Entrevistamos Leandro Serizo sobre “Mosteiro do Abismo” e novo disco

Leandro Serizo
Foto: Divulgação

O cantor e compositor campineiro Leandro Serizo acaba de lançar o single “Mosteiro do Abismo”, primeiro vislumbre de seu próximo álbum, “SOL QUIMÉRICO”, previsto para meados de 2026. A faixa mistura rock progressivo e MPB contemporânea, chegando acompanhada de um videoclipe com forte carga simbólica.

Gravado em uma construção abandonada do século XIX, o clipe foi dirigido por Stephanie Rios e inspirado no cinema ritualístico de Alejandro Jodorowsky e Sergei Parajanov. A narrativa acompanha Cairo (vivido por Serizo) em uma jornada de transformação. Duas figuras femininas guiam o percurso: Ikki, uma anciã que conduz rituais de purificação das sombras, e a Dama da Lua, corpo em órbita que evoca movimento e leveza.

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Já “SOL QUIMÉRICO”, que figura como laboratório de seu mestrado na Unicamp, é um disco conceitual de 13 faixas ambientado no ano de 2222. Em uma trama distópica contínua, o álbum propõe reflexões sobre tecnologia e corpo, o futuro dos vínculos humanos, espiritualidade, coletividade e as tensões entre máquina e sensibilidade.

Ao Nação da Música, Leandro Serizo comentou as inspirações para a composição de “Mosteiro do Abismo“, referências do clipe e expectativas para o novo disco.

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Entrevista por Isabel Bahé.
————————————– Leia a entrevista na íntegra:

“Mosteiro do Abismo” sugere um lugar de paradoxo: clausura e perigo, recolhimento e queda. O que te levou a construir essa imagem para falar de ambivalências emocionais?
Leandro Serizo: Essa imagem veio muito de um estado de reclusão diante de alguns desejos quando se é artista independente. O começo da letra nasceu quando eu estava vivendo uma espécie de relação não correspondida, aquele lugar onde você se recolhe, tenta entender o que sente, mas ao mesmo tempo vai se afundando em perguntas sem resposta. O “mosteiro” tem essa ideia de introspecção, silêncio, quase um refúgio… mas o “abismo” é o risco de se perder dentro disso.

Então a música nasce desse conflito: um espaço que deveria curar, mas que também pode te engolir. Acho que todo mundo já viveu esse lugar ambíguo, onde o recolhimento vira excesso de pensamento e o cuidado vira queda.

A faixa é descrita como um território onde silêncio e ruído coexistem. Como foi o processo de composição da música e como foi traduzir esse paradoxo (silêncio x ruído) na composição e nos arranjos?
Leandro Serizo: Como o disco é essencialmente de rock, eu queria que essa música tivesse uma melancolia que não fosse necessariamente tristeza, mas uma espécie de nostalgia. Esse sentimento eu sempre encontrei em algumas músicas do Radiohead, e acho que o arranjo nasce um pouco desse lugar.

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Ao mesmo tempo, eu não queria perder a influência do meu canto, que vem muito da MPB, especialmente dos anos 70. Meu jeito de cantar é muito atravessado por isso, e quis manter essa identidade como um contraponto.

Quando a bateria começou a caminhar para um lugar mais próximo do R&B e do lo-fi, senti que essas vertentes começaram a se cruzar de forma mais orgânica. Acho que o silêncio e o ruído aparecem justamente nesse encontro entre o íntimo da voz e a textura mais
densa do instrumental.

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O videoclipe foi gravado em uma construção abandonada do século XIX e você menciona inspiração no cinema ritualístico de Jodorowsky e Parajanov. Como foi o processo de criação visual?
Leandro Serizo: Foi um processo muito intuitivo, mas ao mesmo tempo cheio de símbolos. A gente quis criar um espaço que parecesse fora do tempo, como se aquele “mosteiro” existisse num plano simbólico, não literal.

As referências do Jodorowsky e do Parajanov vieram muito nessa ideia de imagem como rito, como transformação. Não é um clipe narrativo no sentido clássico, é mais um percurso emocional, quase iniciático.

Também tem uma influência importante do Dead Can Dance, principalmente na forma como o som e a imagem podem evocar algo ancestral e psicodélico, quase litúrgico. A locação ajudou muito nisso, porque aquele espaço já carregava uma memória decadente.

“Mosteiro do Abismo” inaugura o universo do álbum SOL QUIMÉRICO. O que podemos esperar desse novo trabalho?
Leandro Serizo: É um disco com uma sonoridade bem singular, fruto de muita experimentação a partir das diferentes referências que me atravessam.

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“Mosteiro do Abismo” está entre as faixas mais calmas do álbum. Em outros momentos, eu exploro bastante aspectos polimétricos e polirrítmicos, como nas faixas “SOL QUIMÉRICO I” e “SOL QUIMÉRICO II”.

Também tem extremos bem marcados, como um metal mais agressivo em “CIBORGUE TYRANNUS”, ou um rock industrial em “MARIAKLÖSE † (industrial machine)”, que flerta com uma estética mais do dark pop experimental. É um disco de contrastes, tanto emocionais quanto sonoros.

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O álbum se passa em 2222 e aborda tecnologia, corpo, espiritualidade e vínculos humanos. Por que escolher a ficção científica para falar do presente?
Leandro Serizo: O futuro é uma forma de falar do presente. A ficção científica cria uma distância que permite enxergar com mais nitidez questões que, no agora, já estão naturalizadas.

Falar de 2222 é, na verdade, falar do que a gente já está vivendo: como o corpo se transforma, como os vínculos mudam, como a tecnologia atravessa tudo, inclusive a forma de amar, de sentir, de existir.

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É como um espelho distorcido do presente, que revela coisas que a gente ainda não conseguiu nomear totalmente.

Esse disco nasce não só dos sentimentos mais íntimos que aparecem em “MOSTEIRO DO ABISMO”, mas também de uma percepção do mundo, uma sensação de sufocamento diante das guerras, da aceleração da vida e do processo de robotização do ser humano.

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Aproveitando o ensejo sobre o conceito do disco, você acredita que o futuro distópico, hoje, parece mais próximo do que a utopia?
Leandro Serizo: Acho que existe uma sensação coletiva de que a distopia está mais palpável, sim. Mas eu tento não me render completamente a isso. Mesmo dentro de cenários difíceis, ainda existem gestos de cuidado, de afeto, de criação, e isso também é uma forma de utopia, mesmo que pequena, mesmo que frágil.

O disco conversa com esse lugar de não negação do peso do mundo mas tenta encontrar alívio entre texturas distorcidas e letras malucas, fora da curva do mercado musical atual.

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Você menciona seu mestrado na Unicamp como um “laboratório” do disco. O que a academia pode oferecer para um artista que já tem uma prática de rua e de palco?
Leandro Serizo: A academia me proporcionou algo muito importante, que são redes com artistas de diferentes áreas, todos com o mesmo desejo de criar e experimentar com liberdade.

A Unicamp é um espaço muito fértil, um verdadeiro celeiro de jovens artistas em processo de profissionalização e ascensão. É um ambiente de troca intensa, de imersão coletiva. O meu mestrado, que se chama “LAB SOL QUIMÉRICO: vivência artística integrada”, nasce justamente desse desejo de não separar a criação artística da pesquisa acadêmica.

Dentro dele, eu conduzo uma disciplina voltada para performance, musicalidade e experimentação de si. Foi uma forma muito potente de aprofundar minha própria linguagem e de integrar prática e pensamento no meu processo como artista.

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Isabel Bahé
Isabel Bahéhttps://linktr.ee/isabelfbahe
Jornalista bibliófila que respira músicas.