Entrevista: Supercombo revela o real significado de “Rogério”

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Lançado na última sexta-feira (22) – você pode ouvir-lo no final dessa publicação – o novo álbum da Supercombo, “Rogério”, foi extremamente bem recebido entre os fãs do quinteto, bem como os admiradores da boa música. Mas todos eles se fizeram o mesmo questionamento: quem é esse tal de Rogério?

Nessa quinta-feira (28), o Nação da Música entrevistou o vocalista, guitarrista e compositor do grupo, Léo Ramos, que revelou, com muito bom-humor, o grande mistério por trás do personagem – algo que já tinha sido esboçado nesta resenha. Léo também falou um pouco mais sobre as grandes participações do disco, o cenário da música, histórias de bastidores e planos para o futuro da Supercombo. Confira:

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Quem ou, “o quê” é Rogério?
Léo: Ahh moleque… Vamos lá, explicar em partes. A gente quis dar um nome para o lado ruim de qualquer coisa, mais especificamente das pessoas. E pra não chamar de “lado ruim”, ou algo meio clichê, nós preferimos colocar um nome de ser humano mesmo, já que as letras tem um quesito muito introspectivo, do ser humano. O nome próprio Rogério veio da zueira mesmo, nada muito sério. E a gente gostou dessa combinação de uma temática séria, com um nome da zueira.

Mas vocês escolheram um cara bem vivido, aparentemente canastrão, sábio… pra ilustrar o personagem. Como foi que rolou isso? Como vocês pensaram a personificação do Rogério?
Léo: É como se ele fosse um sobrevivente de toda a parada.

Há algum tempo a Supercombo vem dando entrevistas falando sobre a preparação desse disco com bastante cautela e mistério. Mas se tratando das músicas, elas parecem bem roteirizadas no proposito geral do álbum, conversam entram si. Elas foram pensadas dessa forma, bem amarradas com base em um roteiro de fato?
Léo: Tentamos fazer um conceito mais amarrado possível nesse sentido. Sabe quando você tem uma ideia e ai você pensa ‘Tá, beleza. Agora vamos botar em prática’? Aí você percebe que música é um negocio que é muito difícil, porque o instrumental também conta uma história, a letra conta uma outra e a melodia também já conta uma outra história. Então, a gente teve um pouco de dificuldade pra fazer tudo do jeito que a gente queria, por isso que demoramos quase dois anos pra fazer esse disco. Sempre tomando muito cuidado com letra, sempre lendo um monte de letras de músicas de outras bandas que fazem coisas parecidas – como The Dear Hunter, por exemplo – vendo como os caras amarram esse tipo de conceito. E aí tentamos fazer a mesma coisa, só que do nosso jeito, com a nossa história. Quando achamos um padrão, que era o nome “Rogério”, eu fiz questão de repetir esse padrão em algumas letras, deixando bem claro que ele era uma coisa ruim. Quando você ouve a música “Rogério”, parece que ela se torna um parêntese dentro de tudo isso. Sempre onde teve Rogério em outras letras você encaixa toda aquela letra ali dentro. É o ponto de vista da coisa ruim falando. 

Nesse contexto, entra “Lentes” – que foi parte de uma ação e traz a participação de Negra Li. Em que pé andava o disco àquela altura? Ela foi pensada para o “Rogério” também?
Léo: Eu vou ser bem sincero: a gente gravou 19 músicas e fomos fazendo aquela seleção natural pra ver quais tinham mais a ver com as outras, pra entrar nesse contexto que falei. “Lentes” foi uma música que surgiu depois de todas essas 19. Como rolou o lance com a Sempre Livre, percebemos que essa música tinha um potencial um pouco mais pop do que as outras, e isso poderia ser uma coisa boa, porque o disco inteiro é um tipo de “pop torto”, digamos assim… Não tinha aquela musica que era “pop pop” mesmo. E pensamos ‘isso aqui vai funcionar bem como uma faixa bônus’. Mas depois pensamos ‘vai ficar como uma faixa do disco mesmo, a gente gosta dela’ e, inclusive, acabou saindo como o primeiro single, antes de terminarmos a marca do disco.

Falando em participações, o disco traz algumas outras grandes contribuições – Keops e Raony (Medulla), Emmily Barreto (Far From Alaska), Gustavo Bertoni (Scalene), Mauro Henrique (Oficina G3), Lucas Silveira (Fresno), Sérgio Britto (Titãs); além de Negra Li. Ouvindo o disco, a sensação é que eles conseguiram marcar bem as músicas com suas respectivas identidades, como se tivessem sido pensadas pra cada um. Queria que você falasse um pouco sobre os convites: foram casos pensados para cada música, de fato, ou eles foram rolando?
Léo: A gente é fã de todo mundo que chamamos para fazer participação. Então a gente acaba tendo essas pessoas, e suas respectivas bandas, como influências diretas e indiretas no nosso trabalho. A medida que a gente estava compondo as músicas, a gente pensava algo como ‘essa aqui tem a maior cara do Scalene… Já essa aqui…’. Então a gente só ligou os pontos e chamou as pessoas. Elas aceitaram, milagrosamente, e foi meio que assim. Não foi planejado. Tanto que quando a gente foi ver, estávamos com mais da metade do disco com participação e a gente pensou: ‘Irado’. Se pudesse botava a outra metade também e estava tudo certo.

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> Leia também: entrevistas com Faith No More, The Wonder Years e outros, aqui.
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Vamos voltar lá no inicio da banda, em 2007. A Supercombo começou no auge da reformulação no modo de fazer música, no ápice da revolução da internet e quando o chamado mainstream vivia uma certa escassez de novidades. Aí vimos a impulsão de várias bandas do chamado underground. Hoje, 9 anos depois, a gente vê uma cena sendo formada de novo, tão forte quanto a daquela época, mas inserida em um contexto musical muito mais democrático, talvez até mais segmentado. Como você enxergava esse panorama lá em Vitória, no inicio, e como você enxerga agora?
Léo: Eu, em 2007, em Vitória, era aquele cara que nunca tinha ido pra São Paulo ter banda. Naquela época eu já tinha banda – tocava com alguns ex-integrantes do Dead Fish ; a gente tocava por aí. Mas a gente tinha a sensação, principalmente lá em Vitória, que era muito difícil uma banda estourar, a menos que tivesse algum impulso de gravadora ou alguma coisa. Quando surgiu essas coisas de Myspace, até mesmo o Orkut… A gente viu, na época, que era um hype tão grande, que qualquer coisa que aparecesse e caísse no gosto da galera já tinha uma impulsão automática, que já fazia uma galerinha comparecer em qualquer lugar que você fosse tocar. Acho que todo mundo começou a perceber isso e começou a usar, explorar. Lógico, esse mercado de internet e bandas underground começou a ficar maior ainda.

Quando vim pra São Paulo, o que eu, vi na época, era que as bandas estavam bombando sozinhas – assim, fazendo shows, fazendo carreira… Podia não ter Limusine buscando na porta do hotel, mas tinha uma vanzinha ali, fedendo a mofo, que estava rolando. Eu não sei te dizer a diferença exata daquela época, a não ser a tecnologia que avançou muito. As pessoas passaram a ter mais conhecimento e ter condição de estar mais inseridas diretamente nessas plataformas digitais onde você ouve musica, vê vídeos. Então o acesso a isso se tornou muito mais fácil. E outra: quando você tem um serviço como o Spotify, você não fica mais com vontade de piratear CD, né? Então o artista meio que sente um pouco mais seguro pra divulgar e lançar seus produtos, porque eles tem um retorno um pouco mais direto e, mesmo que não seja tanto, comparado à época das gravadoras, é um retorno que dá pra você contabilizar (…) Eu lembro também que, naquela época (2007), algumas coisas eram meio que empurradas goela abaixo e, hoje em dia todo mundo ouve o que quer, quem não ouve o que quer tá precisando se atualizar um pouco.

O ciclo desse cenário de hoje vai desencadear e influenciar inúmeras outras bandas. Então, você poderia falar diretamente para essa galera agora: o que, realmente, é viver de música?
Léo: É uma guerrilha irada. Em outras palavras é isso, tem dias que é muito massa, tem dias que é ruim. É um trabalho como qualquer outro. Ultimamente temos vivido só momentos bons e eu não tenho do que reclamar mesmo, estou bem feliz. Mas quem acredita mesmo que pode viver de música, consegue. É só se dedicar, se esforçar e fazer as coisas com carinho que dá certo. A persistência e a paciência também são fundamentais, ninguém faz sucesso do dia para a noite. Não se eu estou desanimando a galera, mas acho que é isso aí.

Em uma entrevista recente sua, perguntaram qual eram as experiências mais marcantes que você tinha vivenciado tocando em grandes festivais. Você respondeu de bate pronto: “Foi ver a galera trabalhando! Gosto muito de observar as pessoas trabalhando e a interação com o público, com a equipe, com o festival”. Geralmente, as melhores histórias acontecem justamente nesse cenário, com o parceiro da mesa de som, o operador de PA, os roaddies… É onde rola a chamada resenha. Será que rola de você contar alguma dessas histórias que só o rock e a música proporcionam?
Léo: Tem muitas, cara. É o caso de a gente sentar e fazer uma matéria só disso… Mas vou te contar uma que aconteceu esse ano. A gente foi tocar em um lugar muito maneiro. Não tivemos tempo de passar som, aí a gente ia fazer um checkline. Mas de última hora, a galera não descolou a energia pra fazer o checkline. E a gente toca com a guia, de fone. Então quando a gente subiu no palco, fomos sem ter passado o som, sem ter feito nada. Olhamos um pra cara do outro e, ninguém ouvindo nada do que estava fazendo. A gente foi mais da metade do show na mímica do que a galera estava tocando, e a gente foi junto. Tudo isso tentando manter um sorriso pra galera. E o técnico de monitor quase tendo um infarto. É a guerrilha, tá vendo? O lance é que o público não tem nada a ver com isso, né? A gente faz a parada acontecer do jeito que tem que acontecer e acabou. Não é a equipe que vai salvar um show e também não é um show que vai salvar a equipe.

Pra finalizar, uma mensagem pros fãs da banda e o que você puder adiantar sobre shows, clipes e novidades. O que vem por ai?
Léo: Um muito obrigado pra galera que ouve e gosta da Supercombo, se identifica com as letras e tá acompanhado toda essa loucura e viagem que a gente tá tentando fazer. Vamos pros shows aí que vão ser muito legais nessa turnê nova. A gente está confabulando um monte de lyric vídeos, planejando todo o lance do lançamento. Não sei se posso te falar em detalhe o que vem por ai, porque a gente também nem definiu 100% tudo ainda. Mas vai ter clipe, vai ter single… e é do disco novo!

Nota: Questionado se a música “Bonsai” poderia ser o novo single, Léo desconversou e revelou que era uma música que ele não botava muita fé, mas que muita gente está preferindo…

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André Ávila
Salvador, BA | 1990

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