ABRONCA
Divulgação por Fernando Schlaepfer

Apesar de jovens, Alice, Jennifer e Mariana – ou melhor: Slick, May e Jay – sabem muito bem o que querem. As três jovens naturais do Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro, chegaram quebrando tudo e já marcam presença no rap nacional.

O grupo começou a carreira ainda na adolescência e fez um sucesso enorme em 2014 quando ainda usavam o nome de Pearls Negras. O trio chegou a realizar turnês pela Europa e participar do festival Glastonbury, em 2015.

Após um hiato, o grupo retorna à música com nome e sonoridade diferente. Agora, as Pearls Negras são ABRONCA, grupo de rap feminino com rima sagaz e que vem tomando de assalto o rap nacional.

Slick, May e Jay, juntamente com DJ Allan, toparam dar entrevista por telefone ao Nação da Música, e falaram sobre o hiato, a renovação da carreira como ABRONCA, refletiram sobre o sucesso internacional e de quebra contaram o que podemos esperar do álbum de estreia que não tem previsão de lançamento, mas pode ser lançado ainda este ano.

Entrevista feita por Gabriela Cavalheiro.

————————————————————————————————————— Leia na íntegra

Bom, vamos começar falando sobre o Pearls Negras. Vocês fizeram um sucesso enorme, viralizaram na internet, fizeram shows pela Europa e tudo mais. O que mudou na vida de vocês depois que o grupo bombou internacionalmente?
Slick:
Muito, sabe? Ajudou muito nos palcos, nos shows. Eu acho que a gente cresceu muito musicalmente, porque a gente pode conhecer coisas novas, lugares novos, e eu acho que isso acresceu a nossa visão do grupo profissionalmente. Foi muito legal porque nessa época – e até agora, infelizmente – a gente não sabia falar inglês, então a gente se comunicava com as pessoas oralmente, pela energia, pulando.

A gente passava muita energia de cada som pra eles. Música de amor, a gente mostrava ao máximo que a gente estava apaixonadas, love. E nas músicas pesadas, a gente mostrava o corpo bem duro, bem forte, pra gente poder sentir cada sentimento da música. Então isso nos ajudou muito hoje em dia, acho que a turnê internacional ajudou muito profissionalmente no grupo.

Legal! E por onde vocês passaram nessa turnê na Europa?
Slick:
A gente pôde conhecer metade da Europa. Eu digo que a gente fez duas turnês e não consigo decorar os nomes dos lugares todos [risos].

Jay: Foi Portugal, França, Suécia, Barcelona, Eslováquia… Foram muito lugares! Teve também um festival que a gente fez show que foi o Glastonbury, que é um festival grande e a gente participou.

Slick: Dividimos o palco com o Kanye West, que foi muito legal, né? Foi muito bom.

Jay: Tinha muita gente maneira lá, muita gente de nome.

Que demais isso! Como foi levar a voz do Vidigal pro resto do mundo?
Jay:
Foi incrível, porque a gente nunca imaginou que ia sair pra fora do Brasil, sabe? A gente achou que primeiro íamos fazer uma turnê no Brasil pra depois a gente sair do Brasil. Então foi muito louco pra nossa cabeça porque nós éramos muito novas, a gente só tinha uns 16 anos, então foi muito repentino. Acho que a fama no começo foi muito repentina pra gente.

Isso tudo rolou em 2015, né? Depois vocês entraram em hiato. Por que rolou esse hiato?
Jay:
Então, é porque a gente acabou tendo alguns problemas pessoais no grupo e aí a gente teve que terminar e ficamos nessa crise de continuar com o nosso sonho ou ter que parar com isso. A gente ficou nisso um ano, tentando trocar de nome, pensando em outras possibilidades porque é muito difícil ser um artista independente, ainda mais depois de ter passado por tudo isso que a gente passou e ter conquistado muitas coisas interessantes, foi difícil ser independente e foi muito “pra onde que a gente vai agora?”.

E daí o nosso DJ Allan nos apoiou e nos manteve juntas, nos manteve unidas e com a vontade de permanecer juntas nessa busca de nomes novos e como continuar até que a gente conseguiu ir pra frente, ficamos com o nome Diamond Gang e aí no meio disso encontramos a Ana e a Isaura com a Ubuntu Produções e foi junto com eles e a Relâmpago que a gente sentou e escolheu um nome melhor pro grupo. E aí surgiu o ABRONCA e desde então o grupo seguiu com eles. Graças à Deus a gente pode ter essas pessoas maravilhosas que entraram nas nossas vidas pra nos ajudar, nos reerguer novamente.

Que ótimo saber disso! Como foi voltar como ABRONCA? Como tem sido a recepção do público?
Slick:
Muito boa porque a galera tá apoiando muito. Tem muita gente que sente saudades do Pearls Negras, mas tá pegando e apoiando, e a gente vai fazer um pouco de tudo. Vai ter vibe um pouco mais Pearls Negras, vai ter vibe um pouco mais maduras porque a gente cresceu muito – não como idade, mas como escrita. Tinha que mudar, sabe? A letra, colocar um pouco mais de conteúdo também. Então a gente tá começando agora a focar em um álbum, em letras novas, em videoclipe, pra poder mostrar à galera essa mudança.

Mas eu acho que não mudou muita coisa. A origem, a força, a energia nos palcos das Pearls Negras continua. O que mudou mesmo foi pra crescer, pra melhorar pra vocês, com qualidade, com tudo pra poder ter uma coisa nova. Acho que esse novo foi essencial pra gente e vocês vão ter muita novidade, muita coisa boa que vai vir de ABRONCA agora.

May: A galera também tá se identificando novamente. Na real, o pessoal achou e algumas pessoas ainda acham que acabou [o Pearls Negras]. Então quando a galera vê que nós viramos ABRONCA, todo mundo fala “caraca, eram as ex-Pearls Negras, são essas meninas mesmo, são elas”. A galera tava achando que o grupo acabou e agora estão vendo o nosso retorno e isso tá sendo muito importante porque nos fortifica demais.

Que bom que a Slick falou isso sobre as Pearls terem crescido, porque eu senti muito isso vendo os clipes de vocês. Vocês tão super cheias de atitudes e estão também bem com uma consciência política.
Slick:
Sim, sim.

May: Não, mas isso a gente sempre teve. É que a gente nunca teve oportunidade de mostrar porque a gente era muito virada ao pop e a maioria dos nossos clipes como Pearls Negras foi pro lado pop, mas sempre nos nossos shows, a gente cantou protesto.

Slick: É, sempre teve, sempre foi a nossa origem. Na verdade, no início do grupo a gente só cantava protesto, mano. Foram músicas muito sérias pra depois surgir a “Pensando em Você”, que foi a que a gente lançou. Mas desde sempre, a gente teve essa parte da política bem à flor da pele.

Quem também nos trouxe esse olhar, essa sabedoria desse lado mais político foi o pai da Mariana, a May. Ele sempre nos passou isso, que a gente tem que curtir, fazer umas músicas de amor, mas sem perder aquela verdade ali do que que tá acontecendo. Então a música “Morro” e “Mr President”, que são as músicas fortes que a gente tem, foi muito com a ajuda dele na escrita. E ele que nos ajudou pra hoje a gente estar falando muito bem abertamente sobre isso.

May: É, o amadurecimento que a Slick disse do Pearls Negras com ABRONCA é em relação a tudo. A gente cresceu, a gente tá agora com 21, 22 anos… Na real, a gente teve que amadurecer mesmo, pra poder abordar outros temas, falar outras coisas em uma linguagem mais adulta porque a gente também o objetivo de outros tipos de público. Então a gente realmente amadureceu no visual, na escrita, na personalidade. Acho que foi tudo de acordo com o tempo. O tempo passou e a gente sentiu essa necessidade.

Slick: Tudo pra melhorar pra vocês mesmo, sabe? Pra todos que estão nos ouvindo, isso tudo é pra melhoria do grupo.

Que bom ouvir isso. Um dos temas que vocês falam bastante é sobre o feminismo. Como vocês enxergam o feminismo dentro da favela?
Slick:
Aqui das mulheres botam os homens pra dançar, tá ligado? Porque aqui na favela, na questão da mulher ficar por baixo, não existe, não. Eu vejo mesmo as mulheres passando nos becos – Mariana e Jennifer, que moram mais pra parte de dentro morro – a gente vê mulher brigando com homem, mulher fazendo o que quer mesmo, trabalhando.

May: E muita mãe solteira.

Slick: Muita mãe solteira cuidando de filho sozinha.

May: Trabalhando de diarista…

Slick: Então aqui o que não falta é mulher com atitude.

May: Assim, eu acho que dentro da favela, a gente consegue ter a imagem das mulheres que são muito fortes e são guerreiras. As mulheres são muito independentes também. Acho que isso não só na comunidade, mas também no mundo. A metade da população é assim, são mães solteiros que cuidam dos filhos. Então, acho que dentro da comunidade isso é muito evidente.

Jay: Eu tenho o exemplo da minha mãe, que é solteira e cuida de mim e mais dois irmãos. E eu acho que a questão do feminismo é só por um direito de igualdade,  sabe? É mais essa questão. Eu acho que na favela tem muito essa garra, de ter que cuidar dos filhos, tem que trabalhar, tem que pagar aluguel. Acho que isso é uma identidade muito forte da mulher da favela.

Certo. E se tivesse que resumir em uma coisa, o que que vocês querem passar com a música de vocês?
Slick:
São muitas coisas…

Jay: Resumir em uma coisa fica difícil…

Slick: Bom, eu quero que a galera cante, que a galera fique louca no chuveiro cantando, loucas no show. Quando a gente estiver cantando, que estejam cantando junto com a gente. Na verdade, esse sempre foi o nosso sonho, sabe? De cantar em um palco e ver a galera toda cantando a música no show, do início até o final. Eu quero que a galera decore e goste demais do que a gente tá fazendo e a gente tá trabalhando ao máximo pra poder ter isso, esse resultado.

Acho que é isso, a galera abraçar mesmo o que que já tá acontecendo e a gente quer agradecer. E que vocês curtam bastante essa nova geração nossa com ABRONCA. E é isso, acho que é expectativa à mil. O álbum tá vindo muito pesado e cada musica tá vindo com muito carinho pro público, tá sendo muito trabalhado. É algo com muito carinho e suor.

E esse álbum já tem previsão de lançamento?
Slick: Não temos a previsão, mas eu acho que sai esse ano. Não sei, hein? A Warner pode brigar comigo, mas acho que pode sair esse ano. Acho que é muito importante a galera saber. Acho que no álbum, você consegue ter a identidade total do artista, do que que ele quer. E vai ter diversas músicas, tu vai ouvir bastante cada música ali e tu vai entender a direção do artista, sabe?

Jay: É muito importante um álbum pra um artista, sabe?

O que que a gente pode esperar desse álbum?
Slick:
Que perguntinhas, hein Gabi? [risos] Bom, acho que diversidade. A gente tá fazendo tudo com o pensamento da diversidade porque ABRONCA é versátil, ela faz de tudo um pouco. Vai ter músicas pesadas, vai ter funk…

May: Vai ter samba…

Slick: Vai ter charm… Vai ter tudo!

Jay: Podem esperar muita música boa e música pra todo tipo de situação.

Slick: Pra curtir em todos os lugares, vai ter diversidade.

Beleza! Bom, meninas, agora pra finalizar. Eu quero saber sobre esse festival Britadeira – Sons de Favela, que vai rolar em São Paulo.
Slick:
Irado! Estamos ansiosíssimas!

Jay: Vai ser foda pra caralho esse show aí!

Slick: A gente já participou uma vez na Favela Sounds e lá é muito legal. A galera, o pessoal do Sesc! É um carinho enorme, a gente tá muito animadas pra poder tocar lá. Eu acho que quem estiver lá, vai conseguir um ótimo show d’ABRONCA. Eu posso falar isso.

Jay: Estamos trabalhando pra isso.

Slick: Estamos trabalhando pra um novo show, um show com muita expectativa, com muitas coisas legais, músicas novas inéditas que depois vão ser lançadas com clipe, então quem estiver lá vai aproveitar bastante. Vamos todo mundo que vai estar irado!

Então o pessoal que vai no Britadeira, vai poder ouvir músicas de vocês em primeira mão?
Slick:
É, é isso! Músicas inéditas.

Jay: E vão poder ver ABRONCA de uma forma diferenciada no palco, porque a nossa performance tá bem diferente.

Slick: É! Não menininhas superpoderosas, não. Mas então superpoderosas em 3D, sabe? Com uma forma mais revolucionária. Tá muito mais atitude. Já tinha antes, mas agora tá bem mais.

[Risos] Certo! E nesses shows vocês tocam também coisas do Pearls Negras?
Slick:
Do Pearls Negras, não… Mas quando a galera pede “Pensando em Você”, a gente canta.

May: Acho que depende muito do show, do público.

Jay: É… “Pensando em Você” é hit. Ou “Meu Bem”, depende.

Slick: As vezes a gente traz de volta pra galera ter aquela saudadizinha.

Vocês vão pela vibe do público mesmo?
Slick:
Isso, a gente deixa eles decidirem. Acho que o show é nosso e deles, sabe? Não é só nosso, acho que eles também decidem o que eles querem ouvir pra poder ser algo legal pra ambas as partes.

Beleza! Esse festival Britadeira vai ter diversos artistas que vêm de guetos mundo à fora.
Slick:
Sim, tem a Carol MC! Carol de Niterói.

Sim! E tem a MC Carol, claro! E também tem representantes da Angola e do Haiti. Vocês acham que as músicas de vocês tratam de temas semelhantes aos desses artistas de outros países?
Slick: O nosso estilo de música, o que a gente faz, é meio parecido com a galera que foi convidada também. Foram uns artistas meio selecionados. Botou a Carol, a gente, a nossa amiga angolana [Titica] que a gente conheceu lá…

Jay: Ah, sim!! Exatamente.

Slick: E tem mais um homem que eu não dei uma pesquisada [Wesli], mas eu acho que a ideia foi muito fechada pra selecionar pessoas com músicas autênticas.

May: Eu acho que é muito parecido sim!

Slick: Eu acho que as ideias e o que queremos passar combina com as ideias deles. Acho que foi muito legal a seleção.

Jay: É até bom pro público poder conhecer esse tipo de artistas diferenciados que vieram de outros lugares não tão famosos e conhecidos.

Slick: Diferenciados que se conectam.

Maravilha! Vocês querem mandar um recado para os leitores do Nação da Música?
Slick:
Então, galera! Ó: primeiro tem que ouvir o nosso som lá no YouTube, “Drinks”. Tá lá e a galera tem que ainda hoje estar assistindo, por favor, compartilhar com os amigos porque o som tá muito legal e foi muito difícil…

May: Pra quem quer um som mais pesado, coloca “Chegando de Assalto” também.

Slick: Tem lá também! E galerinha, foi muito difícil fazer esse videoclipe, então vamos lá, nos ajuda a compartilhar, divulgando, vai ser muito legal. E quero falar pra vocês que tem ABRONCA agora, muitas expectativas, shows, muita coisa boa.

May: Estamos muito dedicadas.

Slick: E ouvindo demais vocês… Então eu acho que é isso, tem muitas coisas boas vindo de ABRONCA nos próximos momentos. E fala uma coisa aqui, DJ!

DJ Allan: Expectativa máxima! Positividade e vamo que vamo [risos].

ABRONCA é uma das atrações confirmadas do festival Britadeira – Sons de Favela, que acontece no Sesc Pompeia, nos dias 20 e 21 de abril. Ingressos variam de R$ 12 a R$ 40 e podem ser comprados online ou nas unidades do Sesc SP. Mais informações no site.

Deixe seu comentário no final da página, marque aquele seu amigo que também curte ABRONCA, e acompanhe a Nação da Música nas Redes Sociais: Facebook, Twitter, Spotify e Instagram.