Foto: Divulgação

Sempre inovando, a banda Titãs acaba de lançar o DVD da sua Ópera Rock “Doze Flores Amarelas”, um estilo inédito no Brasil. Com mais de 25 músicas que contam a histórias de três mulheres chamadas Maria, a obra é narrada por ninguém mais, ninguém menos do que Rita Lee.

A Nação da Música conversou com Tony Bellotto sobre o lançamento da Ópera Rock em DVD, sobre como foi a concepção do trabalho, as dificuldades do novo estilo e também sobre o futuro da banda daqui para frente.

Entrevista por Marina Moia.

———————————————————————————- Leia a íntegra:
Obrigada por falar com a gente! Pode falar um pouco sobre como surgiu a ideia de produzir um trabalho como “Doze Flores Amarelas”? Era algo que vocês sempre quiseram fazer?
Tony: Não, foi uma ideia que apareceu há uns três anos. A gente tinha lançado “Nheengatu”, que foi um disco muito bem recebido, com uma repercussão excelente, de público e de crítica. Mas era um disco muito forte, muito criativo, bem conceitual, com temas relevantes, diferentes, ousados. A gente então pensou “nossa, qual vai ser o próximo trabalho?”. Queríamos fazer uma coisa forte. A gente não se motiva mais a fazer um disco de carreira. Temos essa necessidade de fazer algo grande, que seja um desafio para gente.

Dai surgiu a ideia de fazer a Ópera Rock, que é uma coisa que nunca foi feita no Brasil, não por um artista mais popular, pelo menos. A gente caiu de cabeça nesse projeto, foi um trabalho que demorou pra ser feito, foi trabalhoso, mas a gente está muito satisfeito com o resultado. É um trabalho realmente original, uma coisa nova, enfim, foi muito satisfatório.

Quão diferente é o processo de produção e de criação das músicas para a Ópera Rock do que para um disco “normal”, digamos?
Tony: Muito diferente, totalmente! A Ópera Rock é uma história contada pelas canções. Então apesar do disco ser composto de canções como qualquer outro disco, essas músicas têm o sentido de narrar uma história do campo da dramaturgia. A gente já começou por essa primeira questão de “temos que bolar uma história. Que história é essa que vamos contar?”.

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Começamos a fazer encontros criativos com o Hugo Possolo, que é diretor e autor de teatro, e com o Marcelo Rubens Paiva, escritor, jornalista, dramaturgo, e que são amigos nossos, companheiros de geração. Conversando, pensando na situação atual, nas coisas que acontecem, nessas coisas relevantes, na questão super importante das mulheres e de como elas estão se colocando e reivindicando seu lugar de verdade, jogando pra trás e tentando vencer essa opressão masculina de séculos.

A gente foi caminhando pra essa ideia de ter três protagonistas femininas, meninas que seriam como alter egos nossos. Assim foi surgindo a história. Depois começamos a fazer as músicas. Foi um processo longo, onde uma coisa ia ajudando a outra, e assim fomos formatando o projeto. Mais de 25 músicas.

A maneira de criar, como você perguntou, foi muito diferente porque a gente já compunha com um objetivo. “Essa é a canção de determinado personagem, essa é a canção pro momento que aconteceu tal coisa”. Foi uma experiência nova pra gente também e a gente compôs muito, de uma maneira que não fazíamos há muitos anos. Foi um processo febril de criação, muito legal.

Quanto tempo levou desde a concepção da Ópera Rock, das primeiras ideias, até o momento dela estar pronta?
Tony: Acho que foram uns três anos, até agora que estamos lançando. Dois anos no processo de criação. Dai eu lembro a Ópera ficou pronta agora no começo do ano e a gente fez a estreia no Festival de Teatro de Curitiba. A essa altura, a gente já estava gravando o disco de estúdio, mas o produto principal é mesmo esse DVD, que tem a encenação. Se você pegar e contar tudo, foram quase três anos.

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Você já falou sobre as diferenças do modo de produção, mas quais os maiores desafios e dificuldades num trabalho dessa grandiosidade?
Tony: A própria grandiosidade do projeto em si. Tem momentos que a gente pensava “será que vamos conseguir fazer, será que vai ficar legal? Vai ficar bom? Vai funcionar?”. No momento que a gente ia criando as músicas e vendo se elas conseguiam funcionar pra contar aquela história, porque ela só é contada através das músicas. Precisam funcionar como uma narração.

Isso que foi interessante no projeto, que eu te falei que foi trabalhoso, mas foi satisfatório. A gente ia descobrindo o que tinha que fazer… Ia melhorando as músicas, mudando uma coisa ou outra. Chegou um momento em que percebemos que seria necessária uma narração, por mínima que fosse porque não queríamos botar muita palavra muita explicação no projeto. Mas era preciso ter um narrador que pontuasse alguns momentos para que quem está ouvindo e assistindo, entendesse o que está acontecendo. Como a história é contada pelas músicas, nem sempre fica claro quais são os acontecimentos da trama e tudo mais.

Foi aí que surgiu a ideia de chamar a Rita Lee, ela topou, foi maravilhosa. Acho que deu toda uma aura especialíssima pro projeto. Em algumas músicas, a gente sentiu necessidade de colocar arranjos de corda, então chamamos o Jaques Morelenbaum pra fazer alguns arranjos.

As dificuldades foram essas, mas foram justamente essas dificuldades que proporcionaram a qualidade do trabalho. Que desafiaram a gente, que fez com que a gente trabalhasse muito intensamente no projeto.

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A Ópera Rock fala sobre mulheres, sobre estupro e assédio, temas que estão muito em evidência atualmente. Mas vocês são homens! Pra vocês, qual a importância de um homem também falar sobre esses assuntos?
Tony: Foi uma questão difícil pra gente porque a partir do momento que decidimos que essa era a história, dessas três meninas, e que o acontecimento fundamental da trama é quando elas sofrem essa violência sexual, é claro que estávamos usando da liberdade criativa que qualquer autor deve ter, de criar personagens, mesmo que eles sejam profundamente distantes daquilo que você é como autor. Eu posso criar uma mulher, posso criar um vilão, enfim, como sempre foram criados nas grandes histórias, por autores e autoras ao longo da História.

Mas neste momento atual, como você disse, que a questão da mulher é tão sensível e que de certa maneira esses problemas sempre aconteceram, mas agora estamos ouvindo falar mais deles justamente porque as mulheres estão se colocando mais e apresentando mais os seus problemas. Ficamos com essa questão. Não podíamos fazer algo que ficasse mal entendido ou que as mulheres achassem que a gente está tentando tomar um espaço que é delas, que fala de um assunto que é delas.

Tomamos muito cuidado e fomos sensíveis, ouvimos muita gente. No sentido de ficar claro que ali somos homens falando de mulheres, mas que essa questão da mulher também é uma questão dos homens. É uma questão de ser humano. Porque nisso da opressão feminina, dessa violência que as mulheres sofrem, quem pratica essa violência e essa opressão são os homens! Os homens precisam também pensar sobre aquilo e mudar de atitude em relação às mulheres. É uma coisa que não se resolve só pela atitude da mulher. Sim, é importantíssimo, mas o homem precisa rever o que ele pensa da mulher. Nesse sentido, a gente pensou e refletiu muito sobre isso.

Em determinado momento do projeto, a gente achou que era preciso chamar três meninas cantoras e atrizes que pudessem personificar essas personagens. Achamos que aquilo sendo cantado pela voz das mulheres teria uma outra força e foi o que aconteceu. Quando elas chegaram, a Yas, Corina e a Cynthia, que foram ótimas, elas também colocaram as vivências delas, conversamos sobre aquilo que estávamos falando, se elas se identificavam com aquilo, se a gente estava falando direito [risos]. Elas nos ajudaram muito nesse sentido. Outras mulheres que estavam na equipe também ajudaram, a Ângela que fez a produção, a Luciana que fez a co-direção do DVD…

Ficamos preocupados em estar entrando num espaço que não era “nosso” [risos]. Sobre aquela questão que você perguntou, sobre fazer músicas pra Ópera, o quanto isso é diferente das músicas de um disco normal, tem uma chamada “Não Sei” que é a faixa que é cantada pelos abusadores. Foi uma música difícil de fazer e ruim porque a gente não concorda com aqueles personagens, mas temos que cantar como se fossem eles falando. São caras insensíveis e escrotos em relação às mulheres.

O que eu acho que ficou legal, que tomamos muito cuidado também, é que a Ópera é obviamente feminista, a favor da mulher e deixa muito clara a nossa posição contra essa violência, opressão que elas sofrem. E a Ópera, na narrativa, termina com uma tomada de consciência das mulheres, de que elas precisavam, mais do que se vingar dos abusadores com um feitiço, tentando matá-los, mas que o importante era denunciarem aquilo e elas  tomarem o pulso da própria vida delas, sem levar em conta o que o aplicativo fala, o Oráculo que elas seguem. E então seguir, como dizer a última música, “sei que seremos quem queremos ser”.

Acho que foi muito interessante essa discussão toda pra gente, nós crescemos muito como seres, como cidadãos, e se aprofundando nessa questão de mulher. Porque é claro que a gente sempre teve uma visão pró-mulheres, nunca concordamos com o machismo. Mas pensar tanto sobre isso deixou a gente ainda mais consciente.

Esse disco definitivamente é um grande passo na carreira do Titãs, algo que basicamente nunca foi feito dessa maneira por aqui. Vocês sentem que ele é um divisor de águas pra banda? O que vem pela frente depois dele? Vocês pretendem continuar com a Ópera Rock em turnê?
Tony: Eu acho que ele é um marco na nossa carreira e um marco no rock and roll brasileiro. O fato de ser algo inédito, uma coisa que aparentemente vai contra o mercado, que hoje em dia é muito cauteloso, muito medroso. Ninguém ousa nada. Quando “bota” uma música nova, é uma música só.

Tem muito artista consagrado, como a gente, que está requentando a carreira, lançando disco acústico, releituras dos maiores sucessos. Então por tudo isso, tem uma importância muito grande. Estamos concentrados em lançar o DVD e, logo no começo do ano que vem, iniciar uma grande turnê com a Ópera, pelas capitais, diversas cidades do Brasil, pra levar esse trabalho com as cantoras, os atores, a projeção, enfim, fazer uma coisa legal. A gente está muito imbuído do espírito da relevância desse trabalho.

Gostaria de mandar um recado aos leitores da Nação da Música?
Tony: Ah, eu gostaria! [risos] Gostaria que vissem e ouvissem essa Ópera com muito com muita atenção porque acho que é um trabalho que realmente estamos muito orgulhosos dele, a gente se dedicou muito. Esses 36 anos de carreira, tudo que a gente ganhou de experiência, está tudo ali, nessas “Doze Flores Amarelas”.

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