Foto: João Wainer

O músico Rael liberou nesta quinta-feira (12) o álbum inédito “Capim-Cidreira”, nas plataformas digitais. O trabalho de estúdio conta com a participação de Thiaguinho e da banda Melim.

A Nação da Música teve a oportunidade de conversar com Rael sobre o lançamento, desde a superação do período depressivo e como isso ajudou a formar o disco a também sobre as colaborações e a influência que viagens à África tiveram no trabalho.

Entrevista por Marina Moia.

—————————————- Leia a íntegra:
Oi, Rael! Como estão as expectativas pra esse novo disco que sai nesta semana, Capim-cidreira?
Rael: Naquela ansiedade! Nunca dá pra saber como vai ser, é uma incógnita. Só quando soltar. Mas estou naquela ansiedade natural das coisas…

Você fez a produção sozinho desta vez. Já tinha feito isso antes em algum disco? Como foi essa experiência, ter esse completo controle criativo?
Rael: Eu fiz isso no “MP3” e no “Diversificando” também. Mas eu não tinha os recursos e a experiência que eu tenho agora. Acho que por isso que esse é uma estreia mesmo, de verdade. Tem muitas pessoas que nem sabem que eu produzi também então acho que esse vai ser o momento que elas vão descobrir isso.

E falando em processo criativo, eu conversei com você em 2016 quando você lançou “Coisas do Meu Imaginário” e você disse que o processo era bem diverso, tinha hora que vinha a letra primeiro ou então o instrumental primeiro, etc. Mas parece que neste trabalho teve uma mudança certo? Como foi isso e como funcionou o processo criativo e de composição desta vez?
Rael: Como eu entrei nessa história de produzir, fui testando, desde a base, vendo o que funcionava e o que não funcionava. “Vendaval” foi a primeira que eu fiz e foi uma das últimas que finalizei porque eu não conseguia desenvolver nada nela. E às vezes você tem que adivinhar o que a base está falando, o que vou salvar aqui, o que está faltando neste instrumental. É um trabalho que acaba sendo bem minucioso. Foi isso. Tanto que sobrou um monte de base e teve as remix também, de “Flor de Aruanda” e “Especial”, que iam ser de um jeito, mas no meio do caminho eu mudei de ideia. Fiquei com traços de depressão, eu vi que tinha que me aproximar de coisas mais suaves, amor, relax. Foi assim que funcionou em “Capim-Cidreira”, essa mistura, as músicas são mais solares, dançantes e algumas são bem calmas. Eu senti que queria me aproximar disso neste processo. Tudo devido ao fato de ter passado por essa experiência.

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É, muitos artistas passam e já passaram por períodos assim – claro que cada pessoa é uma pessoa – mas muitas vezes acabam surgindo trabalhos mais melancólicos, introspectivos. O que não tem nada a ver com “Capim-Cidreira”, como você disse, que é mais positivo, otimista, alegre. Pode falar mais sobre tomar essa decisão de ir pra esse lado criativo?
Rael: Porque eu vi que era isso que eu precisava colocar no mundo. É aquela coisa do poder da palavra na verdade. Quem ia produzir o disco era o Miranda, mas ele faleceu no mesmo do processo do disco. Tive que passar por esse processo de luto e me encontrar musicalmente, saber o que eu ia fazer. Aí fiquei meio deprimido, tudo isso contribuiu pra esse acontecimento. 

Eu pensei “puts, vou ter que gravar, vou ter que montar meu estúdio”. Arrumei e vi que precisava achar um nome pra ele. Comecei a chamar ele de “Horta” porque é lá que sempre tenho as minhas ideias e quando fui ver já estava plantando porque tem uma muretinha na frente do estúdio que era uma horta, mas estava meio abandonada. Comecei a dar mais vida pra ela. Quando você vê, já está plantando. Tem salsinha, tem cebolinha, enfim. As plantas que acabam lembrando a minha avó, que era benzedeira e tinha uma horta bem grande e ela dava capim-cidreira pra gente. Porque na medicina popular, capim-cidreira tem propriedade antidepressiva, calmante, relaxante…

Parece que é uma daquelas coisas que você tem que passar. Aconteceu isso e eu mudei toda a ideia do disco, eu me aproximei mais da natureza. 

Que bom que deu certo no final e que o resultado foi um álbum tão completo e tão positivo!
Rael: Sim! Eu estava fazendo músicas mais melancólicas, mas parecia que eu ia chegar na hora do show e ia ter que falar algo assim: “E ae, quem tiver triste, coloca a mão pra cima!” ou “Quem fez merda ontem coloca a mão pro alto!” [risos]. Então vi que precisava ser de uma outra pegada, mais pra cima, mais Jorge Ben. 

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Eu me lembro de uma vez que fui num show dele, do Jorge Ben, e eu não tinha dinheiro não tinha nada. Mas fomos mesmo assim, tínhamos tomado umas garrafas de vinho, aí acabamos arrumando um amigo que pagou. No meio do show, vi as pessoas pulando e se divertindo, no meio de “Taj Mahal”, todo mundo junto, quem eu nem conhecia. Então eu pensei em fazer as coisas mais good vibes.

Nosso editor-chefe, Rafael, tem uma pergunta também. Pra ele, a faixa inicial “Bença Mãe” lembra uma reza, como se fosse uma benção mesmo pro disco que está começando. Foi intencional, é assim mesmo?
Rael: Sim, esse disco tá muito pro lado materno, pra agradecer mesmo, ao materno, ao planeta Terra, o que ele nos oferece, ar, alimento, vida. Você poder sentir as coisas. É algo que vivemos todos os dias, mas que muitas vezes passa batido. Tem gente que está sempre na correria e não reconhece isso. 

“Bença Mãe” é isso, falando “obrigado, mãe”. Mãe de sangue, mãe natureza. E aí também tive que puxar e falar da mãe que sofre, da mãe de luto. Com filho que morre na mão na polícia, nas periferias, os negros, e até a Amazônia queimando também. O planeta sente essas dores.

Rael, você trabalha com o rap, reggae, até mesmo com pop. Mas antigamente a gente via os artistas muito fechados em caixinhas. Quem fazia rap, só fazia rap. Quem cantava heavy metal, só cantava heavy metal. A não ser em parcerias pontuais. Como você vê essa mistura hoje em dia, com os estilos se encontrando cada vez mais na música, principalmente brasileira?
Rael: Pra mim na verdade é um pouco sem mistério porque quando eu tinha o grupo chamado Pentágono, a gente já fazia isso, já misturávamos rap com samba com MPB. A gente ficou na estrada por anos e fazendo isso. Eu acho legal que esteja acontecendo isso, mas é uma coisa que eu já almejava e já fazia. Eu gosto da diversidade e também não sou de colocar em caixinha porque assim você separa. Tem que pensar na música como um todo. Acho que cada um tem um ritmo, tem um jeito, mas não precisa ficar preso num gênero. 

Você passou por três países da África e tenho certeza que influenciou muito em “Capim-cidreira”. Podemos perceber ouvindo o disco. Como foi passar por essa experiência? Inclusive gravar o clipe de “Flor de Aruanda” em Angola?
Rael: Foi mágico! Em Angola tinha isso da língua, que a gente podia se comunicar, as pessoas cantaram a música, foi uma troca muito boa. Já Zimbabwe e Tanzânia também somou com muitas coisas que vi na África, lá tem muito afropop e até afrotrap. E eu gostei muito do afrofusion, que é o afrobeat misturado com coisas mais atuais, mais eletrônicas. Comecei a ouvir muito disso e você acaba absorvendo, trazendo pro trabalho. Eu voltei com essa parada, essa influência africana. Já tinha feito isso, numa música chamada “Caminho”. Dai nesse [trabalho] usei muito em “Bença Mãe”, em “Beijo B”, por aí vai.

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No disco temos participações de Thiaguinho, com quem você já trabalhou antes, e Melim. Como foi gravar com eles?
Rael: Foi muito massa e aconteceu naturalmente! Thiaguinho eu já tinha gravado com ele e falei que tinha uma base que achava que tinha a ver com ele. Ele gostou da música e conseguimos gravar juntos. 

A Melim já tinha me chamado pra participar do disco deles, mas eu tava no começo de “Capim-Cidreira”, cheio de trabalho, e acabei não conseguindo. Mas gostei da música. E depois a gente se encontrou na estrada, começamos a conversar, e quando fomos pensar em parcerias pro disco eu pensei que podia rolar com eles. Toparam na hora o convite e deu super certo.

Já está preparando uma turnê deste disco? O que os fãs podem esperar?
Rael: Agora a gente vai lançar o disco no dia 12, soltar pro mundão, e acho que mais pra frente vamos ver isso. Esperar o pessoal absorver, entenderem a concepção, a mensagem. Lá pra final de outubro, começo de novembro, a gente vai começar a dar um pontapé na turnê. Vamos ver, nunca dá pra saber o que vai acontecer né [risos].

Gostaria de mandar um recado aos leitores da Nação da Música?
Rael: Quero falar pros leitores da Nação da Música que a partir de hoje as pessoas podem consumir “Capim-Cidreira”, abrir sua mente e coração através de música.

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