primeiro lançamento, que foi “Open Door”, e a gente falou “Mário, vamos passar um tempo aí em Nova York, você indica um lugar bacana para onde a gente pode mandar o nosso trabalho?” e foi assim que a gente fez, a gente entrou em contato com o Nublu.

E depois, existe um site que qualquer artista de qualquer lugar do mundo pode se inscrever e aplicar seu trabalho pra casas de show por toda parte. É uma dica bem bacana pro pessoal que lê a Nação da Música. É uma plataforma que você se cadastra, as casas de show fazem editais e você se aplicar com o seu material. Aí eu fiz isso e assim a gente conseguiu um outro show que foi no Lovecraft, em Manhattan. É uma ferramenta muito legal e eu recomendo. No nosso caso, como nós somos dois, a gente tem essa facilidade de não precisar mover a banda inteira pra fazer uma apresentação. Apesar de ficar com uma outra proposta, a gente tem esse formato acústico que é só nós dois e um violão e acabou.

As estruturas dos lugares são muito bacanas, todos os lugares com técnico de som. Muitas vezes no cenário independente aqui no Rio, eu vejo que muitas casas, pra ter esse tipo de evento, esse tipo de iniciativa, dificilmente já tem um técnico de som ou uma pessoa pronta pra atender. Então a gente sentiu uma diferença grande lá de já chegar e poder se organizar certinho. O pessoal respeita bastante os artistas, tanto quem tá assistindo quanto a própria casa. Foi muito, muito incrível e é uma recomendação que a gente até dá pro pessoal que é artista solo com uma viagem marcada pro exterior. É bem bacana!

Legal! Agora falando sobre o “Savana”, que foi lançado há pouquinho tempo. Em primeiro lugar, parabéns pelo álbum. Como tem sido a reação do público?
Vic:
Olha, tá sendo muito maior do que o esperado. Como a gente já tinha lançado oito faixas do álbum, são quatro inéditas, a gente ficou pensando que as pessoas já conhecem algumas, então talvez não tenha uma repercussão tão grande… E em três dias, o nosso álbum já teve mais de 10 mil plays no Spotify. No Deezer também teve quase isso. A gente tá muito encantado com a recepção e a gente tem recebido muita mensagem, muitos e-mails de pessoas que nunca tinham falado com a gente ou dado um feedback sobre o nosso trabalho.

Eu acho que ter um álbum, um artista lançar esse tipo de trabalho, é sem dúvida uma chancela de que você consolidou um diálogo e eu acredito que o álbum é um diálogo que tem início, meio e início novamente porque é uma forma de arte que não tem fim. Aquele álbum vai te acompanhar pra sempre. Todos os álbuns que eu ouvi com certeza fazem parte da minha vida hoje. Então eu acho que é importante criar esse diálogo com os nossos fãs e com as novas pessoas. Tem chegado gente pra caramba mandando mensagem!

Gus: A gente notou que é uma sensação, uma experiência bem diferente ouvir as 12 músicas direto do que ouvir cada uma separadamente, em momentos diferentes. Ouvir na ordem que a gente colocou lá é algo bem diferente até pra gente que fez e ouviu as músicas milhares de vezes. Já é quase como que se transformassem as músicas em inéditas até mesmo pra gente. Mesmo sendo músicas que já lançaram, acho que torna elas diferentes de alguma forma.

Uma coisa que me chamou muita atenção ao ouvir o “Savana” é que vocês flutuam sobre muitos gêneros musicais. Tem músicas que tem uma vibe muito rock’n’roll, muito pop anos 80, algumas coisas que flertam com blues, mpb… O que vocês usam como referência na hora de compor?
Gus:
A gente meio que separa da seguinte forma: tem hora de compor, que é no caso a melodia mais básica, bem a dedo e tudo mais; e a hora que pode vir logo em seguida ou um tempo depois, que é a hora de produzir que é onde se dá a roupagem e a cara da música. Então a composição ainda é mais crua, e um minuto depois ou um mês depois pode vir a produção. E aí na produção, a gente vê qual vai ser o estilo da música, qual mensagem que ela vai passar no sentido sonoro, se é mais agitado, se é mais calmo, se é pesado, se é leve, se é mais espacial ou se é mais pra parecer que a pessoa está aí do seu lado cantando.

Então o que dita isso, que é a pergunta em sim, qual referência seria, a gente tenta meio que digamos ouvir a música, ver aonde a melodia e a emoção da música leva a gente. Geralmente remete a gente à algum ambiente, seja um campo aberto ou dentro de casa ou numa viagem, um trem, um cavalo, alguma coisa assim. A partir daí, desse lugar que a música leva, já vem o clima do som também. Se é mais um pop ou uma guitarra distorcida, se é uma coisa mais eletrônica dançante ou se é uma coisa mais nostálgica. Então meio que essa sequência de fatos é o que leva ao gênero e a variação de gênero, porque cada música pede uma coisa. A “Noite” pede uma coisa mais intimista, então todo o som dela é mais próximo. Tem outra que é “We Know” que é uma coisa mais de campo aberto, então já tem mais teto, som, instrumentos mais orquestrais porque a gente pensou ela de uma forma diferente, em um ambiente diferente.

Entendi. E por que escrever músicas em inglês?
Vic:
Nós dois compomos, eu tenho composições tanto em português, quanto inglês. O Gustavo também. Eu entendo que cada música, cada composição, cada história, ela tem uma personalidade própria e eu sinto que a gente consegue abordar lados diferentes trazendo essa diferença linguística também. Mas não é uma coisa proposital ou pensada tipo “hoje a gente vai escrever uma canção em português ou vai escrever uma canção em inglês”, é realmente mais instintivo dependendo do assunto que a gente quer abordar, do que a gente quer tratar. E eu sinto que a língua não é um impeditivo pro sentimento que a música imprime, ela não é um elemento definitivo. Eu acho que realmente tem essa questão da energia, da história das canções. Eu acho que isso independe do idioma e cada uma pede um vocabulário. A gente quer trazer mais por aí.

Gus: Acho que um pouco também tem a ver com a questão da produção de gênero.  Acaba que, como muda a língua, muda também a produção, a sonoridade, como é que vai soar mesmo. As palavras são diferentes e tem entonações diferentes, com sílabas tônicas diferentes.

Vic: Eu levo a língua muito como uma plataforma e as línguas, elas têm um peso fonético e de simbolismos. Eu tenho composições em outras línguas também, então eu acho que é bem um elemento que flutua dentro do nosso trabalho.

Agora que o disco já tá na rua, quais são os planos de vocês para 2018?
Vic:
Então, agora a gente está se preparando pro nosso show de lançamento do “Savana”, que vai ser no Solar de Botafogo, aqui no Rio, dia 5 de maio. Vai ser eu, o Gustavo e mais dez integrantes, então vai ser uma big band enorme que é pra reproduzir os sons do álbum em integridade, porque a gente sente que para esse lançamento é importante ter todos juntos no palco. Fora isso, a gente vai lançar outro clipe esse mês, que é o clipe de “Follow The Sky”, que é a nossa música de lançamento do álbum, e a gente vai começar a fazer também uma turnê que podemos passar informações pra vocês em breve.

Pra finalizar, vocês gostariam de mandar um recado para os leitores do Nação da Música?
Vic:
Sim, claro! A gente sempre fala que o mais importante é começar a fazer um trabalho. Se a gente tiver disponibilidade de dar qualquer tipo de dica pra qualquer pessoa, seria: você já tem tudo o que você precisa pra fazer o que você quer.

Gus: Seja com música ou qualquer outro tipo de projeto.

Vic: É, não adianta esperar o momento perfeito, a hora perfeita, ou que o trabalho fique impecável. Você precisa só começar. Eu acho que isso é o mais importante porque depois vai ter tanta coisa a fazer, tantos obstáculos, que se você colocar o próprio começo como um obstáculo, você não vai poder levar tudo adiante. Se alguém te colocar pra baixo, não vai nessa, vai em frente porque isso é o mais importante.

O show de estreia de “Savana” acontece no Solar De Botafogo, no Rio de Janeiro, em 5 de maio, às 21h. Ingressos podem ser comprados no site.

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